Ciência

Calor à noite faz mais mal do que parece; entenda os riscos para a saúde

Especialistas defendem novas formas de medir os impactos das temperaturas elevadas sobre o organismo durante o sono

Sono: cientistas alertam que noites quentes podem aumentar a sobrecarga do organismo (Shutterstock)

Sono: cientistas alertam que noites quentes podem aumentar a sobrecarga do organismo (Shutterstock)

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 17h28.

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O aumento das temperaturas causado pelas mudanças climáticas não está tornando apenas os dias mais quentes. As noites também estão registrando temperaturas cada vez mais elevadas, dificultando o sono e reduzindo o tempo de recuperação do organismo.

Para pesquisadores, compreender os efeitos do calor noturno sobre a saúde tornou-se uma prioridade para enfrentar os impactos das ondas de calor. De acordo com a revista Nature, pesquisadores argumentam que medir apenas a temperatura do ar já não é suficiente para avaliar os riscos do calor extremo. Segundo eles, é preciso entender como noites quentes interferem na fisiologia humana, na qualidade do sono e na capacidade do corpo de se recuperar.

O calor noturno já reduz horas de sono

Os autores destacam que as noites estão ficando mais quentes em diversas partes do mundo, de acordo com um estudo publicado na revista Sustainable Cities and Society em 2026.

Em maio deste ano, Nova Déli registrou temperatura mínima de 32,4°C durante a noite. Na Europa Ocidental, a França bateu recorde de temperatura mínima noturna de 22°C, enquanto uma região da Alemanha registrou 29,4°C durante a madrugada. Nos Estados Unidos, cidades da costa do Golfo do México e do Atlântico também enfrentaram noites acima de 27°C.

Segundo os pesquisadores, essas temperaturas já têm impacto mensurável sobre o descanso. Uma análise realizada pela organização Climate Central em mais de 1.300 cidades estimou que, entre 2020 e 2025, cada morador perdeu, em média, cerca de 56 horas de sono por ano devido ao calor noturno.

Por que dormir em um quarto quente faz mal?

Durante o sono, o organismo passa por processos importantes de recuperação. O ritmo circadiano reduz naturalmente a atividade cardiovascular, regula o metabolismo, reorganiza o sistema imunológico e favorece a consolidação da memória e do aprendizado. Para que isso aconteça, a temperatura corporal central precisa diminuir gradualmente antes e durante o sono.

Segundo os autores, esse mecanismo depende da capacidade do corpo de dissipar calor por meio da pele. Quando o ambiente está muito quente — especialmente em condições de alta umidade — esse resfriamento se torna mais difícil.

Como a pessoa está dormindo, também perde parte da capacidade de adotar estratégias simples para aliviar o calor, como beber água, ligar um ventilador ou procurar um ambiente mais fresco. O resultado é maior dificuldade para adormecer, despertares frequentes e pior qualidade do sono.

Os efeitos vão além de uma noite mal dormida

Os especialistas destacam que o impacto do calor noturno não se limita ao cansaço do dia seguinte. Para dissipar calor, o coração precisa bombear mais sangue para a pele, aumentando a frequência cardíaca.

A transpiração prolongada favorece a desidratação, enquanto interrupções repetidas do sono comprometem processos de recuperação cardiovascular, metabólica, imunológica, cognitiva e emocional. Segundo os pesquisadores, idosos e pessoas com doenças cardiovasculares podem ser mais vulneráveis.

Estudos já apontam associação entre ondas de calor noturnas e aumento de internações e mortes. Em 28 cidades do Leste Asiático, episódios intensos de calor durante a noite foram relacionados a um aumento de 3% na mortalidade por causas naturais.

Em Hong Kong, noites próximas de 30°C durante cerca de 12 horas foram associadas a um crescimento de 3,1% nas internações de emergência, percentual que chegou a 5,3% entre idosos e pessoas de menor renda.

O que ainda falta entender

Apesar dessas evidências, os autores afirmam que ainda não se sabe exatamente como noites consecutivas de calor afetam o organismo ao longo do tempo. Segundo eles, os indicadores utilizados atualmente foram desenvolvidos principalmente para monitorar o clima, e não os efeitos sobre a saúde.

Entre as prioridades de pesquisa propostas estão definir quais condições permitem uma recuperação adequada durante a noite, estabelecer limites de temperatura relevantes para a saúde, investigar os efeitos cumulativos de várias noites quentes consecutivas e avaliar como fatores como qualidade da moradia, acesso à refrigeração e pobreza energética influenciam os riscos.

Como os pesquisadores propõem estudar o problema

Os autores defendem que futuros estudos acompanhem simultaneamente as condições ambientais e as respostas fisiológicas das pessoas. Entre as ferramentas sugeridas estão sensores de temperatura e umidade instalados nos quartos, dispositivos vestíveis capazes de registrar frequência cardíaca, temperatura da pele, duração e qualidade do sono, além de medições de pressão arterial, fadiga, sonolência e desempenho cognitivo na manhã seguinte.

Segundo o grupo, essas tecnologias já existem e poderiam ser utilizadas em estudos de longo prazo para identificar quais condições realmente impedem a recuperação do organismo durante ondas de calor.

Na avaliação dos pesquisadores, as políticas públicas também precisam considerar o período noturno. Eles defendem que alertas de calor informem não apenas os riscos durante o dia, mas também os efeitos de noites consecutivas de altas temperaturas. Também sugerem que políticas de habitação priorizem quartos com melhor isolamento térmico, ventilação adequada e acesso a sistemas eficientes de resfriamento.

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