Lua: polo sul lunar reúne crateras e elevações que podem criar pequenos refúgios contra a radiação solar (Nasa/Divulgação)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 17h31.
Os micróbios levados por astronautas podem encontrar refúgios na Lua. É o que mostra um estudo conduzido por pesquisadores da Nasa, que identificou áreas próximas ao Polo Sul lunar onde alguns organismos terrestres poderiam permanecer vivos por pelo menos um dia.
A pesquisa, publicada na última quarta-feira, 19, na revista científica Science Advances, indica que pequenas regiões protegidas da radiação solar podem oferecer condições menos hostis para determinados microrganismos.
Os seres humanos carregam naturalmente uma grande quantidade de microrganismos. Segundo o estudo, cerca de 1 milhão de bactérias podem viver em uma área da pele aproximadamente do tamanho da borracha de um lápis.
Durante as missões, alguns desses organismos podem escapar dos trajes espaciais ou dos habitats utilizados pelos astronautas e chegar ao ambiente ao redor. Essa possibilidade cria um desafio para pesquisas que pretendem analisar a composição química lunar anterior à presença humana.
Os pesquisadores destacam que também será importante considerar essa contaminação em futuras missões que busquem sinais de vida em Marte. Por isso, o estudo procurou identificar quais regiões próximas ao Polo Sul lunar poderiam oferecer condições para a permanência desses microrganismos.
A equipe analisou a incidência de luz solar em três regiões próximas ao Polo Sul da Lua: Nobile Rim, Connecting Ridge e De Gerlache Rim.
Como o eixo lunar possui pouca inclinação, o Sol permanece muito próximo do horizonte quando observado a partir dos polos. Com isso, crateras, elevações e outras formações podem bloquear a luz. Essas sombras podem criar áreas extremamente frias e protegidas da radiação. Algumas delas também podem preservar depósitos de água congelada e moléculas sensíveis.
Os pesquisadores estimaram que esses possíveis refúgios variam bastante de tamanho. Alguns poderiam ocupar áreas extensas no fundo de crateras, enquanto outros teriam dimensões comparáveis às de uma pegada.
Para avaliar a possibilidade de sobrevivência, os cientistas analisaram cinco grupos de microrganismos associados a ambientes humanos ou a missões espaciais. Entre eles estavam Aspergillus niger, Bacillus subtilis, Staphylococcus aureus, Deinococcus radiodurans e espécies de Fusarium.
O Aspergillus niger, um fungo encontrado com frequência em ambientes terrestres, apresentou uma resistência particularmente elevada à radiação ultravioleta.
Por essa característica, o organismo poderia suportar condições que seriam fatais para muitos outros micróbios. Os pesquisadores estimaram que ele poderia sobreviver até mesmo em determinadas áreas que recebem alguma quantidade de luz solar.
Os resultados, porém, não indicam que esses organismos conseguiriam formar colônias na Lua. No estudo, sobrevivência significa que um microrganismo poderia permanecer vivo por pelo menos um dia terrestre. Isso é diferente de conseguir crescer, se reproduzir ou estabelecer uma população.
A superfície lunar apresenta condições extremamente adversas. Entre os principais obstáculos está a ausência de água líquida estável, essencial para a reprodução e o metabolismo da maioria dos organismos terrestres.
Por isso, os pesquisadores consideram mais provável que alguns micróbios permaneçam dormentes em áreas protegidas.
A possível sobrevivência desses organismos representa um desafio para a exploração científica da Lua. Os pesquisadores querem estabelecer com precisão quais substâncias e microrganismos já estavam presentes antes da chegada humana. Isso permitiria diferenciar características naturais da superfície de materiais introduzidos pelas missões.
A questão também pode se tornar ainda mais importante em futuras viagens a Marte. Nesse caso, identificar corretamente possíveis sinais de vida exigirá separar organismos extraterrestres de eventuais contaminantes trazidos da Terra.
O estudo reforça, portanto, a necessidade de controlar a contaminação biológica durante a exploração espacial. Ao mesmo tempo, os próprios pesquisadores consideram que esses ambientes podem servir como laboratórios naturais para estudar os limites da sobrevivência microbiana.