Ciência

Por que ter um irmão mais velho pode diminuir seu salário

Estudo com 1,23 milhão de crianças liga infecções no início da vida a menor renda, escolaridade e mais problemas de saúde mental

Succession: na série, irmãos brigam pelo poder da empresa (Succession/Reprodução)

Succession: na série, irmãos brigam pelo poder da empresa (Succession/Reprodução)

Publicado em 5 de maio de 2026 às 11h30.

Última atualização em 5 de maio de 2026 às 11h32.

Em Succession, Kendall Roy insiste em se afirmar como o irmão mais velho — mesmo não sendo. A disputa por posição na família, na ficção, está ligada a poder. Na vida real, dados indicam que a ordem de nascimento também tem impacto mensurável, inclusive no salário.

A diferença salarial entre primogênitos e caçulas chega a 1,9%, segundo estudo do National Bureau of Economic Research (NBER). Parte relevante dessa diferença está associada à exposição a doenças respiratórias ainda no primeiro ano de vida.

Para cada hospitalização adicional por 100 crianças no município, o salário do caçula cai, em média, US$ 211 por ano entre 25 e 32 anos.

Quando comparados diferentes níveis de exposição a vírus, a perda pode chegar a 0,8% da renda ao longo da vida adulta.

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O mecanismo: infecções dentro de casa

A principal explicação está na dinâmica familiar. Crianças mais velhas, expostas a creches e ambientes coletivos, entram em contato com vírus respiratórios e os levam para casa.

Entre os principais agentes estão o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e a influenza. Ao chegar ao ambiente doméstico, essas infecções atingem bebês com sistema imunológico ainda imaturo.

Os dados mostram que caçulas têm entre duas e três vezes mais risco de hospitalização por doenças respiratórias no primeiro ano de vida. Para o VSR, a taxa é três vezes maior.

Em números absolutos, são 9,3 internações por 100 crianças entre caçulas, contra 4,7 entre primogênitos.

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O risco é mais elevado nos primeiros três meses de vida e aumenta durante o inverno, período de maior circulação viral.

Janela crítica de desenvolvimento

O impacto ocorre em um período crítico para o desenvolvimento. Nos primeiros meses, cerca de 85% da energia do organismo do bebê é direcionada ao crescimento do cérebro.

Infecções nesse estágio geram inflamação e desviam recursos do organismo, afetando o desenvolvimento neural.

O estudo indica que o efeito das doenças é duas vezes maior quando a exposição ocorre nos primeiros seis meses de vida.

Impactos persistentes na vida adulta

As consequências vão além da renda.

Na educação, há redução de 0,5 ponto percentual na probabilidade de concluir o ensino médio e de 0,6 ponto na formação universitária.

Na saúde mental, o aumento da exposição a doenças está associado a alta de 6,1% nas visitas a clínicas psiquiátricas entre 16 e 26 anos.

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Ao incluir a exposição a doenças nos modelos estatísticos, o efeito da ordem de nascimento sobre salários cai cerca de 70%, indicando que o fator biológico explica parte relevante da diferença.

Fatores que influenciam o risco

O intervalo entre nascimentos e a estação do ano afetam a exposição a vírus.

A amamentação surge como fator de proteção. Segundo o modelo dos pesquisadores, cerca de 15 meses de aleitamento seriam suficientes para neutralizar o efeito diferencial das infecções respiratórias sobre hospitalizações.


Estudo NBER · 1,23 milhão de crianças · Dinamarca 1981–2017
O custo de ser caçula
Como o irmão mais velho reduz salário, escolaridade e saúde mental do filho mais novo

mais internações por VSR no 1º ano de vida
9,3 vs. 4,7 por 100 crianças entre caçulas e primogênitos
1,9%
de desvantagem salarial dos caçulas
Diferença cai 70% quando exposição a doenças é controlada
US$211
a menos por ano no salário adulto
Para cada internação adicional por 100 crianças no município

A cadeia causal

1
Irmão mais velho na creche
Contato com vírus respiratórios em ambiente coletivo
2
Vírus em casa
Transmissão ao bebê com imunidade imatura
3
Internações no 1º ano
Período crítico de desenvolvimento cerebral
4
Impacto adulto
Menor renda, menos diploma, mais saúde mental

Internações por doenças respiratórias no 1º ano de vida (por 100 crianças)

Primogênito
4,7


Primogênito
4,7

Caçula
9,3
Para VSR (Vírus Sincicial Respiratório), a taxa de hospitalização dos caçulas é 3× maior do que a dos primogênitos

Impactos na vida adulta do caçula
Salário
−US$211/ano
por cada internação adicional por 100 crianças no município. Redução total de até 0,8% na renda
Ensino médio
−0,5 p.p.
na probabilidade de conclusão do ensino médio
Faculdade
−0,6 p.p.
na probabilidade de formação universitária
Saúde mental
+6,1%
nas visitas a clínicas psiquiátricas entre 16 e 26 anos

Fator de proteção
15 meses de amamentação neutralizam completamente o efeito diferencial das infecções respiratórias sobre as hospitalizações do bebê, segundo modelo linear dos pesquisadores

Fonte: Daysal, Ding, Rossin-Slater, Schwandt. "Germs in the Family: The Short- and Long-Term Consequences of Intra-Household Disease Spread". NBER Working Paper 29524, revisado em agosto de 2025.

O estudo estabelece uma cadeia causal: exposição a vírus na infância → hospitalizações no primeiro ano → impacto no desenvolvimento → efeitos persistentes em renda, educação e saúde mental.

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