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(violet-blue/Getty Images)
Repórter
Publicado em 28 de abril de 2026 às 08h09.
Zach tinha um telefone. Não um smartphone cheio de aplicativos, mas um aparelho desenvolvido especialmente para ele: uma bola com acelerômetro que, ao ser sacudida com a boca, disparava uma videochamada para a tutora.
O labrador de Ilyena Hirskyj-Douglas ligava para ela com frequência suficiente para transformar as chamadas em rotina, segundo pesquisa da Universidade de Glasgow. Zach escolhia quando queria falar e iniciava a conversa.
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A cena parece saída de uma animação da Pixar, mas faz parte de uma pesquisa publicada em um jornal científico e revisada por pares — ou seja, avaliada por outros especialistas da área antes de ser aceita para publicação. O caso representa uma frente de estudos que busca redefinir a comunicação entre humanos e animais.
Por décadas, cientistas estudaram a comunicação animal com observação, fitas cassete e longos períodos de coleta. Agora, modelos de aprendizado de máquina treinados em milhares de vocalizações conseguem identificar padrões que o ouvido humano não percebe, segundo o Bioneers.
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Cientistas desenvolvem algoritmos de IA para decodificar e traduzir sons de cães e gatos, além de padrões de marcação por cheiro, movimentos e expressões faciais.
O objetivo não se limita a identificar fome ou medo. A busca é entender se há estrutura, contexto e intenção nessas emissões. A questão central é se existe algo semelhante a uma linguagem.
O projeto mais ambicioso nessa área não envolve animais domésticos, mas cachalotes. O Project CETI, ou Cetacean Translation Initiative, tornou-se a maior iniciativa de comunicação entre espécies do mundo, segundo a revista Oceanographic.
O projeto reúne oito instituições e cerca de 50 cientistas das áreas de inteligência artificial, linguística, criptografia, biologia marinha e robótica.
Um estudo publicado pelo projeto mostrou que cachalotes têm seu próprio alfabeto. Outro identificou algo semelhante a vogais e ditongos na linguagem dos animais, de forma parecida com a fala humana, segundo a Harvard SEAS.
Para analisar as propriedades acústicas dos sons das baleias, o linguista Gašper Beguš, da UC Berkeley, utilizou redes adversariais generativas, um modelo de aprendizado de máquina que identifica padrões em grandes conjuntos de dados, segundo o Project CETI.
De acordo com o próprio projeto, a pesquisa pode levar à revisão de distinções morais e legais que separam humanos de outras espécies.
Nos estudos com animais domésticos, Hirskyj-Douglas ampliou as pesquisas após o experimento com o labrador. Ela e sua equipe desenvolveram videochamadas para papagaios se socializarem.
Os pássaros foram treinados a usar a língua em touchscreens de tablets, o que permite conexão com outros papagaios em um sistema de encontros virtuais, segundo a Universidade de Glasgow.
Em um estudo com 147 chamadas iniciadas pelos próprios pássaros, todos os animais usaram o sistema. A maioria demonstrou alta motivação e intencionalidade, e todos os tutores relataram benefícios percebidos, segundo a American Animal Hospital Association.
Alguns benefícios foram considerados transformadores, como aprender a forragear (procurar, coletar ou caçar alimentos no ambiente natural), ou voar ao observar outros pássaros.
A declaração foi feita no British Science Festival, em Liverpool, em setembro de 2025. A equipe também desenvolveu tecnologia para macacos e lêmures em zoológicos acionarem, por conta própria, sons relaxantes, cheiros ou imagens de vídeo, segundo o Financial Times.
Enquanto cientistas tentam decifrar o que os animais comunicam, estudos também analisam o quanto eles conseguem interpretar os humanos.
Pesquisas contemporâneas de etologia, neurobiologia e filosofia animal indicam que a comunicação não é apenas troca de sinais, mas uma forma de participação e relacionamento, segundo artigo publicado na PubMed Central.
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Cães aparecem como parceiros relevantes nesse processo. Há, no entanto, um limite metodológico: o antropomorfismo.
A tendência de atribuir aos animais valores e moralidades humanas alimenta crenças populares sobre comunicação com pets que a ciência não sustenta integralmente, segundo a Humane World for Animals.
O campo ainda está longe de uma conversa nos moldes humanos. A maior parte dos esforços científicos atuais foca em escutar, não em responder.
A prioridade é coletar grandes conjuntos de dados e usar ferramentas computacionais para entender melhor como os animais se comunicam entre si, segundo o Bioneers.
A declaração foi dada à Harvard SEAS em dezembro de 2025. Para Hirskyj-Douglas, uma aplicação possível é permitir que pets internados no veterinário mantenham contato por vídeo com a família.
Zach, o labrador que liga para a tutora, já vive parte desse cenário. A ciência tenta entender até onde essa comunicação pode chegar.
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