Homem-Aranha: na ciência, cada escolha gera uma linha do tempo diferente (Marvel/Divulgação)
Repórter
Publicado em 27 de abril de 2026 às 06h21.
Desde que o Homem-Aranha começou a cruzar portais entre universos paralelos e o Doutor Estranho virou o tecido da realidade como se fosse uma toalha, o multiverso saiu das histórias em quadrinhos e das salas de cinema para se tornar um dos debates mais sérios e divisivos da física moderna.
Não porque haja evidências definitivas de que outros universos existem, mas porque três das teorias mais rigorosas da ciência contemporânea apontam, cada uma por um caminho diferente, para a mesma conclusão desconcertante: nosso universo pode ser apenas um entre muitos.
A Marvel, claro, chegou primeiro nas telas. A ciência chegou mais devagar — e com muito mais cuidado.
Antes de responder se o multiverso existe, é necessário definir o que significa "existir".
É essa a provocação do astrofísico Zachary Slepian, professor de cosmologia e filosofia da física, em artigo publicado no site PopSci. Para ele, a definição mais imediata de "real" seria algo que se pode ver, tocar ou perceber pelos cinco sentidos.
Segundo Slepian, a definição deixa de fora muita coisa que também é real.
"As micro-ondas que aquecem sua comida são reais, mas não podem ser percebidas diretamente — apenas seu efeito, a comida aquecida. Assim, algumas coisas reais só podem ser 'vistas' indiretamente pelas evidências que deixam. A existência dos dinossauros é outro exemplo — só é possível observá-los por meio de seus fósseis", afirmou.
Aplicado ao multiverso, o raciocínio gera duas perguntas distintas, segundo Slepian. A primeira: é possível percebê-lo com os sentidos? Provavelmente não.
A segunda é: há alguma evidência indireta de seus efeitos no universo observável? Aí a resposta muda.
"Em certo sentido, sim", disse ele.
A primeira rota científica para o multiverso vem da mecânica quântica e da teoria que descreve o comportamento de partículas subatômicas.
No nível quântico, o resultado de qualquer experimento não é determinado, apenas probabilístico. Logo, não se sabe o que vai acontecer; sabe-se apenas a chance de cada resultado ocorrer.
Uma das interpretações para esse comportamento é conhecida como "muitos mundos", formulada pelo físico Hugh Everett em 1957.
Nela, cada resultado possível de um evento quântico de fato ocorre, mas em universos diferentes.
Cada vez que uma partícula pode ir para a esquerda ou para a direita, o universo se bifurca. Em um ela vai para a esquerda, em outro para a direita, e os dois ramos continuam existindo em paralelo, sem interação.
É, em essência, a lógica que a Marvel usa quando o Homem-Aranha encontra versões alternativas de si mesmo — cada escolha gerando uma linha do tempo diferente.
A ciência, porém, é mais cuidadosa do que o cinema. Slepian pondera que a interpretação dos muitos mundos não é evidência do multiverso, mas sim uma leitura possível da física quântica.
"É uma maneira fascinante de imaginar a mecânica quântica, mas é apenas uma interpretação, não evidência inegável", escreveu.
A segunda rota vem da cosmologia.
A teoria da inflação cósmica (atualmente a explicação mais aceita para por que o universo é tão uniforme e plano em grande escala) propõe que, nos primeiros instantes após o Big Bang, o espaço se expandiu de forma explosiva.
Uma área do tamanho de um nanômetro teria se tornado maior do que um quarto de bilhão de anos-luz em fração de segundo.
O problema é que, na maioria dos modelos inflacionários, esse processo não para.
Ele continua indefinidamente em diferentes regiões do espaço, gerando bolhas — cada uma com suas próprias condições físicas, seu próprio Big Bang, seu próprio universo. A existência humana seria dentro de uma dessas bolhas, separada das demais por distâncias impossíveis de cruzar.
Pesquisadores do Instituto Perimeter, do University College London e do Imperial College London chegaram a tentar buscar rastros desse processo no fundo cósmico de micro-ondas. A ideia era que colisões entre universos de bolha deixariam uma espécie de hematoma circular no céu.
Até agora nada foi encontrado. Alguns modelos de multiverso já foram descartados por isso — o que, paradoxalmente, representa um avanço: significa que a hipótese gerou previsões testáveis e falsificáveis.
A terceira rota é a mais especulativa — e a de maior escala.
A teoria das cordas propõe que as partículas fundamentais da matéria não são pontos, mas filamentos de energia em vibração. Ela também prevê que o universo tem mais do que três dimensões espaciais.
Dependendo de como essas dimensões extras se organizam, as constantes físicas do universo (a velocidade da luz, a carga do elétron, a força gravitacional) poderiam assumir valores completamente diferentes.
O resultado matemático é o que os físicos chamam de "paisagem": um mapa de aproximadamente 10 elevado a 500 universos possíveis, cada um com configurações físicas distintas. Nosso universo seria apenas um ponto nesse mapa imensurável.
Assistir ficção científica pode te ensinar ciência de verdade?Slepian é cauteloso. "Até agora, não há evidências definitivas da teoria das cordas em nosso próprio universo", disse ao PopSci.
Mas acrescenta que, se as previsões da teoria para experimentos de alta energia ou para o comportamento da matéria em escalas muito pequenas se confirmarem, isso seria evidência indireta e, por extensão, tornaria o multiverso ligeiramente mais plausível.
O principal argumento dos céticos não é que o multiverso seja impossível. É que, se outros universos são, por definição, inacessíveis e não deixam rastros detectáveis no nosso, a hipótese escapa ao método científico — que exige previsões testáveis.
A Marvel tem uma vantagem que a ciência não tem: pode simplesmente abrir um portal. Por enquanto, o multiverso científico permanece exatamente no limite onde a física termina e a filosofia começa — rigorosamente derivado das melhores teorias disponíveis, radicalmente impossível de confirmar, e fascinante precisamente por isso.