Anne Carson: vencedora do Nobel de Literatura de 2026 relatou como o Parkinson afetou sua capacidade de escrever à mão. (Reprodução)
Repórter
Publicado em 8 de outubro de 2026 às 10h16.
Última atualização em 8 de outubro de 2026 às 10h18.
A escritora canadense Anne Carson, de 76 anos, venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026 nesta quinta-feira, 8. A Academia Sueca, instituição responsável pela premiação, reconheceu uma obra que combina poesia, prosa, ensaios, traduções e tradição clássica. Diagnosticada com Parkinson, Carson relata que a doença alterou sua caligrafia e movimentos cotidianos; ela pratica boxe três vezes por semana.
A escritora canadense Anne Carson, de 76 anos, foi anunciada nesta quinta-feira, 8, como vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2026. A Academia Sueca reconheceu a autora por sua produção literária, que combina poesia, prosa, ensaios e traduções com referências à tradição clássica.
Carson se tornou a 19ª mulher a conquistar a premiação e sucede o húngaro László Krasznahorkai, vencedor em 2025. O anúncio faz parte da semana do Nobel, que também contempla as categorias científicas, da Paz e de Economia.
Entre os temas presentes na obra da canadense está a relação entre corpo, linguagem e identidade. Essa discussão passou a incorporar experiências pessoais após o diagnóstico de doença de Parkinson, condição neurológica que compromete o controle dos movimentos e pode afetar atividades cotidianas.
Em um ensaio sobre mãos e caligrafia, Carson relatou como a doença modificou sua capacidade de escrever manualmente, prática que fazia parte de sua rotina de trabalho.
"Quando fui diagnosticada com a doença de Parkinson, um sintoma particularmente humilhante para mim foi a deterioração da minha caligrafia", escreveu.
Segundo relato publicado na London Review of Books, a escritora costumava preencher cadernos com anotações. Com o avanço dos sintomas, porém, percebeu que as letras começaram a perder a regularidade, com traços interrompidos e deformados.
A dificuldade passou a interferir também na maneira como Carson compreendia sua identidade. Para a autora, a escrita manual funcionava como uma expressão física do pensamento, o que tornou as alterações provocadas pelo Parkinson motivo de reflexão.
"Sua caligrafia é seu cérebro e seu cérebro é você", afirmou.
Prêmio Nobel de Literatura: Exemplares de livros da autora canadense Anne Carson estão em exposição na Academia Sueca, em Estocolmo, Suécia. (AFP)
As mudanças provocadas pela doença não ficaram restritas à escrita. Carson também descreveu dificuldades para executar movimentos que antes realizava automaticamente, como caminhar, escovar os dentes e movimentar os braços.
Ao comentar os tremores na mão direita, a escritora explicou que passou a modificar conscientemente a posição do braço e a maneira de segurar objetos para conseguir realizar determinadas tarefas.
Uma das atividades incorporadas à sua rotina foi o boxe, praticado três vezes por semana ao lado de outras pessoas diagnosticadas com Parkinson. Os exercícios exigem atenção aos movimentos e fazem parte de sua tentativa de lidar com as limitações motoras.
"Quanto mais aprendo sobre a doença de Parkinson, mais a vejo como uma luta constante contra uma correnteza implacável", escreveu.
A experiência também passou a influenciar suas reflexões literárias. Carson relaciona a necessidade de controlar cada gesto à percepção do tempo, à consciência corporal e à mortalidade.
Em um de seus textos, a autora utiliza a imagem de uma "porta negra" para representar a consciência sobre a finitude humana. Segundo sua interpretação, a convivência com o Parkinson tornou essa percepção mais presente.
"A doença de Parkinson é sempre agora. Ou talvez pudéssemos dizer que a doença nos lembra que a vida é agora", afirmou.
Anne Carson construiu sua trajetória literária a partir da combinação de diferentes gêneros e da aproximação entre textos da Antiguidade greco-romana e experiências contemporâneas.
Sua produção reúne poesia, ensaio, tradução e prosa, com abordagens sobre memória, relações afetivas, identidade e perda. A escritora também utiliza referências clássicas para examinar questões ligadas à experiência humana.
No Brasil, os livros de Anne Carson começaram a ser publicados em 2017, por diferentes editoras.
A escritora Adriana Lisboa, ao comentar a produção da canadense, destacou a maneira como suas obras relacionam referências literárias a sentimentos como "a euforia do amor" e "a dor da perda".
Com o Nobel de Literatura de 2026, Carson passa a integrar a lista de mulheres reconhecidas pela Academia Sueca desde a criação da premiação, em 1901.
A doença de Parkinson é uma condição neurológica progressiva: ela afeta o cérebro e seus sintomas tendem a se intensificar ao longo do tempo. Está associada à perda de neurônios que produzem dopamina, substância que ajuda a controlar os movimentos. Com a redução da dopamina, ações como caminhar, escrever e se vestir podem ficar mais difíceis.
Os principais sintomas relacionados aos movimentos são:
Os sinais costumam começar em um lado do corpo, e a intensidade e a velocidade de progressão variam entre as pessoas.
O Parkinson também pode provocar sintomas que não envolvem diretamente os movimentos, como prisão de ventre, redução do olfato, alterações do sono, depressão e ansiedade. Alguns podem surgir antes da lentidão ou dos tremores. Isoladamente, porém, esses sinais não confirmam a doença; o diagnóstico depende de avaliação médica, geralmente com um neurologista.
Ainda não existe cura, mas medicamentos, reabilitação e, em casos selecionados, cirurgia ajudam a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Anne Carson ganhou o Nobel de Literatura de 2026 por sua produção literária, que combina poesia, prosa, ensaios e traduções com referências à tradição clássica, segundo a Academia Sueca. A canadense se tornou a 19ª mulher a receber a premiação.
O Parkinson deteriorou a caligrafia de Anne Carson e fez com que suas letras perdessem regularidade, com traços interrompidos e deformados. Segundo relato publicado na London Review of Books, a escritora costumava preencher cadernos com anotações e passou a refletir sobre a relação entre escrita manual, pensamento e identidade.
Anne Carson pratica boxe três vezes por semana com outras pessoas diagnosticadas com Parkinson. A escritora também modifica conscientemente a posição do braço e a maneira de segurar objetos para executar tarefas afetadas pelos tremores e pelas limitações motoras.
Anne Carson relatou dificuldades para escrever à mão, caminhar, escovar os dentes e movimentar os braços. A autora descreveu o Parkinson como uma luta constante contra uma correnteza implacável.
A doença de Parkinson é uma condição neurológica progressiva associada à perda de neurônios que produzem dopamina, substância que ajuda a controlar os movimentos. Os sintomas incluem lentidão, tremor em repouso, rigidez muscular, mudanças ao caminhar e alterações de equilíbrio e postura.
A doença de Parkinson ainda não tem cura. Medicamentos, reabilitação e, em casos selecionados, cirurgia podem ajudar a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.