Aviação: operação inédita testará mudanças de altitude para reduzir a formação de rastros de condensação (Freepik)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 16h49.
Os aviões que cruzam o Atlântico Norte passarão a voar em altitudes diferentes a partir de novembro como parte de um projeto que busca reduzir o impacto climático da aviação. Pela primeira vez, controladores de tráfego aéreo irão alterar rotas em um espaço aéreo inteiro para evitar a formação de rastros de condensação, fenômeno responsável por parte do aquecimento provocado pelos voos.
A iniciativa foi detalhada pela revista New Scientist e faz parte da Operation Blue Skies (Operação Céus Azuis), que utilizará previsões atmosféricas geradas por inteligência artificial do Google para identificar regiões onde esses rastros têm maior probabilidade de se formar.
O teste será realizado no espaço aéreo de Shanwick, no lado leste do Atlântico Norte, um dos principais corredores entre a Europa e a América do Norte.
Os rastros de condensação são as faixas brancas que se formam atrás dos aviões quando partículas emitidas pelos motores favorecem a formação de cristais de gelo em determinadas condições atmosféricas.
Embora durante o dia esses rastros também reflitam parte da radiação solar de volta ao espaço, eles retêm calor na atmosfera. Segundo os organizadores do projeto, estima-se que os rastros persistentes sejam responsáveis por cerca de um terço do impacto climático da aviação.
Durante os períodos de teste, os controladores de tráfego aéreo poderão solicitar que pilotos alterem a altitude da aeronave em até 600 metros (2 mil pés) para evitar regiões favoráveis à formação dos rastros.
As previsões serão produzidas por um sistema de inteligência artificial do Google, enquanto as orientações aos pilotos seguirão os mesmos procedimentos já utilizados para desvios provocados por turbulência ou outras condições meteorológicas.
Os testes serão concentrados principalmente em voos noturnos, período em que os rastros de condensação exercem maior influência sobre o aquecimento global.
O espaço aéreo de Shanwick reúne duas características importantes: intenso fluxo de aeronaves e condições atmosféricas favoráveis à formação de rastros persistentes.
Essa escolha também foi baseada em um estudo publicado na revista Atmospheric Chemistry and Physics, que estimou que essa região responde por cerca de 5% do aquecimento global causado pelos rastros de condensação, principalmente entre novembro e fevereiro, durante o inverno no Hemisfério Norte.
Alterar a altitude das aeronaves exige um consumo adicional de combustível. Segundo os responsáveis pelo projeto, cada voo desviado poderá consumir cerca de 100 quilos extras de combustível, gerando algumas centenas de quilos adicionais de dióxido de carbono (CO₂).
Ainda assim, durante a apresentação da iniciativa, os organizadores afirmaram que esse impacto é significativamente menor do que o provocado pelos rastros persistentes, cujo efeito climático pode chegar a dezenas de toneladas de CO₂ equivalente por voo, dependendo das condições atmosféricas.
Com orçamento de 5 milhões de libras, a Operation Blue Skies será realizada durante dois períodos de quatro meses, nos invernos de 2026-2027 e 2027-2028.
A expectativa é que aproximadamente 10 mil voos atravessem o espaço aéreo monitorado em cada temporada, com centenas deles recebendo instruções para alterar a altitude. Os resultados serão analisados por pesquisadores da Universidade de Cambridge e do Imperial College London.
Segundo os organizadores, esta será a primeira vez que previsões de formação de rastros de condensação serão utilizadas para orientar o tráfego em todo um espaço aéreo. Até agora, essa tecnologia vinha sendo empregada apenas para auxiliar companhias aéreas no planejamento das rotas antes da decolagem.