Ciência

Como o cérebro transformou nostalgia em mercado

Estudos mostram que a nostalgia ativa memória e recompensa no cérebro — e ajuda a explicar por que marcas, vinis e séries lucram com o passado

Nostalgia: termo foi cunhado como doença. Agora, é negócio bilionário (CARME PARRAMON/Getty Images)

Nostalgia: termo foi cunhado como doença. Agora, é negócio bilionário (CARME PARRAMON/Getty Images)

Publicado em 27 de abril de 2026 às 05h05.

Em 1688, o estudante de medicina suíço Johannes Hofer criou uma palavra nova para descrever o que via em seus pacientes. Combinou o grego nostosretorno — com algosdor — e batizou o resultado de nostalgia.

Em sua dissertação, classificou o estado como uma "doença cerebral" potencialmente fatal, com sintomas como perda de apetite, palpitações, febre e, em casos extremos, podia levar à morte, segundo o Hektoen International. O tratamento prescrito era sangria, purgantes ou, idealmente, retorno ao lar.

Trezentos e trinta e oito anos depois, a nostalgia é estudada em laboratórios de neuroimagem, codificada em estratégias de marketing e responsável por bilhões de dólares em receita anual. E a mudança não é apenas semântica.

O que acontece no cérebro

Em 2022, pesquisadores de duas universidades se propuseram a responder uma pergunta: o que exatamente acontece no cérebro quando alguém sente nostalgia?

As pesquisas mostram que estímulos nostálgicos ativam simultaneamente o hipocampo — responsável pela memória autobiográfica — e o estriado ventral, região central do sistema dopaminérgico de recompensa, segundo estudo publicado no periódico Social Cognitive and Affective Neuroscience, da Oxford Academic.

O estudo, assinado por pesquisadores do Instituto de Psicologia da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade de Southampton e publicado em dezembro de 2022, propõe um modelo neural completo da emoção nostálgica.

Segundo os autores, a experiência envolve quatro sistemas cerebrais operando ao mesmo tempo: o córtex pré-frontal medial e o córtex cingulado posterior processam a autorreflexão e a memória autobiográfica; o córtex cingulado anterior regula a resposta emocional; e o striatum, a substância negra e a área tegmental ventral — estruturas centrais do sistema dopaminérgico — processam a recompensa.

O mecanismo é mais preciso do que parece.

O hipocampo recupera a memória. A área tegmental ventral, ao identificar o valor afetivo daquela lembrança, dispara a liberação de dopamina.

Essa dopamina, por sua vez, reforça a conexão entre a memória e seu valor de recompensa, tornando a lembrança mais saliente, mais acessível e mais carregada de significado a cada vez que é evocada.

Os dois sistemas não operam em sequência: coproduzem a experiência. Quanto mais forte a conexão entre eles no cérebro de uma pessoa, maior a intensidade do que ela sente ao ser exposta a um estímulo nostálgico.

O estudo observa ainda que a nostalgia funciona como mecanismo de regulação emocional, não apenas como prazer passivo, mas como motivação ativa.

Experimentos anteriores citados pelos autores mostram que a emoção fortalece a motivação de aproximação, encoraja a tomada de riscos orientada a recompensas e impulsiona a busca por objetivos importantes.

Em termos práticos: uma pessoa em estado nostálgico não está apenas sentindo, mas sendo preparada para agir.

Essa ativação tem consequências práticas e mensuráveis no mercado. Consumidores expostos a estímulos nostálgicos estão dispostos a pagar entre 10% e 15% a mais por produtos, segundo a agência de marketing americana Amra & Elma.

Campanhas com elementos do passado aumentam a probabilidade de viralização em 13 pontos percentuais em relação a anúncios sem esse recurso, segundo a Kantar.

E conteúdos temáticos dos anos 1990 geram hoje uma elevação média de 38% no engajamento em redes como Instagram, TikTok e YouTube, segundo relatório conjunto da Sprout Social e do Cultural Marketing Institute, que analisou mais de 4.200 campanhas em 2026.

A geração que sente falta do que não viveu

O dado mais contraintuitivo desse mercado não é o crescimento, mas quem está comprando. A geração que mais consome nostalgia é precisamente a que não viveu o período que idealiza.

Segundo levantamento da GWI, 50% da Gen Z afirma sentir nostalgia por mídias de décadas anteriores.

Pesquisa publicada no Journal of Global Marketing aponta que a disposição a pagar induzida por nostalgia entre consumidores da Gen Z chega a 25% para marcas nostálgicas, número superior ao de gerações mais velhas que de fato viveram as referências em questão.

E 37% dos integrantes da geração declaram atração específica por conteúdos dos anos 1990, segundo a ContentGrip, mesmo que muitos nem tenham nascido naquela época.

Tecnologia retrô. Colagem

Nostalgia: sentimento virou um mercado (CARME PARRAMON/Getty Images)

Para pesquisadores, o paradoxo tem explicação. Para a Gen Z, a nostalgia é menos sobre reviver o passado e mais sobre lidar com o presente.

Crescer em meio a uma pandemia, incerteza econômica e exposição digital constante tornou as estéticas mais antigas algo que parece mais calmo, mais estável e emocionalmente mais seguro, segundo análise da ContentGrip.

A nostalgia, nesse contexto, funciona como desaceleração emocional — o passado não precisa ter sido vivido para ser usado como escudo contra a ansiedade do presente.

O vinil como caso de estudo

Nenhum produto ilustra essa lógica com mais precisão do que o disco de vinil. Em 2025, o formato ultrapassou US$ 1 bilhão em receita nos Estados Unidos pela primeira vez desde 1983 — num país onde qualquer música do mundo está disponível gratuitamente em segundos. O crescimento é o 19º consecutivo, segundo a RIAA.

O comprador médio não está fugindo do streaming, mas sim comprando as duas coisas ao mesmo tempo.

A receita digital americana chegou a US$ 9,7 bilhões em 2025, enquanto os formatos físicos geraram US$ 1,38 bilhão, e ambas as categorias cresceram simultaneamente, segundo a RIAA. O vinil não compete com o Spotify.

"Quando o mundo está na ponta dos seus dedos, você percebe que tudo é temporário — e o apego pela mídia física volta com força", disse Sean Smith, gerente de marketing da Record Archive, loja de Rochester com 50 anos de história, em entrevista à Rochester First.

O preço médio de um disco de vinil novo cresceu 24% entre 2020 e 2025, chegando a US$ 37,22, segundo a Discogs.

Analistas esperavam que o encarecimento freasse a demanda. Não freou. A fricção, para os novos consumidores, é parte do produto, não um defeito dele.

O que a indústria aprendeu

A lógica da nostalgia como ativo estratégico está sendo codificada pela indústria em tempo real — e os casos mais ilustrativos não vêm de campanhas de marketing, mas da cultura pop.

Em maio de 2022, a quarta temporada de Stranger Things estreou na Netflix usando Running Up That Hill, de Kate Bush, como tema central de uma personagem. A música tinha 37 anos.

No dia seguinte à estreia, os streams globais da faixa no Spotify cresceram 8.700%, segundo a Billboard. Em junho daquele ano, a canção acumulou 106,7 milhões de streams apenas nos Estados Unidos e chegou ao número 3 do Billboard Hot 100 — seu pico original, em 1985, havia sido o número 30.

Bush ganhou US$ 2,3 milhões em royalties de streaming entre maio e junho de 2022, segundo a Luminate. Em 2025, com a quinta e última temporada da série, a música ultrapassou 1,5 bilhão de streams no Spotify e voltou ao Top 15 britânico, segundo o NME.

Por que a geração mais conectada da história está pagando para se desconectar

Campanhas com apelo nostálgico aumentam o prazer percebido pelo consumidor em 15 pontos e a distintividade da marca em 14 pontos, segundo pesquisa da Kantar com banco de dados de 250 mil anúncios testados. Relançamentos de produtos descontinuados geram elevação de 24% em compras repetidas.

E edições limitadas com apelo retrô aumentam a intenção de compra em 27%, segundo a Amra & Elma — porque escassez somada a nostalgia é, segundo os dados, a combinação de maior poder de conversão disponível na cultura pop.

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