Lago Memphremagog visto do sul (Ascended Dreamer via Wikimedia Commons/Wikimedia Commons)
Repórter
Publicado em 27 de julho de 2026 às 18h51.
Última atualização em 27 de julho de 2026 às 19h07.
Pescadores que frequentam o Lago Memphremagog, na fronteira entre Vermont, nos EUA, e Quebec, no Canadá, vêm notando algo estranho na região. Alguns dos bagres-cabeça-marrom capturados começaram a aparecer cobertos por manchas negras e aveludadas na pele.
Biólogos identificaram a causa como melanoma, um tipo de câncer raríssimo nesses peixes, mas que já atinge mais de um terço dos exemplares do lago.
Pesquisadores da Universidade de Vermont dizem ter descoberto a explicação. Segundo eles, um câncer contagioso está se espalhando entre os peixes, sendo o primeiro caso do tipo já registrado no mundo.
O estudo, publicado na última semana na revista Nature, explica que tudo começou com um único peixe, que desenvolveu um tumor que liberou células cancerígenas na água. A partir disso, essas células passaram a infectar outros bagres, dando início a uma espécie de epidemia silenciosa.
A geneticista Julie Dragon, da Universidade de Vermont, uma das autoras do estudo, não estava atrás de um câncer contagioso. Em 2014, ela foi chamada pelo Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont para investigar por que os bagres do lago estavam adoecendo.
As primeiras hipóteses, como exposição à luz ultravioleta, poluição de um aterro sanitário próximo, infecção por vírus ou bactérias, não se sustentaram. Os níveis de poluentes nos peixes eram baixos, e não havia sinais de micro-organismos causadores de câncer.
Ao analisar o DNA dos tumores, a equipe teve a resposta. A expectativa era que as células cancerígenas fossem geneticamente parecidas com o peixe em que estavam. No entanto, o resultado mostrou o oposto: todas as células tumorais eram parecidas entre si e não com os animais que as carregavam.

Cânceres transmissíveis já haviam sido documentados em poucas espécies, como cães, demônios-da-tasmânia e alguns moluscos.
Em cães, o tumor venéreo transmissível canino (CTVT) se espalha durante o acasalamento e, segundo estudos genéticos, descende de um único animal que viveu há milhares de anos, por mais que raramente seja letal.
Já entre os demônios-da-tasmânia, a chamada doença do tumor facial se transmite por mordidas durante brigas e ajudou a empurrar a espécie para perto da extinção.
Em moluscos como mexilhões e amêijoas, cientistas identificaram desde 2015 uma leucemia contagiosa que se espalha pela água do mar, com casos registrados no Atlântico, no Pacífico e na Europa.
O caso dos bagres chama atenção por outro motivo, já que é a primeira vez que um câncer transmissível é encontrado em água doce. Até então, acreditava-se que essas células só sobreviviam em ambientes salinos.
A hipótese dos pesquisadores é que o comportamento reprodutivo dos bagres favorece o contágio. Durante a desova, os peixes se aglomeram em águas rasas e acabam se mordendo e se arranhando, abrindo feridas que facilitam a entrada das células cancerígenas presentes na água.
Em 1858, o naturalista Henry David Thoreau descreveu, em seu diário, um bagre capturado no rio Assabet, em Massachusetts, com "uma espécie de lepra negra" cobrindo parte da cabeça.
A equipe de Dragon agora busca identificar se o mesmo câncer atinge bagres em outras regiões do nordeste dos Estados Unidos e pede que pescadores e biólogos que encontrarem peixes com tumores negros enviem fotos e informações sobre o local, preferencialmente com o peixe congelado.
Peter Emerson, biólogo do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont e coautor do estudo, recomenda que pescadores evitem consumir bagres com tumores. Apesar de não ter evidências de que os peixes sejam impróprios para consumo, é preciso cautela.
Por ora, não há indícios de que cânceres contagiosos circulem entre humanos. No entanto, segundo Elizabeth Murchison, especialista em cânceres transmissíveis da Universidade de Cambridge, a descoberta reforça a ideia de que o fenômeno pode surgir em qualquer espécie, inclusive na nossa.