Nostalgia: termo foi cunhado como doença. Agora, é negócio bilionário (CARME PARRAMON/Getty Images)
Repórter
Publicado em 27 de abril de 2026 às 05h05.
Em 1688, o estudante de medicina suíço Johannes Hofer criou uma palavra nova para descrever o que via em seus pacientes. Combinou o grego nostos — retorno — com algos — dor — e batizou o resultado de nostalgia.
Em sua dissertação, classificou o estado como uma "doença cerebral" potencialmente fatal, com sintomas como perda de apetite, palpitações, febre e, em casos extremos, podia levar à morte, segundo o Hektoen International. O tratamento prescrito era sangria, purgantes ou, idealmente, retorno ao lar.
Trezentos e trinta e oito anos depois, a nostalgia é estudada em laboratórios de neuroimagem, codificada em estratégias de marketing e responsável por bilhões de dólares em receita anual. E a mudança não é apenas semântica.
Em 2022, pesquisadores de duas universidades se propuseram a responder uma pergunta: o que exatamente acontece no cérebro quando alguém sente nostalgia?
O dado mais contraintuitivo desse mercado não é o crescimento, mas quem está comprando. A geração que mais consome nostalgia é precisamente a que não viveu o período que idealiza.
Segundo levantamento da GWI, 50% da Gen Z afirma sentir nostalgia por mídias de décadas anteriores.
Pesquisa publicada no Journal of Global Marketing aponta que a disposição a pagar induzida por nostalgia entre consumidores da Gen Z chega a 25% para marcas nostálgicas, número superior ao de gerações mais velhas que de fato viveram as referências em questão.
E 37% dos integrantes da geração declaram atração específica por conteúdos dos anos 1990, segundo a ContentGrip, mesmo que muitos nem tenham nascido naquela época.
Nostalgia: sentimento virou um mercado (CARME PARRAMON/Getty Images)
Para pesquisadores, o paradoxo tem explicação. Para a Gen Z, a nostalgia é menos sobre reviver o passado e mais sobre lidar com o presente.
Crescer em meio a uma pandemia, incerteza econômica e exposição digital constante tornou as estéticas mais antigas algo que parece mais calmo, mais estável e emocionalmente mais seguro, segundo análise da ContentGrip.
A nostalgia, nesse contexto, funciona como desaceleração emocional — o passado não precisa ter sido vivido para ser usado como escudo contra a ansiedade do presente.
Nenhum produto ilustra essa lógica com mais precisão do que o disco de vinil. Em 2025, o formato ultrapassou US$ 1 bilhão em receita nos Estados Unidos pela primeira vez desde 1983 — num país onde qualquer música do mundo está disponível gratuitamente em segundos. O crescimento é o 19º consecutivo, segundo a RIAA.
O comprador médio não está fugindo do streaming, mas sim comprando as duas coisas ao mesmo tempo.
A receita digital americana chegou a US$ 9,7 bilhões em 2025, enquanto os formatos físicos geraram US$ 1,38 bilhão, e ambas as categorias cresceram simultaneamente, segundo a RIAA. O vinil não compete com o Spotify.
"Quando o mundo está na ponta dos seus dedos, você percebe que tudo é temporário — e o apego pela mídia física volta com força", disse Sean Smith, gerente de marketing da Record Archive, loja de Rochester com 50 anos de história, em entrevista à Rochester First.
O preço médio de um disco de vinil novo cresceu 24% entre 2020 e 2025, chegando a US$ 37,22, segundo a Discogs.
Analistas esperavam que o encarecimento freasse a demanda. Não freou. A fricção, para os novos consumidores, é parte do produto, não um defeito dele.
A lógica da nostalgia como ativo estratégico está sendo codificada pela indústria em tempo real — e os casos mais ilustrativos não vêm de campanhas de marketing, mas da cultura pop.
Em maio de 2022, a quarta temporada de Stranger Things estreou na Netflix usando Running Up That Hill, de Kate Bush, como tema central de uma personagem. A música tinha 37 anos.
No dia seguinte à estreia, os streams globais da faixa no Spotify cresceram 8.700%, segundo a Billboard. Em junho daquele ano, a canção acumulou 106,7 milhões de streams apenas nos Estados Unidos e chegou ao número 3 do Billboard Hot 100 — seu pico original, em 1985, havia sido o número 30.
Bush ganhou US$ 2,3 milhões em royalties de streaming entre maio e junho de 2022, segundo a Luminate. Em 2025, com a quinta e última temporada da série, a música ultrapassou 1,5 bilhão de streams no Spotify e voltou ao Top 15 britânico, segundo o NME.
Por que a geração mais conectada da história está pagando para se desconectarCampanhas com apelo nostálgico aumentam o prazer percebido pelo consumidor em 15 pontos e a distintividade da marca em 14 pontos, segundo pesquisa da Kantar com banco de dados de 250 mil anúncios testados. Relançamentos de produtos descontinuados geram elevação de 24% em compras repetidas.
E edições limitadas com apelo retrô aumentam a intenção de compra em 27%, segundo a Amra & Elma — porque escassez somada a nostalgia é, segundo os dados, a combinação de maior poder de conversão disponível na cultura pop.