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O aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial durante o El Niño interfere na circulação atmosférica global e pode intensificar secas, enchentes e ondas de calor (Movimiento Ciudadano frente al Cambio Climático/Reprodução)
Repórter de ESG
Publicado em 20 de maio de 2026 às 18h00.
Última atualização em 20 de maio de 2026 às 22h36.
Quais as chances de um super El Niño em 2026? A ciência ainda considera cedo para afirmar que o fenômeno atingirá um nível excepcionalmente intenso ou que provocará uma crise global como o episódio histórico de 1998.
Mas uma preocupação já é unanimidade entre cientistas: desta vez, o El Niño causa um temor maior pois se desenvolve em um planeta mais quente e em oceanos já superaquecidos pelas mudanças climáticas.
E é justamente no Pacífico Equatorial que são observados alguns dos sinais mais relevantes, por meio de sistemas de monitoramento da temperatura da superfície do mar como boias, satélites e sensores.
Nos últimos dias, o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos elevou o status de alerta, ao apontar que há 82% de chance do El Niño surgir entre maio e julho de 2026, além de 96% de probabilidade de ele persistir até o inverno do hemisfério norte, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Também neste mês de maio, a Organização Meteorológica Mundial e a agência climática dos EUA (NOAA) identificaram áreas do oceano com temperaturas até 6 °C acima da média histórica.
Segundo o cientista climático Paulo Artaxo, o aquecimento observado no Pacífico ajuda a explicar a apreensão crescente.
“Para uma área que é quase quatro vezes o Brasil, termos tanta água com temperatura acima da média é uma quantidade brutal de energia sendo dissipada na circulação planetária global”, destacou em entrevista à EXAME.
O El Niño ocorre quando as águas da região central e leste do Oceano Pacífico Equatorial ficam anormalmente mais quentes. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e modifica padrões de chuva, temperatura e ventos em diferentes regiões do mundo.
Os impactos variam. Em geral, o fenômeno aumenta o risco de secas em partes da Ásia, Austrália e Amazônia, enquanto pode intensificar chuvas em áreas da América do Sul.
No Brasil, os efeitos normalmente aparecem de forma desigual: enquanto o Sul tende a enfrentar chuvas mais intensas e risco maior de enchentes, partes da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste podem registrar seca, calor extremo e condições mais favoráveis a incêndios florestais.
Os impactos atingem a produção agrícola, preços de alimentos e mercados de energia,[/grifar] o que coloca o fenômeno no centro do debate sobre risco climático e adaptação.
Para Artaxo, a principal questão é que o El Niño atua hoje sobre um sistema climático já alterado pelo aquecimento global.
“O fenômeno faz o clima sair da sua normalidade e ele está sendo agravado pela crise climática”, afirma.
No Brasil, cientistas acompanham especialmente o potencial devastador sobre extremos climáticos. O último El Niño forte coincidiu com a seca histórica da Amazônia, enchentes no Rio Grande do Sul e incêndios severos no Pantanal.
Embora ainda seja cedo para prever se 2026 repetirá eventos dessa magnitude, o país continua bastante vulnerável aos impactos climáticos.
“O Brasil não está preparado. Há muito a ser feito para proteger a população”, lembrou o cientista, reforçando a urgência da adaptação climática.
Segundo ele, as consequências podem atingir desde infraestrutura urbana até agricultura, segurança hídrica, energia e saúde pública. “Os potenciais impactos econômicos e sociais são gigantes”, conclui.
Recentemente, o Cemaden também alertou para um "desastre térmico" e a possibilidade de ondas de calor recordes no país em razão do El Niño.
Cientistas mundo afora fazem algumas ressalvas na hora de cravar um "super El Niño". Projeções feitas entre março e maio historicamente apresentam maior margem de erro, em um fenômeno conhecido como “barreira de previsibilidade da primavera”.
Além disso, os modelos ainda divergem sobre a intensidade final do aquecimento no Pacífico Equatorial.
Meteorologistas acompanham especialmente a chamada região Niño 3.4, principal faixa usada internacionalmente para medir a intensidade do El Niño.
Na última atualização semanal, a área registrou temperatura 0,4 °C acima da média histórica, ainda abaixo do patamar normalmente utilizado para oficializar o fenômeno.
Mesmo assim, parte dos modelos climáticos passou a indicar um cenário de aquecimento mais intenso nos próximos meses.
Segundo o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, mais da metade das projeções aponta temperaturas acima de 2,5 °C até o outono no hemisfério nortee algumas simulações mais extremas sugerem aquecimento superior a 3 °C.