Eli Lilly: gigante farmacêutica comprou por US$ 6,3 bilhões uma empresa que ainda não tem nenhum medicamento aprovado (Wikicommons)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 31 de março de 2026 às 16h49.
Última atualização em 31 de março de 2026 às 17h04.
Após atingir a marca de primeira empresa de saúde trilionária em novembro do ano passado, a Eli Lilly não tem diminuído o ritmo. Com a popularidade da caneta emagrecedora Mounjaro e capital para investir, a farmacêutica americana se volta agora aos tratamentos neurológicos.
Nesta terça-feira, a companhia anunciou a compra da Centessa Pharmaceuticals por US$ 6,3 bilhões. A empresa desenvolve atualmente tratamentos para narcolepsia, uma doença que causa sonolência extrema e repentina, mas extremamente rara. Atualmente, a Centessa realiza estudos para que os tratamentos possam ser aplicados a outros transtornos neurológicos, sobretudo a Doença de Alzheimer.
Um dia antes de adquirir a Centessa, a Lilly havia anunciado um acordo de desenvolvimento de medicamentos com a InSilico, empresa especializada em uso de inteligência artificial para descoberta de novas moléculas. No início do ano, a farmacêutica já havia comprado uma empresa de terapias celulares e outra voltada ao tratamento de inflamações, segundo o New York Times.
A Centessa é uma empresa farmacêutica de capital aberto, com ações negociadas na Nasdaq, sede em Boston e no Reino Unido.
Apesar dos estudos científicos que conduz, a empresa ainda não tem nenhum medicamento aprovado no mercado. Seu portfólio é inteiramente composto por candidatos em fase clínica ou pré-clínica, de acordo com os comunicados oficiais da empresa.
O principal ativo da Centessa é um conjunto de moléculas que atuam diretamente sobre o sistema neurobiológico responsável pelo ciclo sono-vigília.
Seu candidato mais avançado, o cleminorexton (anteriormente chamado de ORX750), demonstrou perfil promissor em estudos clínicos para narcolepsia tipo 1, narcolepsia tipo 2 e hipersonia idiopática, segundo comunicado da Eli Lilly.
O portfólio da empresa inclui ainda outros ativos com potencial aplicação em condições neurológicas, neurodegenerativas e neuropsiquiátricas mais amplas.
"Ao combinar a equipe e as capacidades da Centessa com as capacidades globais de pesquisa, clínica, regulatória e comercial da Lilly, buscaremos acelerar o avanço do nosso portfólio em uma ampla gama de indicações em neurociência", disse Mario Alberto Accardi, CEO da Centessa.
A transação deverá ser concluída no terceiro trimestre de 2026, segundo o comunicado da Eli Lilly.
Investidores relevantes já se comprometeram com a operação: entidades afiliadas à Medicxi Ventures, à Index Ventures e à General Atlantic assinaram acordos de apoio, representando aproximadamente 24,1% das ações ordinárias em circulação da Centessa.
O interesse da Lilly na saúde neurológica não começa com essa aquisição.
A farmacêutica já tem no mercado o medicamento injetável Kisunla (donanemab), voltado a adultos com Alzheimer sintomático em estágio inicial. O tratamento já foi aprovado pelo FDA em julho de 2024 e pela Anvisa em abril de 2025. Nos EUA, o Kisunla tem preço tabelado anual de cerca de US$ 32.000 e registrou vendas de US$ 9,3 milhões em 2024.
O caminho regulatório do Kisunla, no entanto, não tem sido uniforme. Em março de 2025, o regulador europeu de medicamentos (CHMP) rejeitou o pedido de aprovação do medicamento na União Europeia, sob o argumento de que a capacidade do tratamento de retardar o declínio cognitivo não era suficiente para superar os riscos de edema cerebral grave. A Lilly anunciou que buscaria a reanálise da decisão.
A aposta na Centessa, portanto, amplia a presença da Lilly no campo neurodegenerativo por outra via.
Enquanto o Kisunla atua sobre as placas de amiloide características do Alzheimer, os agonistas OX2R da Centessa atuam de maneira mais ampla sobre o sistema de regulação do sono e da vigília. Esse mecanismo que pode ser relevante para tratar a sonolência excessiva que acompanha o Alzheimer e outras condições neurodegenerativas.
O capital que viabiliza essa sequência de aquisições vem, em grande parte, do sucesso da linha de medicamentos para obesidade e diabetes da Lilly. O Mounjaro, aprovado para diabetes tipo 2, e o Zepbound, versão do mesmo princípio ativo para obesidade, transformaram a empresa em uma das mais valiosas do mundo.
Fundada em 1876 pelo químico farmacêutico e veterano da Guerra Civil Americana Eli Lilly, a companhia tem sido uma líder no tratamento de doenças como o diabetes. Em 1923, a Eli Lilly lançou a primeira insulina comercial do mundo.
A empresa fez sua estreia na Bolsa de Valores de Nova York em 1952, e por décadas, manteve-se relevante no mercado com produtos como insulinas, o antidepressivo Prozac e a vacina contra a poliomielite.
Em 2022, a Eli Lilly deu um passo importante com a aprovação da tirzepatida, conhecida como Mounjaro, para o tratamento do diabetes. O medicamento competiu diretamente com o Ozempic, da Novo Nordisk, que já dominava o mercado de tratamentos para diabetes.
O Mounjaro se destaca por atuar de maneira inovadora no corpo, imitando dois hormônios produzidos pelo intestino, o GLP-1 e o GIP, ambos envolvidos na regulação do apetite e do metabolismo de açúcares e gorduras. Já o Ozempic e o Wegovy, também da Novo Nordisk, atuam apenas no GLP-1.
Em seu primeiro ano completo no mercado, o Mounjaro alcançou status de "blockbuster", gerando mais de US$ 1 bilhão em vendas. Em 2023, a Eli Lilly obteve aprovação para usar a tirzepatida também como tratamento para obesidade, comercializada sob o nome de Zepbound, competindo diretamente com o Wegovy.
Em 2024, o Mounjaro alcançou US$ 11,54 bilhões em vendas, enquanto o Zepbound gerou US$ 4,93 bilhões, consolidando a Eli Lilly como uma das principais potências no mercado de medicamentos para perda de peso.