Ciência

Coreia do Sul vive último verão com venda legal de carne de cachorro

Consumo de carne de cachorro já vinha caindo no país antes da entrada em vigor da nova lei

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 11h35.

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A Coreia do Sul atravessa o último verão antes da entrada em vigor da proibição nacional da criação, do abate e da venda de cães para consumo humano. A nova regra começa a valer integralmente em "7 de fevereiro de 2027" e deve encerrar uma prática que vem perdendo espaço no país há anos.

Um dos símbolos dessa tradição é o "bosintang", uma sopa preparada com carne de cachorro e historicamente consumida durante o "boknal", período que reúne os três dias considerados tradicionalmente os mais quentes do verão sul-coreano. Em 2026, o último desses dias ocorreu em 14 de agosto.

O prato era associado à ideia de recuperar as energias durante o calor intenso. Nas últimas décadas, porém, o consumo de carne de cachorro caiu à medida que aumentou a preocupação com o bem-estar animal e cresceu o número de cães mantidos como animais de estimação.

Uma pesquisa realizada em 2024 e citada pela Reuters mostrou que mais de 90% dos entrevistados não tinham intenção de consumir carne de cachorro, enquanto quase 95% afirmaram não ter comido esse tipo de carne no ano anterior.

Restaurantes mudam de cardápio

A transformação já pode ser percebida em lugares tradicionalmente ligados ao comércio de carne canina. No Mercado Moran, em Seongnam, um dos centros mais conhecidos desse mercado na Coreia do Sul, comerciantes passaram a oferecer alternativas como pratos preparados com cabra.

O público que ainda procura o bosintang é formado principalmente por consumidores mais velhos, enquanto estabelecimentos ligados à atividade enfrentam queda da demanda e se preparam para encerrar ou transformar seus negócios.

O próprio número de produtores já caiu de forma significativa. Segundo o Ministério da Agricultura, Alimentos e Assuntos Rurais da Coreia do Sul, 1.265 das 1.537 fazendas de criação de cães para consumo registradas no país já haviam encerrado as atividades até maio de 2026, equivalente a cerca de 82% do total. Restavam 272 propriedades em funcionamento.

O que muda com a nova lei?

A legislação que encerra a indústria de carne de cachorro foi aprovada em 2024 e estabeleceu um período de transição para que produtores, distribuidores e restaurantes deixassem a atividade ou migrassem para outros negócios.

A partir de 7 de fevereiro de 2027, será proibido criar ou reproduzir cães com finalidade de consumo, abatê-los e distribuir ou vender os animais ou alimentos produzidos a partir de sua carne.

As punições variam conforme a infração. O abate de cães para consumo poderá resultar em até três anos de prisão ou multa de até 30 milhões de wones. Já a criação, reprodução, distribuição ou venda poderá levar a até dois anos de prisão ou multa de até 20 milhões de wones.

O governo sul-coreano também criou programas para apoiar produtores e comerciantes no encerramento das atividades ou na migração para outros setores. A estratégia é antecipar o fechamento das empresas antes mesmo da entrada em vigor definitiva da proibição.

Com a nova legislação, o verão de 2026 marca, portanto, o fim de uma tradição gastronômica que atravessou gerações na Coreia do Sul, mas que já vinha perdendo espaço diante das mudanças nos hábitos e na relação da população com os animais.

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