Irmãos: ciência explica porque mais velhos têm vantagens (Mulherzinhas/Reprodução)
Repórter
Publicado em 5 de maio de 2026 às 11h21.
Última atualização em 5 de maio de 2026 às 11h31.
Toda família tem a mesma cena. O filho mais velho chega da escola com o nariz escorrendo, tosse durante o jantar, espirra na sala — e dois dias depois, o mais novo está internado. O pai e a mãe ficam acordados a noite toda no hospital, enquanto o irmão mais velho dorme tranquilo. O que ninguém sabia (pelo menos não até agora) é que essa cena banal pode ter consequências que duram décadas.
Um estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research (NBER), produzido por pesquisadores da Universidade de Copenhagen, Stanford, Northwestern e da Universidade Fudan, na China, rastreou 1,23 milhão de crianças dinamarquesas nascidas entre 1981 e 2017 e chegou a uma conclusão desconfortável para qualquer caçula: ser o segundo filho a nascer reduz salário, escolaridade e saúde mental na vida adulta.
E, segundo a ciência, o irmão mais velho é o principal vetor desse efeito.
A hipótese central dos pesquisadores é que crianças em idade pré-escolar ficam doentes com frequência, especialmente em creches e berçários, onde vírus respiratórios circulam com intensidade.
O passado pode ser uma ilusão? Cientistas questionam memórias humanasQuando voltam para casa, carregam consigo o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), influenza e outras infecções, e as transmitem ao irmão mais novo, que ainda tem sistema imunológico imaturo e pulmões em desenvolvimento.
Segundo o estudo, os filhos mais novos têm entre duas e três vezes mais chance de ser internados por doenças respiratórias graves no primeiro ano de vida do que os primogênitos na mesma faixa etária. Para o VSR especificamente, a taxa de hospitalização dos caçulas é três vezes maior. Em números absolutos, de acordo com a pesquisa, são 9,3 internações por 100 crianças entre os filhos mais novos, contra 4,7 entre os mais velhos.
A diferença é ainda mais acentuada nos primeiros três meses de vida (o período de maior vulnerabilidade) e cresce durante o inverno, quando os vírus respiratórios estão em pico de circulação.
Caçulas nascidos entre novembro e janeiro (meses de inverno no hemisfério norte) apresentam as maiores taxas de internação já nos primeiros 90 dias de vida.
O espaçamento entre os irmãos também importa: quanto menor o intervalo entre os nascimentos, maior o risco. Isso faz sentido biologicamente — irmãos próximos em idade têm mais contato físico.
A equipe de pesquisadores não parou nos dados de saúde e cruzou também as taxas de internação respiratória na infância com os registros de renda na vida adulta. Na pesquisa, encontraram uma relação causal.
Para cada hospitalização adicional por 100 crianças no município durante o primeiro ano de vida do caçula, a renda salarial desse filho mais novo cai, em média, US$ 211 por ano na faixa dos 25 aos 32 anos.
O impacto sobre a renda total, incluindo transferências governamentais, é de US$ 163 por ano. Na escala de percentis de renda da população dinamarquesa, os caçulas mais expostos às doenças respiratórias na infância caem cerca de 0,3 posições percentuais em relação a seus irmãos mais velhos.
'The Boys': é possível a ciência criar super-heróis como Homelander?Quando os pesquisadores compararam o intervalo entre o 25º e o 75º percentil de exposição à doenças, ou seja, a diferença entre uma infância relativamente protegida e uma com alta circulação de vírus, a redução salarial chega a 0,8%. Isso é equivalente ao efeito de uma redução de 10% no peso ao nascer sobre o salário adulto, ou ao impacto de um aumento de 9% na poluição do ar no ano de nascimento.
O efeito sobre a distribuição de renda também é revelador. Os caçulas expostos a mais doenças respiratórias na primeira infância têm mais chances de terminar no decil mais baixo da renda dinamarquesa — e menos chances de chegar ao topo. O efeito não é só arrastar para baixo, mas fecha a porta do andar de cima.
As consequências vão além do salário.
O estudo encontrou reduções de 0,5 ponto percentual na probabilidade de concluir o ensino médio e de 0,6 ponto percentual na formação universitária para os caçulas mais expostos às infecções no primeiro ano de vida. Nas notas do 9º ano, o impacto se traduz em uma queda de 0,01 desvio padrão na prova de leitura em dinamarquês.
Na saúde mental, os dados são igualmente uniformes: cada aumento de uma unidade no índice de exposição a doenças respiratórias na infância se associa a 0,38 visitas adicionais a clínicas psiquiátricas por 100 pessoas por ano entre os 16 e os 26 anos. No total, isso representa uma elevação de 6,1% na média de atendimentos psiquiátricos.
Ainda de acordo com a pesquisa, efeito é duas vezes maior quando a exposição ocorre nos primeiros seis meses de vida, em comparação com o segundo semestre. Isso é consistente com o que a biomedicina já sabia — os primeiros meses são o período de máxima plasticidade neural e máxima vulnerabilidade imunológica.
Nessa janela, cerca de 85% das calorias ingeridas pelo bebê são usadas para o crescimento do cérebro, segundo a literatura citada pelos autores. Uma infecção grave nessa fase compete diretamente com o desenvolvimento neural por recursos do organismo, e a inflamação causada pela doença pode prejudicar o cérebro de forma direta.
Quando os pesquisadores incluíram o índice de exposição a doenças respiratórias nos modelos estatísticos, o chamado "efeito da ordem de nascimento" sobre os salários — documentado em estudos anteriores — caiu 70%.
Sem controlar pela exposição a doenças, a diferença salarial entre primogênitos e caçulas é de 1,9%. Quando se leva em conta o ambiente de doenças na infância, essa diferença encolhe drasticamente.
Isso não significa que o efeito do irmão mais velho seja a única causa.
Pesquisas anteriores já mostraram que primogênitos recebem mais atenção dos pais — dados americanos indicam de 20 a 30 minutos a mais por dia de tempo de qualidade ao longo de toda a infância. Mas a nova pesquisa sugere que a transmissão de vírus é um mecanismo adicional, independente e relevante, que até então havia sido negligenciado pela literatura econômica.
Os pesquisadores testaram um possível fator de proteção: a amamentação.
O leite materno contém anticorpos que reduzem a vulnerabilidade do bebê a vírus respiratórios.
Os dados apontados pelos cientistas mostram que, quando mais longa a amamentação, menor o impacto das doenças respiratórias sobre a saúde do caçula. Um modelo linear dos autores sugere que 15 meses de amamentação seriam suficientes para neutralizar completamente o efeito diferencial da exposição a vírus sobre as hospitalizações do bebê.
O que aconteceria com o corpo humano se ele tivesse a velocidade do FlashPor outro lado, a internação por VSR não altera a duração da amamentação de forma estatisticamente significativa, o que indica que não é a própria doença que interrompe o aleitamento.
Vale um alerta: a pesquisa foi feita com dados da Dinamarca, país com sistema universal de saúde e registros administrativos excepcionalmente detalhados.
Os efeitos encontrados são considerados conservadores pelos próprios autores, porque, na medida em que os pais compensam parcialmente a saúde mais fraca do filho mais novo com mais atenção e cuidados, as estimativas subestimam o impacto biológico bruto das infecções.
O estudo não mediu o longo prazo para bebês divididos por duração de amamentação, já que esses dados só estão disponíveis para coortes mais recentes.
O que a pesquisa estabelece com solidez é a cadeia causal: irmão mais velho na creche → vírus em casa → internações respiratórias do caçula nos primeiros meses de vida → menor escolaridade, menor renda e mais visitas a psiquiatras na vida adulta.
Os caçulas sempre souberam que algo estava errado. Agora têm o estudo para provar.
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