Ciência

Como as abelhas veem o mundo? Estudo revela truques ópticos únicos

Pesquisadores descobrem que espécies solitárias superam colônias em nitidez e usam estratégias visuais que já inspiram drones e robôs autônomos

Abelhas: diferentes espécies desenvolveram maneiras distintas de enxergar o ambiente, conforme seu comportamento e habitat (Freepik)

Abelhas: diferentes espécies desenvolveram maneiras distintas de enxergar o ambiente, conforme seu comportamento e habitat (Freepik)

Publicado em 21 de setembro de 2026 às 06h30.

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As abelhas não enxergam o mundo da mesma maneira. Um novo estudo mostra que diferentes espécies desenvolveram estratégias próprias para processar informações visuais, de acordo com seus hábitos e ambientes.

A pesquisa analisou o funcionamento dos olhos de diferentes abelhas e identificou mecanismos que permitem alcançar um desempenho visual semelhante por caminhos distintos. Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Durante mais de um século, a abelha melífera (Apis mellifera) serviu como principal referência para estudos sobre a visão desses insetos. Os novos dados, porém, mostram que espécies menos estudadas também apresentam capacidades visuais sofisticadas.

Olhos das abelhas equilibram nitidez e sensibilidade

As abelhas possuem olhos compostos, formados por milhares de pequenas unidades ópticas. Cada uma delas contém estruturas sensíveis à luz, responsáveis por transformar os estímulos luminosos em sinais elétricos.

O tamanho dos fotorreceptores influencia a maneira como esses olhos captam informações. Estruturas maiores conseguem receber mais luz, favorecendo a sensibilidade visual. As menores, por outro lado, podem contribuir para imagens mais nítidas.

Esse equilíbrio é especialmente importante para insetos que vivem em ambientes e horários diferentes. Algumas espécies procuram alimento em áreas abertas e bem iluminadas. Outras precisam enxergar em vegetação mais fechada ou sob condições de pouca luz.

Espécies de abelhas usam estratégias diferentes

Os pesquisadores compararam espécies com características e comportamentos distintos. Entre elas estava a abelha-cardadora (Anthidium manicatum), cujos machos passam boa parte do tempo patrulhando territórios e perseguindo outros indivíduos.

A espécie apresenta fotorreceptores muito pequenos, uma característica associada à capacidade de formar imagens com maior nitidez. Já os zangões da abelha melífera possuem lentes maiores. Essa configuração favorece a entrada de luz e aumenta a sensibilidade dos olhos.

A abelha-de-faixa-azul australiana (Amegilla) apresentou outro caminho evolutivo. Mesmo sem possuir as características extremas observadas nas outras espécies, ela conseguiu combinar diferentes mecanismos para alcançar desempenho visual semelhante.

Os pesquisadores concluíram que não existe uma única configuração ideal para a visão das abelhas. Diferentes espécies podem chegar a resultados parecidos utilizando combinações distintas de características ópticas e sensoriais.

Pesquisadores mediram atividade de células visuais

Para investigar como essas diferenças anatômicas se traduzem em desempenho, os cientistas fizeram registros diretamente dos fotorreceptores de abelhas vivas.

A equipe utilizou microeletrodos extremamente finos para medir os sinais elétricos produzidos por células individuais enquanto os insetos eram expostos a pequenos objetos em uma tela.

A técnica permitiu analisar a resposta das células diante de estímulos visuais específicos. Dessa maneira, os pesquisadores puderam comparar o funcionamento dos sistemas visuais entre diferentes espécies.

Os resultados mostraram que estruturas oculares aparentemente semelhantes podem apresentar diferenças importantes quando analisadas em nível microscópico.

Visão das abelhas pode inspirar robôs e drones

As descobertas também podem ter aplicações além da biologia. Os mecanismos utilizados pelos insetos para processar informações visuais podem servir de inspiração para o desenvolvimento de sensores, robôs autônomos e drones.

Isso ocorre porque engenheiros enfrentam um problema semelhante ao da evolução: criar sistemas capazes de obter informações visuais suficientes sem exigir sensores grandes ou alto consumo de energia.

Pesquisadores já desenvolveram modelos computacionais inspirados no processamento visual de insetos. Esses sistemas foram aplicados em robôs capazes de identificar e acompanhar objetos em movimento. A mesma abordagem também foi incorporada a drones autônomos, que precisam interpretar rapidamente informações do ambiente durante o voo.

Diversidade das abelhas ajuda a entender a evolução

O estudo reforça a importância de analisar diferentes espécies para compreender como os sistemas sensoriais evoluem. De acordo com o estudo, existem mais de 20 mil espécies de abelhas no mundo, com diferentes tamanhos, comportamentos e ambientes. A variedade oferece aos pesquisadores um conjunto amplo de soluções naturais para problemas relacionados à visão.

A abelha-de-faixa-azul, por exemplo, também apresenta um comportamento conhecido como polinização por vibração. Ela consegue vibrar determinadas flores para liberar o pólen, uma capacidade que não ocorre da mesma forma nas abelhas melíferas.

Para os pesquisadores, a diversidade das abelhas pode revelar não apenas como a visão evoluiu, mas também características que podem inspirar novas tecnologias. A redução das populações de abelhas, portanto, pode representar a perda de espécies e também de soluções evolutivas desenvolvidas ao longo de milhões de anos.

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