Neurociência: pesquisa analisou o funcionamento cerebral de falantes bilíngues (Getty Images)
Redatora
Publicado em 21 de junho de 2026 às 08h05.
Falar mais de um idioma pode parecer uma tarefa complexa para o cérebro. Afinal, cada língua possui regras gramaticais, estruturas e vocabulários próprios. No entanto, um novo estudo sugere que pessoas bilíngues podem utilizar um mesmo mecanismo cerebral para processar diferentes idiomas.
Os resultados da análise foram publicados na revista científica JNeurosci por pesquisadores da Universidade de Nova York. A pesquisa analisou como falantes bilíngues de inglês e espanhol processam regras gramaticais e concluiu que a atividade cerebral envolvida é muito mais semelhante entre os idiomas do que se imaginava.
Para investigar a questão, os cientistas acompanharam 23 adultos fluentes em inglês e espanhol. Os participantes foram submetidos a exames de magnetoencefalografia (MEG), técnica capaz de registrar a atividade cerebral em intervalos de milissegundos.
Durante os testes, os voluntários observavam palavras e recebiam instruções para transformá-las do singular para o plural ou vice-versa. Em outras situações, apenas repetiam os termos apresentados.
Os pesquisadores monitoraram a atividade cerebral antes, durante e após essas operações linguísticas.
A análise mostrou que os padrões de atividade cerebral eram praticamente os mesmos quando os participantes utilizavam inglês ou espanhol. O resultado foi observado inclusive em palavras que não possuem equivalentes semelhantes entre os dois idiomas e até em pseudopalavras criadas apenas para o experimento.
Segundo os autores, isso sugere que o cérebro não está apenas acessando vocabulários diferentes, mas utilizando um mecanismo compartilhado para realizar operações gramaticais.
Para os pesquisadores, a descoberta reforça a hipótese de que existe um único "motor gramatical" capaz de funcionar em múltiplas línguas.
Nas últimas décadas, estudos têm mostrado que o bilinguismo provoca adaptações no cérebro, incluindo mudanças em áreas relacionadas à linguagem, memória e atenção.
A nova pesquisa acrescenta evidências de que diferentes idiomas podem compartilhar parte da mesma rede neural responsável pelo processamento gramatical.
Os cientistas afirmam que ainda será necessário investigar se o mesmo padrão ocorre em idiomas estruturalmente mais diferentes entre si, como mandarim, árabe ou japonês. Mesmo assim, os resultados ajudam a compreender melhor como o cérebro humano organiza a linguagem e demonstram que ele pode ser mais flexível e integrado do que se acreditava anteriormente.