Depressão: cientistas analisaram células do hipocampo para investigar alterações associadas ao transtorno (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 31 de agosto de 2026 às 17h33.
O hipocampo, região do cérebro ligada à memória e às emoções, pode apresentar mudanças importantes em pessoas com depressão. Pesquisadores da Universidade Columbia encontrou alterações na formação de novos neurônios e em diferentes processos moleculares nessa área.
Para chegar aos resultados, o estudo analisou quase 500 mil células cerebrais de pessoas com transtorno depressivo maior e de indivíduos do grupo de controle. As análises foram publicadas na última sexta-feira, 21, na revista Nature Medicine.
A equipe investigou principalmente a neurogênese, processo pelo qual novos neurônios são produzidos. Embora a maior parte das células nervosas seja formada antes do nascimento, algumas continuam surgindo no cérebro adulto, sobretudo no hipocampo.
O hipocampo participa da memória episódica e das respostas emocionais às experiências. A região também ajuda o cérebro a diferenciar acontecimentos parecidos, mas que ocorreram em momentos diferentes.
Essa capacidade é conhecida como separação de padrões. Ela permite, por exemplo, distinguir uma situação desagradável ocorrida hoje de uma lembrança negativa do passado.
Segundo os pesquisadores, quando esse mecanismo fica prejudicado, experiências diferentes podem se tornar menos distintas. Uma situação atual pode acabar sendo associada a lembranças e emoções relacionadas a acontecimentos anteriores.
Pesquisas realizadas anteriormente em camundongos já haviam relacionado a formação de novos neurônios à separação de padrões. Um estudo com pacientes que receberam radioterapia direcionada ao hipocampo também apresentou evidências de uma relação semelhante em humanos.
Ao analisar as células cerebrais, os cientistas encontraram evidências de que a neurogênese estava interrompida em adultos com transtorno depressivo maior. A alteração, porém, não apareceu isoladamente. O estudo identificou mudanças em diferentes processos que ocorrem dentro do circuito do hipocampo.
Entre os genes afetados estavam aqueles envolvidos na formação de novas conexões entre neurônios, na comunicação entre células cerebrais, no fornecimento de energia e no transporte de materiais dentro das células.
O circuito trissináptico, uma das principais vias do hipocampo envolvidas na formação de novas memórias emocionais, também apresentou sinais de inflamação e estresse celular nos participantes com depressão.
A equipe utilizou técnicas que permitiram medir a atividade de cada gene em células individuais. Os pesquisadores também verificaram se proteínas presentes nas células haviam sido alteradas. Com isso, conseguiram observar o funcionamento de células específicas e identificar onde elas estavam localizadas no circuito do hipocampo.
Ao todo, foram analisadas quase 500 mil células cerebrais obtidas de pessoas com depressão e de indivíduos do grupo de controle após a morte dos doadores.
A análise revelou alterações na atividade de vários genes cujas variantes já haviam sido associadas à depressão maior.
Os pesquisadores ainda identificaram mudanças epigenéticas em outros genes. Esse tipo de alteração pode modificar a intensidade com que determinados genes são ativados ou desativados sem mudar a sequência do DNA.
Segundo Maura Dupont, professora de psiquiatria que liderou a pesquisa, esses mecanismos podem ser influenciados por experiências de vida, como estresse, aprendizado e envelhecimento.
A variedade de alterações encontradas também pode ajudar a explicar por que a depressão apresenta características diferentes entre as pessoas.
Os pesquisadores afirmam que ainda conhecem de forma limitada os mecanismos biológicos envolvidos na depressão. Para a equipe, identificar alterações em níveis celular e molecular pode ajudar a encontrar novos alvos para tratamentos.
Uma das possibilidades levantadas no estudo é reativar a formação de novos neurônios no hipocampo em algumas pessoas com depressão.
Os pesquisadores também pretendem investigar se o transtorno pode ser dividido em diferentes subtipos moleculares, definidos pelas alterações biológicas encontradas em cada grupo de pacientes.
A proposta é semelhante à classificação utilizada em algumas áreas da oncologia, nas quais características celulares e moleculares ajudam a definir diferentes tipos de câncer e orientar tratamentos.