Ciência

Dia dos professores: os impactos da profissão na saúde mental dos docentes

Sobrecarga, pressão por resultados e condições de trabalho ajudam a explicar o avanço dos problemas psicológicos entre profissionais da educação

Professores: pressão por metas e perda de autonomia ampliam desafios enfrentados nas escolas (Freepik)

Professores: pressão por metas e perda de autonomia ampliam desafios enfrentados nas escolas (Freepik)

Publicado em 15 de outubro de 2026 às 10h29.

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O Brasil registrou mais de 65 mil afastamentos de professores da rede pública por problemas de saúde mental em 2025, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade, depressão e esgotamento emocional fazem parte de um cenário que especialistas relacionam às condições de trabalho nas escolas.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também aponta que sete em cada dez professores apresentam sinais de ansiedade ou depressão. Os números ampliam o debate sobre os fatores que contribuem para o adoecimento dos profissionais da educação.

Entre os aspectos apontados estão jornadas extensas, cobranças por resultados, remuneração insuficiente e responsabilidades que ultrapassam a sala de aula. Para a psicóloga e educadora Ellen Ramos Cardoso, compreender o problema exige considerar as condições sociais e institucionais enfrentadas pelos docentes.

“Quando falamos em saúde mental, não estamos pensando na ausência de sofrimento. Estamos falando da capacidade de enfrentar as condições produzidas pela vida em sociedade sem que elas inviabilizem nossa possibilidade de existir com dignidade, construir vínculos, trabalhar, aprender e participar da vida coletiva”, explicou ao portal da Fundação Carlos Chagas (FCC).

Sobrecarga vai além da sala de aula

A rotina dos professores envolve atividades que ultrapassam o planejamento e a condução das aulas. Além de ensinar, os profissionais precisam atender às demandas dos estudantes, das famílias, das instituições e da sociedade.

Em muitas escolas, essas responsabilidades se somam a jornadas acumuladas, atividades realizadas em casa e pouco tempo disponível para descanso.

Os docentes também convivem com conflitos escolares e situações de vulnerabilidade social enfrentadas pelos alunos. Segundo Ellen, o acúmulo dessas exigências pode produzir um estado contínuo de alerta.

“É um profissional que está sendo demandado de vários lugares ao mesmo tempo. Isso gera um estado permanente de alerta, típico de contextos em que as demandas excedem continuamente os recursos disponíveis”, afirmou.

Pressão por resultados afeta professores

As cobranças por desempenho também modificaram a organização do trabalho docente. Um estudo publicado na revista científica Estudos em Avaliação Educacional analisou uma rede municipal de ensino entre 2016 e 2024.

A pesquisa identificou que o aumento das exigências por indicadores educacionais e avaliações externas intensificou o controle sobre as atividades dos professores. Entre as mudanças observadas estão a multiplicação de provas padronizadas e o acompanhamento frequente do desempenho das turmas.

Os pesquisadores também identificaram o estreitamento curricular, caracterizado pela maior concentração de esforços nas disciplinas cobradas nas avaliações.

Segundo as autoras do estudo, esse modelo contribui para a precarização do trabalho docente, reduz a autonomia pedagógica e está relacionado ao aumento de afastamentos e pedidos de exoneração.

Mulheres negras enfrentam sobrecarga adicional

As desigualdades de gênero e raça também fazem parte da discussão sobre saúde mental na educação. Segundo o Censo Escolar 2025, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), 78,8% dos cargos de docência na educação básica brasileira são ocupados por mulheres.

Além das responsabilidades profissionais, muitas professoras acumulam tarefas domésticas e cuidados com familiares. Para mulheres negras, essa sobrecarga pode ser ampliada por situações de discriminação racial e desigualdade no ambiente escolar.

Ellen ressaltou que docentes negros frequentemente assumem responsabilidades relacionadas ao acolhimento de estudantes vítimas de racismo. “As situações acabam recaindo sobre esse professor ou essa professora negra, seja porque estudantes negros encontram nessa pessoa a única possibilidade de identificação e acolhimento, seja porque colegas e instituições delegam, explícita ou implicitamente, essa responsabilidade”, afirmou.

Segundo a psicóloga, essas atividades incluem mediação de conflitos, apoio emocional e ações de educação antirracista. Trata-se de um trabalho que nem sempre recebe reconhecimento institucional.

“O que deveria ser uma responsabilidade coletiva, especialmente das instituições e das pessoas brancas, acaba sendo individualizado”, acrescentou.

Violência escolar agrava sofrimento emocional

Um levantamento divulgado pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), em maio de 2026, mostrou que 97% dos servidores da educação paulista associam o sofrimento emocional ao trabalho.

Entre os principais sintomas mencionados estão ansiedade, síndrome do pânico, depressão e distúrbios do sono. A pesquisa reforça a discussão sobre os impactos das condições de trabalho e das situações enfrentadas diariamente nas instituições de ensino.

Na avaliação de Ellen, o sofrimento psicológico também está relacionado a fatores sociais: “A nossa sociedade produz sofrimento por meio das desigualdades, da violência, do racismo, do sexismo, da precarização do trabalho e de tantas outras formas de exclusão”, afirmou.

Para a especialista, enfrentar esses problemas exige medidas que ultrapassem o acompanhamento individual.

Descanso e apoio podem ajudar

O período de férias nem sempre representa uma interrupção completa das atividades profissionais. Segundo Ellen, muitos professores continuam realizando tarefas escolares durante os meses destinados ao descanso.

A psicóloga destaca a importância de estabelecer momentos de desconexão e fortalecer vínculos sociais. Entre as possibilidades mencionadas estão grupos terapêuticos gratuitos, redes de apoio e atividades corporais e culturais.

“O autocuidado também não deve se limitar à terapia, que muitas vezes é inacessível financeiramente. Como alternativa, professores podem buscar grupos terapêuticos gratuitos e outros espaços coletivos de cuidado”, recomendou.

A especialista também citou práticas de respiração e atividades realizadas sem a cobrança por desempenho. Um exemplo de iniciativa coletiva é o grupo terapêutico Diálogos Femininos, voltado a mulheres negras e mediado por Ellen e pela psicóloga Lais Mendes, no Afro Amparo e Saúde.

O que pode reduzir o adoecimento docente?

Além das estratégias individuais, a psicóloga defende mudanças nas condições de trabalho e na organização das instituições de ensino. Entre as medidas apontadas estão a criação de espaços permanentes de escuta, a valorização profissional e o fortalecimento da convivência escolar.

A especialista também destacou a necessidade de políticas públicas voltadas à saúde mental dos trabalhadores da educação. “O cuidado em saúde mental não pode ser uma responsabilidade exclusiva dos professores. É preciso promover melhores condições de trabalho, criar espaços permanentes de escuta e diálogo entre as equipes, ampliar esse debate para toda a sociedade e assumir esse cuidado como uma responsabilidade institucional”, afirmou Ellen.

Segundo a psicóloga, o acompanhamento terapêutico e outras estratégias de autocuidado são importantes, mas não substituem ações das escolas e do poder público. “Não existe educação de qualidade produzida por profissionais adoecidos”, concluiu.

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