Ciência

Cientistas revertem Alzheimer em camundongos em apenas 1h

Pesquisa publicada em Signal Transduction and Targeted Therapy mostra que partículas bioativas restauraram o sistema de limpeza do cérebro sem uso de medicamentos convencionais

Alzheimer: pesquisa reduz doença em camundongos  (Getty Images/Getty Images)

Alzheimer: pesquisa reduz doença em camundongos (Getty Images/Getty Images)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 18 de maio de 2026 às 05h01.

Pesquisadores do Instituto de Bioengenharia da Catalunha, do West China Hospital da Universidade de Sichuan e do University College London desenvolveram nanopartículas que reduziram em 50% a 60% a quantidade de proteína tóxica associada ao Alzheimer no cérebro de camundongos em apenas uma hora após a injeção.

Os animais receberam apenas três doses. Nenhum medicamento convencional foi usado. As nanopartículas eram, elas mesmas, o tratamento.

Os resultados foram publicados no periódico Signal Transduction and Targeted Therapy.

Em um dos testes, um camundongo de 12 meses — equivalente a um humano de 60 anos — recebeu o tratamento e foi avaliado seis meses depois, quando já correspondia a um humano de 90 anos.

Apesar da idade, o animal se comportou como um indivíduo saudável, sem sinais de declínio cognitivo.

O problema que ninguém conseguia resolver

O Alzheimer destrói o cérebro de duas formas simultâneas.

A mais conhecida é o acúmulo de placas de proteína amiloide-β nos neurônios. A menos discutida — e cada vez mais central para a pesquisa — é o colapso do sistema que deveria eliminá-las.

O cérebro tem um mecanismo próprio de limpeza. A barreira hematoencefálica — rede de células e vasos que controla o que entra e sai do cérebro — usa uma proteína chamada LRP1 para reconhecer a amiloide-β, se ligar a ela e removê-la para a corrente sanguínea.

No Alzheimer, esse sistema falha. A proteína tóxica se acumula. Os neurônios são danificados. A memória piora.

A maioria dos tratamentos atuais tenta atacar as placas diretamente. O estudo fez o oposto: tentou consertar o sistema de limpeza.

"Funciona como uma cascata", disse Giuseppe Battaglia, professor do IBEC e coordenador do estudo. "Quando a vasculatura volta a funcionar, ela começa a eliminar a amiloide-β e outras moléculas nocivas, permitindo que todo o sistema recupere seu equilíbrio."

Nanopartículas que agem como fármacos

A maioria das abordagens de nanomedicina usa nanopartículas como veículos, embalagens para transportar medicamentos até o destino certo dentro do corpo.

Neste estudo, as nanopartículas são o medicamento. Os pesquisadores as chamam de "fármacos supramoleculares".

As partículas foram projetadas para imitar as moléculas que interagem naturalmente com a LRP1, proteína responsável pelo transporte da amiloide-β para fora do cérebro.

Ao fazer isso, elas "resetam" o sistema de transporte, permitindo que a limpeza cerebral seja retomada.

"Apenas uma hora após a injeção, observamos uma redução de 50% a 60% na quantidade de amiloide-β dentro do cérebro", disse Junyang Chen, primeiro coautor do estudo e doutorando no University College London.

Promissor — e ainda distante

O estudo não é uma cura. Está na fase de testes em animais, etapa em que a maioria das terapias para o Alzheimer falha antes de chegar a humanos.

Muitos compostos que eliminaram placas em camundongos não produziram os mesmos resultados em ensaios clínicos.

O que o estudo avança é a compreensão de que o Alzheimer é também uma doença vascular, e que restaurar a saúde dos vasos sanguíneos do cérebro pode ser tão importante quanto combater as placas diretamente.

"Nosso estudo demonstrou eficácia notável na remoção rápida de amiloide-β, restaurando a função saudável da barreira hematoencefálica e levando a uma reversão marcante da patologia do Alzheimer", disse Lorena Ruiz Perez, pesquisadora do IBEC e professora da Universidade de Barcelona.

Há cerca de 55 milhões de pessoas com demência no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. O Alzheimer responde por 60% a 70% dos casos. Nenhum tratamento disponível hoje reverte a doença, apenas retarda sua progressão.

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