Transplante de coração: estudo analisou como a idade do receptor afeta o órgão doado (Freepik)
Redatora
Publicado em 12 de outubro de 2026 às 06h00.
O coração de um doador mais velho pode apresentar sinais de rejuvenescimento molecular depois de ser transplantado para uma pessoa mais jovem. O processo contrário também parece ocorrer: órgãos jovens podem adquirir características de envelhecimento quando recebidos por pacientes de maior idade.
A possibilidade foi identificada em experimentos com camundongos e posteriormente observada em um pequeno grupo de pacientes. Os resultados foram divulgados na plataforma bioRxiv, mas ainda não passaram por revisão por pares.
O trabalho foi coordenado por Jesse Poganik, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Por enquanto, as conclusões se limitam ao coração e não permitem afirmar que outros órgãos respondam da mesma maneira.
Na primeira etapa, os pesquisadores transplantaram corações entre camundongos de diferentes idades. Os animais mantiveram seus próprios órgãos e receberam um segundo coração, conectado a vasos sanguíneos.
Meses depois, a equipe analisou alterações moleculares associadas ao envelhecimento nas células dos órgãos transplantados. Os cientistas avaliaram principalmente dois indicadores: expressão gênica e metilação do DNA.
A expressão gênica mostra quais regiões do DNA estão sendo utilizadas pelas células. Já a metilação envolve alterações químicas capazes de influenciar a atividade dos genes. Ambos os padrões podem mudar conforme o organismo envelhece.
As análises indicaram que os marcadores dos corações transplantados passaram a acompanhar a idade dos receptores. Quando um órgão mais velho foi colocado em um camundongo jovem, apresentou características moleculares compatíveis com rejuvenescimento. Na situação inversa, o coração jovem mostrou sinais associados ao envelhecimento.
Depois dos experimentos com animais, a equipe buscou verificar se o fenômeno poderia ocorrer em pessoas. Os pesquisadores analisaram biópsias de corações transplantados armazenadas pelo Brigham and Women’s Hospital, em Boston. Foram selecionados 11 casos nos quais havia diferença significativa de idade entre doador e receptor.
Entre doadores jovens e receptores mais velhos, a diferença variou de 38 a 50 anos. Quando o paciente era mais jovem que o doador, o intervalo ficou entre 8 e 24 anos. Os dados apontaram um padrão semelhante ao encontrado nos camundongos: características moleculares do coração passaram a se aproximar da idade biológica do organismo que recebeu o órgão.
Isso não significa, porém, que um coração envelhecido tenha se tornado completamente jovem. Todos os órgãos transplantados apresentaram algum envelhecimento, possivelmente relacionado ao estresse do procedimento. Algumas características funcionais também permaneceram mais próximas das observadas em corações de pessoas mais velhas.
Os resultados precisam ser interpretados com cautela. Além da pequena amostra humana, com apenas 11 transplantes, o trabalho ainda não passou pela avaliação independente de outros pesquisadores. A versão preliminar foi disponibilizada em setembro na bioRxiv. Somente após a revisão por pares será possível avaliar com maior segurança os métodos e as conclusões apresentadas.
Os achados também não demonstram que o transplante consiga reverter completamente o envelhecimento cardíaco. O que foi observado são mudanças em determinados marcadores moleculares associados à idade.
Se os resultados forem confirmados em pesquisas maiores, o trabalho pode ter implicações para os critérios utilizados na seleção de doadores.
Atualmente, existe preferência por corações provenientes de pessoas mais jovens. A possibilidade de um órgão de maior idade se adaptar molecularmente ao organismo de um receptor mais novo poderia ajudar a avaliar se parte desses critérios pode ser ampliada. Isso poderia aumentar a disponibilidade de órgãos para pacientes que aguardam um transplante.
Antes disso, porém, serão necessários novos estudos para confirmar o fenômeno, determinar sua importância para o funcionamento do coração e descobrir se as mudanças moleculares observadas realmente se traduzem em benefícios clínicos.