Açúcar na infância: estudo investigou possíveis efeitos de uma exposição alimentar precoce (Freepik)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h35.
Uma mudança na alimentação durante os primeiros anos de vida pode estar associada a efeitos observados décadas mais tarde. É o que sugere uma pesquisa que aproveitou um período incomum da história britânica: o fim do racionamento de açúcar após a Segunda Guerra Mundial.
O trabalho, publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), analisou dados de mais de 64 mil pessoas nascidas na Grã-Bretanha entre 1951 e 1956. Os pesquisadores compararam a exposição ao açúcar durante os primeiros 1.000 dias de vida com indicadores de saúde observados muitos anos depois.
No estudo, esse período começa ainda na gestação e vai até os 2 anos de idade. É uma fase de rápidas mudanças no organismo: órgãos crescem, o metabolismo se desenvolve e o sistema imunológico amadurece. As preferências alimentares também começam a ser formadas.
Para fazer essa comparação, os pesquisadores aproveitaram uma mudança histórica no consumo de açúcar no Reino Unido.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o açúcar continuou racionado no Reino Unido por alguns anos. Em setembro de 1953, essa restrição terminou e o consumo aumentou rapidamente, quase dobrando. Isso fez com que crianças nascidas com poucos meses de diferença tivessem exposições diferentes ao açúcar durante a gestação e os primeiros anos de vida.
Os pesquisadores classificaram os participantes de acordo com quanto tempo seus primeiros 1.000 dias coincidiram com o período de racionamento.
Para acompanhar a saúde dessas pessoas, a equipe utilizou informações do UK Biobank, banco de dados que reúne registros de saúde de participantes acompanhados ao longo do tempo.
As pessoas que passaram mais tempo sob o racionamento apresentaram menor incidência de cinco tipos de câncer: mama, próstata, fígado, reto e pulmão.
A diferença foi maior para o câncer de fígado, cuja incidência foi cerca de 69% menor nesse grupo. Para o câncer de mama, a redução foi de aproximadamente 36%. Segundo os pesquisadores, essas diferenças só começaram a aparecer décadas depois do fim do racionamento.
A equipe também investigou sinais relacionados ao envelhecimento biológico, que não corresponde necessariamente à idade registrada no calendário. Um dos marcadores analisados foi o comprimento dos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos. Em geral, eles encurtam conforme as células envelhecem.
Os participantes com maior exposição ao racionamento apresentaram telômeros mais longos. Pelas estimativas dos pesquisadores, essa diferença equivaleria a cerca de 2,2 anos de envelhecimento biológico mais lento.Também foram observados níveis menores de granzima B, proteína que aumenta quando o sistema imunológico permanece sob sobrecarga por longos períodos.
Outro resultado chamou atenção: a diferença na exposição ao açúcar durante a primeira infância apareceu associada aos hábitos alimentares décadas depois.
Por volta dos 50 anos, as pessoas que passaram mais tempo sob racionamento ainda consumiam menos açúcar. Elas também apresentavam menor consumo alimentar geral e dietas consideradas mais diversificadas pelos pesquisadores.
O trabalho sugere duas possíveis explicações para esse padrão. Uma envolve o desenvolvimento do organismo durante a infância. A outra está relacionada à formação das preferências alimentares.
O mesmo período histórico já foi usado em outras pesquisas sobre saúde. Segundo o The Conversation, trabalhos anteriores relacionaram maior exposição ao racionamento de açúcar no início da vida a menor risco de diabetes tipo 2 e hipertensão.
Outras pesquisas também encontraram associações com menor risco de demência, doença de Alzheimer, doenças cardíacas e acidente vascular cerebral.
Os autores, porém, ressaltam que os resultados não significam que crianças devam consumir açúcar em níveis mínimos ou que o racionamento seja uma política de saúde desejável. Pesquisadores reforçam que o estudo mostra uma associação entre uma diferença na alimentação durante os primeiros anos de vida e indicadores observados muitas décadas depois.