Exames de sangue: níveis de hemoglobina e ferritina variam ao longo do dia e das estações, segundo o estudo (SCIEPRO/Getty Images)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h27.
Um exame de sangue realizado pela manhã pode apresentar um resultado diferente do mesmo exame feito à noite — e até a época do ano pode influenciar algumas medições. Um estudo com cerca de 500 mil pessoas sugere que os níveis de hemoglobina e ferritina, dois marcadores importantes para o diagnóstico de anemia, variam naturalmente ao longo do dia e das estações do ano.
Segundo os pesquisadores, essas oscilações podem fazer com que alguns casos passem despercebidos ou influenciem a aptidão para doar sangue. Os resultados foram divulgados em uma pré-publicação disponível na plataforma Preprints with The Lancet e ainda não passaram por revisão por pares.
A equipe, liderada por Sophie Wehrens, da Fundação Sanquin de Fornecimento de Sangue, em Amsterdã, analisou exames realizados entre 2013 e 2023 por aproximadamente meio milhão de pessoas cadastradas como doadoras de sangue na Holanda.
Os pesquisadores observaram que tanto a hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio, quanto a ferritina, proteína que armazena ferro no organismo, apresentam oscilações naturais ao longo do ano.
Os níveis foram mais elevados em dezembro e atingiram os menores valores entre junho e agosto. Além da variação sazonal, a hemoglobina também apresentou um ritmo diário bem definido. As concentrações atingiram o pico por volta das 10h30 e diminuíram gradualmente ao longo do restante do dia.
Os cientistas também verificaram que, em pessoas com mais de 45 anos, esse pico ocorreu cerca de uma hora mais cedo do que entre os participantes mais jovens. As oscilações diárias também foram ligeiramente maiores nos homens.
Segundo Katja van den Hurk, integrante da equipe de pesquisa, a variação observada entre as estações pode estar relacionada à forma como o organismo responde às temperaturas mais elevadas.
Em período mais quentes, o corpo direciona mais sangue para a pele para facilitar a perda de calor. Além disso, a exposição prolongada ao calor pode aumentar o volume de plasma, a parte líquida do sangue, reduzindo a concentração de hemoglobina e ferritina sem que necessariamente exista uma diminuição da quantidade dessas substâncias no organismo.
Já as diferenças observadas ao longo do dia podem estar relacionadas ao ritmo circadiano, o relógio biológico que regula diversas funções do corpo em ciclos de aproximadamente 24 horas.
Segundo Tami Martino, pesquisadora da Universidade de Guelph, no Canadá, as diferenças encontradas são pequenas, mas podem ser relevantes para pessoas cujos resultados ficam próximos dos limites utilizados para diagnosticar anemia ou autorizar uma doação de sangue.
Os pesquisadores afirmam que essas variações naturais podem influenciar a classificação de pacientes cujos níveis de hemoglobina estão próximos dos valores de referência. Na prática, uma mesma pessoa pode apresentar um resultado abaixo do limite para diagnóstico em determinado horário e acima dele algumas horas depois.
Segundo John O'Neill, do Laboratório de Biologia Molecular do MRC, no Reino Unido, os resultados não justificam mudanças imediatas nas diretrizes médicas. No entanto, eles mostram que os profissionais de saúde devem considerar que os níveis de hemoglobina não permanecem constantes ao longo do dia.
Apesar disso, os próprios pesquisadores ressaltam que ainda não está claro quanto dessas oscilações é controlado diretamente pelo relógio biológico e quanto pode ser explicado por fatores como alimentação, hidratação, sono ou nível de atividade física.
Além disso, pelo fato do estudo ainda não ter passado pelo processo de revisão por pares, serão necessários novos trabalhos para confirmar os resultados e avaliar se o horário da coleta de sangue e a época do ano devem ser considerados na interpretação de exames laboratoriais e na triagem de doadores.