Queimaduras: estudo avaliou o uso de pele de bacalhau no tratamento de lesões graves (Freepik)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 16h28.
Um material pouco convencional pode ajudar a acelerar a recuperação de pessoas com queimaduras graves. Um estudo com 465 pacientes associou o uso de uma cobertura feita a partir de pele de bacalhau a menos dias de internação e menor frequência de complicações.
A análise reuniu dados de adultos atendidos em 49 centros especializados em queimaduras entre 2019 e 2025. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, nos Estados Unidos, e está disponível no medRxiv, ainda sem revisão por pares.
Queimaduras extensas podem exigir um transplante de pele para cobrir regiões danificadas. Antes da cirurgia, os médicos podem utilizar materiais que protegem temporariamente a área lesionada. Entre as opções estão substitutos sintéticos e biossintéticos, alguns produzidos com estruturas à base de colágeno.
O estudo avaliou também um produto feito com pele do bacalhau-do-Atlântico (Gadus morhua). O material é minimamente processado e mantém parte de sua estrutura natural.
Dos participantes analisados, 93 receberam a pele de peixe antes do enxerto. Os demais foram tratados com substitutos sintéticos aprovados.
Os pesquisadores compararam os grupos levando em conta características como idade, sexo, extensão e gravidade das queimaduras e outras complicações relacionadas às lesões.
A diferença apareceu principalmente no período de internação. Os pacientes que receberam o produto de pele de peixe permaneceram no hospital por 23 dias, em média. Entre aqueles tratados com substitutos sintéticos, a média foi de 35 dias. Isso representa uma diferença de aproximadamente 12 dias de internação entre os grupos analisados.
A frequência de complicações também foi menor entre os pacientes que receberam a pele de peixe. Problemas como sepse ocorreram em 8% desse grupo, contra 16% entre aqueles tratados com materiais sintéticos.
Os pesquisadores afirmam que esses resultados podem indicar uma vantagem do material na recuperação de queimaduras graves. Ainda assim, outros estudos são necessários para determinar se o tratamento é de fato responsável pela diferença observada.
A composição da pele de peixe é uma das possíveis explicações para os resultados. A pele do bacalhau contém naturalmente colágeno e ácidos graxos ômega-3. Esses componentes podem participar de processos relacionados à resposta inflamatória e à reconstrução dos tecidos.
Segundo John Lantis, pesquisador envolvido no estudo, a pele de peixe também apresenta semelhanças estruturais com a pele humana quando observada ao microscópio.
A hipótese é que o material forneça uma espécie de suporte para a região lesionada. Ao mesmo tempo, seus componentes podem influenciar a resposta do organismo durante a cicatrização.
Apesar dos resultados promissores, especialistas ressaltam que comparar grupos de pacientes tratados de maneiras diferentes pode apresentar limitações. Fiona Wood, da Universidade da Austrália Ocidental, afirma que ensaios clínicos comparativos são necessários para avaliar com mais segurança a eficácia da abordagem.
Um estudo clínico já está em andamento para investigar o uso da pele de peixe em queimaduras de segundo grau. Nesse caso, diferentes áreas da mesma queimadura receberão tratamentos distintos.
Uma parte será tratada com pele de peixe, enquanto outra receberá um enxerto. Dessa forma, cada paciente funcionará como seu próprio controle, reduzindo possíveis diferenças individuais entre os participantes.
Os resultados poderão ajudar a esclarecer se a pele de peixe realmente reduz a necessidade de enxertos e melhora a recuperação das queimaduras.