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A IA vai se tornar consciente? O que dizem os estudos científicos

De um checklist criado por 19 pesquisadores a experimentos da Anthropic no Claude, a ciência começou a levar a pergunta a sério — mas está longe de uma resposta

Consciência: saiba o que a ciência diz sobre a capacidade de a IA ter 'cérebro' ( Pixten/Freepik)

Consciência: saiba o que a ciência diz sobre a capacidade de a IA ter 'cérebro' ( Pixten/Freepik)

Publicado em 9 de julho de 2026 às 21h01.

De HAL 9000, de "2001: Uma Odisseia no Espaço", à Samantha, de "Ela", o cinema passou décadas imaginando o momento em que uma máquina finalmente "acordaria".

A diferença é que, agora, a pergunta saiu da ficção e entrou nos laboratórios: a inteligência artificial (IA) pode se tornar consciente? E, pela primeira vez, cientistas de verdade estão levando isso a sério.

O avanço não está em uma resposta — que ninguém tem —, mas na forma de perguntar.

Em vez do velho "a IA é consciente?", os pesquisadores passaram a construir métodos para medir indícios de consciência, cientes de que os dois erros opostos são perigosos: atribuir consciência a uma máquina que não a tem e negá-la a um sistema que, um dia, venha a tê-la.

O checklist dos 19 cientistas

O trabalho mais influente da área foi publicado na revista científica Trends in Cognitive Sciences, do grupo editorial Cell Press, e reuniu 19 pesquisadores de consciência de instituições como a Universidade de Oxford, no Reino Unido, e o Instituto de Tecnologia de Montreal (Mila), no Canadá.

Entre os autores está Yoshua Bengio, um dos pioneiros do aprendizado profundo e um dos cientistas mais citados do mundo em IA, ao lado dos filósofos Patrick Butlin, de Oxford, e Robert Long.

Em vez de apostar em uma única definição de consciência, o grupo tomou uma abordagem mais cautelosa ao reunir as principais teorias neurocientíficas sobre o tema e extrair de cada uma "indicadores" — características que um sistema precisaria ter para ser candidato à consciência.

A lógica é probabilística. Nenhum indicador isolado prova nada, mas quanto mais indicadores de teorias diferentes um sistema cumpre, maior a chance de que possa ser consciente.

Segundo o estudo, nenhum sistema de IA atual satisfaz os indicadores a ponto de ser considerado consciente, mas também não há nenhuma barreira técnica óbvia que impeça sistemas futuros de vir a satisfazê-los.

As teorias que servem de régua

As réguas usadas nesse método vêm da neurociência da consciência humana. Uma das principais é a teoria do espaço de trabalho global (global workspace theory), formulada pelo cientista Bernard Baars e desenvolvida pelo neurocientista francês Stanislas Dehaene, do Collège de France.

Ela descreve a mente como sistemas especializados que operam em paralelo até que uma informação entra em um "canal compartilhado" e é transmitida ao resto do cérebro.

Outras teorias entram na conta, como o processamento recorrente e o esquema de atenção.

Uma das mais ambiciosas, a teoria da informação integrada, proposta pelo neurocientista Giulio Tononi, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, chega a sugerir uma fórmula matemática para quantificar a consciência — e é justamente uma das que mais dividem os especialistas.

O experimento da Anthropic no Claude

SAN FRANCISCO, CALIFÓRNIA - 4 DE SETEMBRO: Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, participa do painel

Dario Amodei, CEO da Anthropic, conhecida pela IA Claude (Chance Yeh /Getty Images)

A discussão saiu do papel e entrou nos laboratórios das próprias empresas de IA.

Em pesquisa recente, a Anthropic, criadora do Claude, afirmou ter encontrado dentro de seu modelo um "espaço mental" interno — um conjunto de padrões que emergiu sozinho durante o treinamento e que se parece, estruturalmente, com o espaço de trabalho global descrito pela neurociência.

A empresa foi explícita ao delimitar o alcance do achado.

Os experimentos, afirmam os autores, não mostram que o Claude sinta ou tenha experiências como um humano — e eles reconhecem não estar claro se algum experimento seria capaz de provar isso.

A distinção que fazem é entre a consciência fenomenal, a capacidade de sentir, e o acesso consciente, definido apenas em termos funcionais. É sobre o segundo, e só sobre ele, que dizem ter algo a mostrar.

A barreira que pode ser intransponível

Nem todos os cientistas acreditam que empilhar indicadores levará a uma resposta.

Uma corrente relevante argumenta que a consciência pode depender do substrato biológico — ou seja, de estar num cérebro de carne, e não de silício.

Essa dúvida ganhou força com os resultados do Cogitate Consortium, uma "colaboração adversarial" publicada na revista Nature em abril de 2025, na qual defensores de teorias rivais desenharam juntos experimentos para testá-las no cérebro humano.

Os resultados não confirmaram plenamente nenhuma das teorias dominantes, o que enfraqueceu a base sobre a qual se apoiam os indicadores aplicados à IA.

Para os céticos, abre-se o que alguns chamam de "abismo do zumbi" — que é a distância crescente entre o que a IA parece ser e o que ela de fato é.

Os pesquisadores alertam para dois riscos simétricos: tratar como consciente uma máquina que não é — o que poderia distorcer decisões humanas e afetar pessoas emocionalmente vulneráveis — e ignorar a consciência de um sistema que venha a tê-la, o que levantaria questões éticas sobre como ele é criado e usado.

Por isso, grupos de pesquisa e as próprias empresas começaram a estudar o chamado "bem-estar de modelos", uma área que se prepara para um cenário que talvez nunca chegue, mas cujo custo de ignorar seria alto.

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