Ciência

Como avalanche e terremoto podem ter causado a pior tragédia em 10 anos no Nepal

Colapso de parte de uma geleira pode ter levado gelo, rochas e sedimentos ao rio, provocando uma enchente repentina na fronteira com o Tibete

Enchente no Nepal: onda de água, lama e detritos atingiu vilas no Himalaia (Prabin RANABHAT/AFP)

Enchente no Nepal: onda de água, lama e detritos atingiu vilas no Himalaia (Prabin RANABHAT/AFP)

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h33.

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Uma sequência de eventos transformou uma área montanhosa na fronteira entre Nepal e Tibete em cenário de destruição nesta quarta-feira, 26. O desastre é considerado a pior tragédia na região em mais de dez anos.

A sequência pode ter começado com o desprendimento de parte de uma geleira, que caiu no vale e levou gelo, rochas e sedimentos para o sistema fluvial. O material atingiu o rio Lhende e contribuiu para uma onda repentina de água, lama e pedras. O fluxo avançou pelos sistemas dos rios Bhote Koshi e Trishuli, atingindo comunidades e estruturas.

Pouco antes do desastre, um terremoto de magnitude 4,4 foi registrado na região. A possibilidade de o tremor ter contribuído para o colapso da geleira ainda está sendo investigada.

Como gelo, rochas e sedimentos provocaram uma onda destrutiva

A partir das imagens feitas pela Planet Labs, o geólogo Vikram Gupta, da Sikkim University, afirmou à Reuters que uma parte substancial da frente da geleira havia desabado, provavelmente carregando rochas e sedimentos junto com o gelo.

A entrada repentina de gelo e rochas no vale provocou uma grande alteração no fluxo da água. Segundo uma avaliação preliminar do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD), o material pode ter entrado no Lhende Khola e gerado uma onda que levou água, sedimentos e grandes blocos de rocha para as áreas mais abaixo do rio.

O impacto foi rápido. A ICIMOD informou que o nível do rio Trishuli, em Galchchi, pode ter subido até nove metros em 30 minutos. Outro ponto de medição, em Malekhu, registrou aumento de sete metros em período semelhante.

A organização também informou que os cientistas estão avaliando se parte dos detritos bloqueou temporariamente o rio em uma região estreita, formando uma barragem natural. Nesse cenário, a água poderia se acumular atrás do bloqueio e ser liberada de forma repentina.

O terremoto tem relação com o desastre?

O terremoto registrado pouco antes da enchente é uma das hipóteses investigadas pelas autoridades. O tremor teve magnitude 4,4, mas ainda não está comprovado que ele tenha provocado o desprendimento da geleira.

A ICIMOD chegou à mesma conclusão preliminar. Dados sísmicos registrados por estações próximas apresentaram sinais incomuns no período do desastre, mas os pesquisadores disseram que nenhuma relação de causa e efeito foi estabelecida entre essa atividade e a enchente.

O calor pode ter contribuído?

As imagens de satélite também chamaram a atenção para uma grande redução da neve em algumas áreas nas 24 horas anteriores ao desastre. O cientista da Terra Dan Shugar, da Universidade de Calgary, disse à agência internacional que isso pode indicar temperaturas elevadas na região.

Além disso, dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que as montanhas do Nepal perderam quase um terço de seu gelo em pouco mais de 30 anos. O derretimento das geleiras do país foi 65% mais rápido na última década do que na anterior.

Ainda assim, os especialistas ressaltam que é cedo para determinar qual foi o papel do aquecimento ou das mudanças climáticas especificamente neste desastre.

Uma tragédia ainda em investigação

A enchente deixou dezenas de mortos e centenas de desaparecidos. Ao menos, 95 corpos haviam sido recuperados, enquanto o governo do Nepal informava que mais de 300 pessoas continuavam desaparecidas.

Além das perdas humanas, a enchente destruiu casas, estradas, pontes e estruturas de geração de energia. A região também abriga projetos hidrelétricos ao longo dos rios afetados.

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