Ciência

Médicos testam método inusitado com mitocôndrias para tentar restaurar a visão

Mitocôndrias foram retiradas do músculo da própria paciente e injetadas nos olhos em um procedimento ainda experimental

Visão: paciente recebeu mitocôndrias próprias em um procedimento experimental nos olhos (Imagem gerada por IA/EXAME)

Visão: paciente recebeu mitocôndrias próprias em um procedimento experimental nos olhos (Imagem gerada por IA/EXAME)

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 17h04.

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Uma técnica experimental que utiliza mitocôndrias do próprio paciente foi testada pela primeira vez nos olhos de uma mulher com cegueira quase completa. O procedimento busca fornecer energia a células afetadas por uma lesão grave e pode abrir uma nova frente de pesquisa para o tratamento de doenças oculares.

As mitocôndrias foram retiradas dos músculos da perna da paciente e depois injetadas no humor vítreo, líquido que preenche a parte interna do olho. A estratégia foi desenvolvida para tentar ajudar células da retina que haviam sido afetadas pela lesão. Os resultados foram publicados em 10 de agosto no Research Square, ainda sem revisão por pares.

Por que os cientistas escolheram as mitocôndrias?

As mitocôndrias são estruturas presentes dentro das células e responsáveis pela produção de energia. Quando uma célula sofre danos, alterações nessas organelas podem comprometer seu funcionamento e sua sobrevivência. A ideia do transplante é levar mitocôndrias saudáveis para células afetadas.

Em alguns estudos anteriores, a técnica foi investigada em outros órgãos, como coração e cérebro. Pesquisas realizadas em ratos também indicaram que a aplicação de mitocôndrias no humor vítreo poderia aumentar a sobrevivência de neurônios após uma lesão no nervo óptico.

Com base nesses resultados, os pesquisadores quiseram avaliar se a abordagem poderia ser utilizada para tentar preservar ou recuperar a atividade das células ganglionares da retina.

O que aconteceu com a paciente?

De acordo com o estudo, uma mulher de 26 anos sofreu uma hemorragia cerebral, que provocou danos no nervo óptico e na retina. Como consequência, ela ficou com cegueira quase completa. Antes do procedimento, os olhos da paciente não apresentavam resposta pupilar à luz. Meses depois, após a autorização emergencial da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, os pesquisadores realizaram a aplicação das mitocôndrias.

As organelas utilizadas no procedimento foram retiradas dos músculos da própria paciente. A escolha tinha também o objetivo de diminuir a possibilidade de uma reação imunológica contra o material transplantado.

Os pesquisadores acompanharam a paciente depois da aplicação para verificar possíveis sinais de inflamação, danos aos olhos e alterações na atividade visual.

Resposta à luz apareceu após o procedimento

Depois da aplicação, as pupilas da paciente passaram a apresentar resposta à luz. O efeito, porém, não permaneceu durante todo o período de acompanhamento. A resposta desapareceu cerca de quatro semanas após o transplante. Ainda assim, durante parte desse período, ela permaneceu acima dos níveis registrados antes do procedimento.

Os pesquisadores também encontraram sinais de atividade no córtex visual. Exames realizados nos dias 3, 44 e 45 depois do transplante registraram atividade neural considerável.

Em uma avaliação de baixa visão feita após o procedimento, a paciente também relatou perceber formas e sombras no olho esquerdo, segundo David Putrino, neurocientista da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai e coautor do estudo.

Procedimento não provocou sinais de inflamação

Uma das principais preocupações dos pesquisadores era a possibilidade de o organismo reagir contra as mitocôndrias introduzidas no olho. Os exames realizados após o procedimento, no entanto, não identificaram sinais de inflamação ou danos nos olhos.

Para Temurkhan Ayupov, biólogo especializado em mitocôndrias do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica de Basileia, na Suíça, o caso mostra que a aplicação das próprias mitocôndrias da paciente foi relativamente segura.

O resultado, entretanto, não permite afirmar que o transplante seja capaz de recuperar a visão. Os pesquisadores ressaltam que o objetivo principal do trabalho era avaliar a segurança da técnica, e não comprovar sua eficácia. Por isso, ainda não é possível determinar se as alterações observadas foram provocadas diretamente pelo transplante.

Patrick Yu-Wai-Man, neuro-oftalmologista da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, aponta que as respostas registradas podem estar relacionadas ao transplante, mas também podem refletir uma recuperação ou uma oscilação da atividade neuronal que ainda permanecia.

Outra questão é saber se as mitocôndrias realmente entraram nas células do olho e permaneceram funcionando depois da aplicação. Também não está claro quais células absorveram as organelas. Segundo os pesquisadores, essa informação será importante para entender como um eventual efeito terapêutico poderia ser mantido.

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