Odisseu: inscrições encontradas em Ítaca sugerem que o personagem de Homero era alvo de devoção (Universal/Divulgação)
Redatora
Publicado em 21 de julho de 2026 às 21h13.
Por quase três milênios, Odisseu atravessou gerações como o herói da "Odisseia", epopeia atribuída a Homero e considerada um dos pilares da literatura ocidental. Embora a maioria dos historiadores veja o personagem como uma figura mítica, novas descobertas arqueológicas indicam que ele foi tratado como um rei real pelos antigos habitantes de Ítaca.
As evidências foram reunidas por pesquisadores que escavam o sítio arqueológico conhecido como Odysseion, ou Escola de Homero. O complexo reúne inscrições, moedas, objetos votivos e outros vestígios que sugerem que o local recebeu peregrinos durante séculos para prestar homenagens ao personagem imortalizado na epopeia.
As escavações são lideradas por Giannos G. Lolos, da Universidade de Ioannina, e dão continuidade a pesquisas realizadas no local desde a década de 1990, conforme destacou o jornal The New York Times.
O complexo foi construído por volta do século III a.C., cerca de 500 anos após a composição da "Odisseia". Entre as estruturas identificadas estão um grande salão cerimonial, uma possível torre de vigilância e uma cisterna construída com técnicas da arquitetura micênica.
Embora as ruínas não correspondam ao período em que o herói teria vivido, os pesquisadores afirmam que elas mostram que Odisseu era venerado como uma figura histórica pelos gregos da Antiguidade.
Durante as escavações, os arqueólogos recuperaram milhares de fragmentos de cerâmica, taças, joias, recipientes usados em oferendas e mais de uma centena de moedas de bronze e prata provenientes de diferentes cidades dos mundos grego e romano.
Entre os achados mais importantes estão três inscrições com o nome de Odisseu gravado em peças de cerâmica. Uma delas pode ser traduzida como "de Odisseu", enquanto outra significa "para Odisseu", indicando que objetos eram dedicados ao personagem durante cerimônias religiosas.
Segundo os pesquisadores, a diversidade de artefatos e a origem das moedas mostram que visitantes de várias regiões viajavam até Ítaca para participar dos rituais realizados no santuário.
A equipe também encontrou dezenas de fusaiolas e pesos de tear, utensílios associados à produção de tecidos. Para a arqueóloga Christina Marabea, da Universidade Aberta Helênica, esses objetos sugerem que mulheres tinham papel importante nas cerimônias realizadas no local.
Uma das hipóteses é que parte da devoção estivesse ligada à personagem Penélope, esposa de Odisseu, conhecida na tradição grega por adiar o casamento com seus pretendentes enquanto aguardava o retorno do marido.
As novas evidências também voltaram a alimentar a discussão sobre a localização descrita por Homero. Ao longo dos séculos, estudiosos questionaram se a atual ilha de Ítaca corresponde ao cenário retratado na "Odisseia", já que alguns detalhes geográficos do poema não coincidem perfeitamente com a paisagem moderna.
Para Giannos G. Lolos, porém, os vestígios arqueológicos reforçam que a ilha atual era reconhecida pelos próprios gregos antigos como a terra de Odisseu. Segundo o pesquisador, mais do que comprovar a existência do personagem, os achados mostram que ele foi reverenciado como uma figura real por várias gerações, transformando a fronteira entre mito, literatura e história em um tema ainda mais complexo para a arqueologia.