Ipanema: pesquisadores encontraram dois bancos de rodolitos nas proximidades das Ilhas Cagarras (Ricardo Gomes/Instituto Mar Urbano)
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Publicado em 29 de setembro de 2026 às 10h46.
Um ecossistema formado por milhares de algas calcárias cor-de-rosa foi descoberto a apenas quatro quilômetros da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Localizados nas proximidades das Ilhas Cagarras, os bancos de rodolitos servem de abrigo para peixes, crustáceos, moluscos e outros animais marinhos.
Os rodolitos já eram conhecidos na região, mas ainda não havia sido descrita uma concentração dessa dimensão capaz de formar um ecossistema rico em vida marinha.
O primeiro banco foi encontrado em abril pelo biólogo Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano (IMU). Ele mergulhava na região para fotografar raias quando chegou a uma área pouco explorada e encontrou o fundo do mar coberto pelas estruturas rosadas.
Após a descoberta, novos mergulhos foram realizados e revelaram um segundo banco. A existência dos ecossistemas foi confirmada pelo biólogo Rodrigo Leão de Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em ambientes de recifes, segundo o O Globo.
Até agora, os pesquisadores identificaram dois bancos de rodolitos, mas acreditam que outros possam existir na região. O mais próximo da costa ocupa aproximadamente 20 mil metros quadrados, área próxima à de três campos de futebol. Ele está a cerca de dez metros de profundidade.
O segundo banco fica em uma região mais profunda, apresenta distribuição mais dispersa e ainda foi pouco explorado. Agora, os pesquisadores pretendem usar um robô submarino e equipamentos de sonar para determinar com maior precisão a extensão das áreas.
O trabalho contará com um ROV, veículo submersível controlado remotamente e equipado com sensores e câmeras. Um sonar de varredura lateral também será utilizado para produzir imagens do fundo marinho por meio de ondas sonoras. Os rodolitos podem ser identificados dessa maneira porque apresentam densidade diferente da areia sobre a qual se encontram.
Apesar da aparência de pedras, os rodolitos são formados por algas vermelhas calcárias. Eles crescem lentamente e podem se acumular em grandes bancos, criando estruturas semelhantes a recifes.
As formações são conhecidas em inglês pelo apelido de rolling stones, ou "pedras rolantes", devido ao formato arredondado e à capacidade de se movimentarem pelo fundo. Alguns exemplares podem atingir dimensões semelhantes às de uma bola de futebol, embora a maioria tenha entre 10 e 20 centímetros de diâmetro.
Seu desenvolvimento é extremamente lento. Estudos realizados em Abrolhos mostraram que rodolitos do tamanho de bolas de bilhar levaram cerca de 400 anos para alcançar essa dimensão. O crescimento médio é de aproximadamente um milímetro por ano.
Os exemplares encontrados perto de Ipanema ainda não foram datados, mas os pesquisadores estimam que também sejam seculares.
A coloração rosa aparece nas camadas externas, formadas por algas vivas. Elas realizam fotossíntese utilizando a luz azul que consegue alcançar maiores profundidades na água.
Os bancos de rodolitos criam ambientes capazes de abrigar uma grande diversidade de organismos. Na área próxima a Ipanema, os pesquisadores observaram espécies de peixes como vermelhos, budiões e cangulos. Estes últimos aparecem em tamanha quantidade que pescadores chamam a região de "Cangulândia".
A presença abundante de peixes já era conhecida. A descoberta dos rodolitos ajuda a explicar por que a área reúne tanta vida marinha.
Outros bancos brasileiros dão uma dimensão da biodiversidade associada a esses ambientes. Um estudo publicado na revista científica Biological Conservation, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), identificou 1.800 espécies marinhas nos bancos de Abrolhos e da Ilha da Queimada Grande, em São Paulo. Segundo o trabalho, apenas esses dois ambientes reuniriam cerca de 1% das espécies marinhas do mundo.
A descoberta também chama atenção para a vulnerabilidade dessas formações. Como crescem cerca de um milímetro por ano, os rodolitos podem levar séculos para atingir suas dimensões atuais. Isso significa que não são considerados renováveis em escala humana.
Entre as ameaças estão o aumento da temperatura dos oceanos, a acidificação da água, redes de arrasto e atividades relacionadas à exploração de petróleo e gás. O Brasil também permite a extração dessas algas calcárias para uso como fertilizante ou corretivo de acidez na agricultura.
O aumento da acidez dos oceanos representa outro problema porque os rodolitos dependem do carbonato de cálcio para formar suas estruturas rígidas. Águas mais ácidas dificultam a formação desse mineral e podem afetar as algas.
A próxima etapa da pesquisa deverá revelar a extensão dos bancos encontrados perto de Ipanema. Como apenas duas áreas foram identificadas até agora, os cientistas consideram possível que outros ecossistemas semelhantes ainda estejam escondidos no fundo do mar da região.