Narcolepsia: novo medicamento atua na causa da doença ao substituir a ação da orexina (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 31 de agosto de 2026 às 17h24.
A aprovação de um novo medicamento para narcolepsia pela agência reguladora dos Estados Unidos (FDA) marca uma mudança na forma de tratar o distúrbio do sono. Diferentemente das terapias disponíveis até agora, o Orzeyful (overporexton) foi desenvolvido para atuar sobre a causa biológica da doença, restaurando um mecanismo cerebral essencial para o controle do ciclo de sono e vigília.
A novidade foi destacada em reportagem publicada pela revista Nature e representa a primeira aprovação de uma nova classe de medicamentos conhecida como agonistas da orexina, que poderá abrir caminho para tratamentos de outras doenças neurológicas e psiquiátricas.
A narcolepsia afeta cerca de 3 milhões de pessoas em todo o mundo e provoca sonolência excessiva durante o dia, dificuldade para manter o sono à noite, paralisia do sono e alucinações. Na forma tipo 1, os pacientes também podem apresentar cataplexia, caracterizada por perda súbita do tônus muscular durante emoções intensas, como o riso.
No fim da década de 1990, pesquisadores descobriram que muitas pessoas com narcolepsia tipo 1 apresentam deficiência de orexina, um neuropeptídeo produzido por aproximadamente 70 mil neurônios localizados no hipotálamo. Essa substância é responsável por ajudar o cérebro a regular os estados de vigília e sono.
O overporexton foi desenvolvido para imitar a ação da orexina. Ao ativar seus receptores no cérebro, o medicamento busca restaurar esse sistema de sinalização, atacando diretamente o mecanismo envolvido na doença, em vez de apenas estimular o organismo para reduzir a sonolência.
A aprovação do medicamento foi baseada em dois estudos clínicos de fase III que envolveram 273 pessoas com narcolepsia tipo 1. Os participantes receberam o medicamento oral ou placebo duas vezes ao dia.
Segundo os resultados, aqueles tratados com o agonista da orexina permaneceram acordados por mais tempo durante o dia, dormiram melhor à noite e também apresentaram melhora de sintomas como cataplexia, paralisia do sono e alucinações.
De acordo com Emmanuel Mignot, especialista em medicina do sono da Universidade Stanford e um dos pesquisadores envolvidos nos ensaios, muitos pacientes passaram a experimentar uma rotina próxima da de pessoas sem a doença.
O sucesso do Orzeyful impulsionou uma corrida entre empresas farmacêuticas para desenvolver novos agonistas da orexina.
Além da Takeda, responsável pelo medicamento, companhias como Eli Lilly e Alkermes também investem nessa estratégia terapêutica. Em junho, a Eli Lilly anunciou a aquisição da Centessa Pharmaceuticals por US$ 6,3 bilhões, ampliando seu portfólio de moléculas direcionadas ao sistema da orexina.
Segundo especialistas, o mercado global de tratamentos para narcolepsia poderá ultrapassar US$ 6,4 bilhões por ano no início da próxima década.
Os pesquisadores acreditam que o potencial da orexina não se limita à narcolepsia. Estudos anteriores indicam que esse sistema também participa da regulação do apetite, da ansiedade, da dependência química e de outras funções cerebrais.
Por isso, empresas já iniciaram pesquisas para avaliar agonistas da orexina no tratamento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), fadiga associada à esclerose múltipla e à doença de Parkinson, entre outras condições.