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Rastros de condensação (contrails) formados por aviões retêm calor na atmosfera; fenômeno é o foco do projeto do Google para reduzir o impacto climático da aviação.
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 14h50.
O Google anunciou nesta terça-feira, 18, um projeto para usar inteligência artificial na redução do impacto climático da aviação. Batizada de Operation Blue Skies, a iniciativa vai testar mudanças pontuais em rotas de aviões para evitar a formação dos chamados contrails, os rastros brancos que aparecem no céu após a passagem de algumas aeronaves.
Esses rastros, conhecidos em português como trilhas ou rastros de condensação, se formam quando o vapor d'água presente nos gases liberados pelos motores dos aviões se condensa ao redor de partículas de fuligem em regiões muito frias e úmidas da atmosfera. Apesar de parecerem inofensivos, eles podem reter calor e, segundo o Google, respondem por cerca de um terço do impacto climático total da aviação.
O novo teste será realizado em Shanwick, região de controle aéreo que cobre parte do Atlântico Norte, entre a Europa e a América do Norte. A área concentra cerca de 5% do aquecimento global associado aos rastros de condensação, segundo estimativas apresentadas pela empresa.
Mapa do espaço aéreo de Shanwick, no Atlântico Norte, região escolhida pelo Google para testar o uso de inteligência artificial na redução do impacto climático de voos. (Google/Reprodução)
Os modelos de inteligência artificial do Google analisam dados meteorológicos para prever quais regiões da atmosfera têm maior probabilidade de produzir rastros de condensação com efeito de aquecimento. A partir dessas informações, controladores de tráfego aéreo podem orientar pequenas mudanças de altitude ou de trajetória para determinados voos.
A ideia não é alterar todas as rotas. Apenas uma pequena parcela das aeronaves que atravessariam regiões consideradas mais propícias à formação desses rastros será desviada. Segundo os responsáveis pelo projeto, as mudanças devem permanecer dentro dos procedimentos normais de operação das companhias aéreas.
O programa terá duração de 30 meses e contará com duas fases de testes operacionais, de aproximadamente quatro meses cada. Cerca de 10 mil voos por ano, partindo de centenas de cidades, devem atravessar o espaço aéreo de Shanwick durante os períodos em que os experimentos estiverem em andamento.
O Google já vinha testando a tecnologia em parceria com empresas do setor. Entre elas estão a American Airlines, a organização europeia de controle de tráfego aéreo Eurocontrol e empresas de softwares de planejamento de voo. A diferença agora é a escala: em vez de testes isolados com uma companhia aérea, o objetivo é coordenar a estratégia dentro de uma região inteira do espaço aéreo.
A Operation Blue Skies reúne empresas, universidades e órgãos públicos do Reino Unido. A NATS, responsável por parte do controle do tráfego aéreo britânico, ficará encarregada das operações no espaço aéreo, da avaliação de segurança e do treinamento dos controladores.
O Met Office, serviço meteorológico nacional do Reino Unido, desenvolverá um sistema próprio de previsão de rastros de condensação. Pesquisadores do Imperial College London e da Universidade de Cambridge vão avaliar os resultados e verificar de forma independente os efeitos climáticos do experimento.
O projeto também conta com a participação da organização Contrails.org, especializada no estudo do fenômeno.
Parte do financiamento virá do governo britânico, por meio de um programa voltado à pesquisa no setor aeroespacial. O Google afirma que participa do projeto sem cobrar e contribuirá com o equivalente a 1,4 milhão de libras em pesquisa, trabalho de engenharia e infraestrutura de computação de alto desempenho.
O impacto climático dos aviões não vem apenas do dióxido de carbono liberado pela queima de combustível. Em determinadas condições, os rastros de condensação podem permanecer durante horas e se espalhar até formar nuvens artificiais semelhantes a cirros.
Essas nuvens podem dificultar a saída de calor da atmosfera terrestre, ampliando temporariamente o efeito de aquecimento. Nem todo rastro, porém, produz o mesmo efeito, o que torna possível concentrar as mudanças de rota apenas nos voos e regiões considerados mais problemáticos.
Essa característica também explica o interesse do setor pela tecnologia. Em tese, evitar as regiões de maior risco pode reduzir parte do impacto climático da aviação sem exigir a substituição imediata de aeronaves ou combustíveis.
Com o novo experimento, Google e parceiros querem descobrir se a estratégia funciona também quando aplicada de maneira coordenada em um corredor aéreo movimentado. Caso os resultados sejam positivos, o modelo poderá servir de referência para outros espaços aéreos e sistemas de controle de tráfego.