Romã: composto produzido pelo organismo após o consumo da fruta foi investigado por seus efeitos sobre o coração (Freepik)
Redatora
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 11h03.
Um composto produzido pelo organismo após o consumo de alimentos como romã, nozes e algumas frutas vermelhas melhorou indicadores da função cardíaca em até 80% em modelos animais. A descoberta pode abrir caminho para novos tratamentos contra um tipo de insuficiência cardíaca ainda difícil de tratar.
Chamado urolitina A, o composto ajudou o músculo cardíaco a relaxar e reduziu alterações prejudiciais ao coração. Os pesquisadores também observaram efeitos em tecido cardíaco humano cultivado em laboratório. O estudo foi conduzido por cientistas do King's College London e publicado na revista científica Science Advances.
A pesquisa analisou a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp). Nessa condição, o coração mantém sua capacidade de bombear sangue, mas fica rígido e apresenta dificuldade para relaxar entre os batimentos. Como consequência, o órgão tem mais dificuldade para se encher adequadamente de sangue. Entre os sintomas estão falta de ar, fadiga e redução da capacidade de realizar exercícios.
A condição representa aproximadamente metade dos casos de insuficiência cardíaca no Reino Unido. As opções de tratamento ainda são relativamente limitadas.
Os cientistas descobriram que a urolitina A atua sobre uma proteína chamada PKGIα, envolvida na função dos vasos sanguíneos e no relaxamento do músculo cardíaco. O composto age sobre um aminoácido específico da proteína e ativa uma via associada à função cardiovascular.
Nos modelos animais, o tratamento com urolitina A melhorou em até 80% parâmetros da função cardíaca, na comparação com animais que não receberam o composto.
Os experimentos também mostraram redução da fibrose, processo de formação de tecido cicatricial que pode prejudicar o funcionamento normal do coração. Além disso, a urolitina A limitou o aumento das células do músculo cardíaco, outra alteração relacionada à doença.
A equipe também realizou experimentos com tecido cardíaco humano bioengenheirado, produzido a partir de células-tronco. Esse modelo laboratorial reproduz características da estrutura e do funcionamento do músculo cardíaco humano.
Nos testes, a urolitina A melhorou significativamente o relaxamento do tecido. O resultado indica que os efeitos observados nos modelos animais também podem ser investigados em células humanas. Isso, no entanto, ainda não significa que o composto tenha o mesmo benefício em pacientes.
Embora a urolitina A já tenha sido estudada em humanos e apresentado um perfil de segurança favorável, serão necessários ensaios clínicos para determinar se a abordagem funciona contra esse tipo de insuficiência cardíaca.
Segundo os pesquisadores, ainda não existem evidências suficientes para recomendar o consumo de romã como tratamento para a doença. O estudo levanta, porém, a possibilidade de investigar estratégias capazes de aumentar a produção de urolitina A e explorar a proteína PKGIα como um novo alvo terapêutico.
Além disso, até agora, os benefícios relacionados à insuficiência cardíaca foram observados em animais e em tecido humano cultivado em laboratório. Por isso, os pesquisadores destacam que ensaios clínicos serão necessários para descobrir se os resultados podem ser reproduzidos em pacientes.
A próxima etapa será determinar se a atuação sobre essa via consegue melhorar a capacidade do coração de relaxar e se encher de sangue em pessoas com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.