Tempestade geomagnética prevista pela NOAA pode causar interferências em sistemas de navegação e comunicação, mas efeitos mais relevantes tendem a ocorrer em altas latitudes (Pitris/Getty Images)
Repórter
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 16h11.
Uma "explosão solar" de classe M6.9 registrada em 25 de agosto provocou uma ejeção de massa coronal (EMC), fenômeno que lança partículas carregadas e campos magnéticos do Sol para o espaço. Caso parte desse material alcance a Terra, a interação com o "campo magnético terrestre" pode provocar uma tempestade geomagnética e interferências temporárias em satélites, GPS, comunicações por rádio e redes elétricas.
A previsão da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos ("NOAA", na sigla em inglês) indicava uma tempestade geomagnética de nível G1, menor, para quarta-feira, 27, e de nível G2, moderado, para os dias 28 e 29. A escala usada pelo órgão vai de G1 a G5, categoria reservada aos eventos extremos.
Segundo Eder Canalle, coordenador pedagógico e professor de Astronomia, uma ejeção de massa coronal é formada por "enormes nuvens de partículas eletricamente carregadas e campos magnéticos liberados no espaço". Quando direcionado à Terra, esse material encontra a magnetosfera, região dominada pelo campo magnético do planeta.
"Caso atinjam a Terra, podem interagir com nosso campo magnético, a magnetosfera, causando uma grande perturbação nela, transferindo energia e provocando mudanças em seus campos, gerando uma tempestade geomagnética", afirma.
Para a população brasileira, uma tempestade solar comum não exige preparação especial, segundo Canalle; os possíveis efeitos estão concentrados principalmente na infraestrutura tecnológica que depende de satélites, navegação e comunicação."O principal risco de uma grande tempestade solar não é diretamente para as pessoas que estão na superfície da Terra, mas para a infraestrutura tecnológica que sustenta boa parte da nossa vida cotidiana", esclarece o professor.
O especialista cita o "GPS", sistema de posicionamento por satélite, entre as tecnologias que podem sofrer interferências. O recurso não se restringe a aplicativos de navegação.
"Ele é utilizado, por exemplo, na agricultura, na aviação e em sistemas que dependem de posicionamento e de tempo precisos", afirma Canalle.
Em uma tempestade G2, os efeitos previstos são diferentes daqueles associados às categorias mais altas da escala. Segundo Canalle, o fenômeno pode provocar falhas em sistemas elétricos, sobretudo em altas latitudes, além de exigir correções na orientação de satélites. A expansão da atmosfera superior também pode elevar a resistência encontrada por equipamentos em órbita e afetar previsões sobre suas trajetórias. Comunicações de rádio de alta frequência podem registrar interferências em regiões próximas aos polos.
Uma tempestade G2 não equivale aos eventos extremos classificados como G5, nos quais podem ocorrer problemas de controle de tensão em redes elétricas, falhas de proteção, dificuldades de navegação por satélite e interrupções de comunicação. Em maio de 2024, uma tempestade chegou ao nível G5, a primeira nessa categoria em mais de duas décadas, segundo Canalle. O evento produziu auroras em latitudes abaixo das regiões onde o fenômeno costuma aparecer e registrou impactos em comunicação por rádio e navegação, sem danos classificados como catastróficos pela NASA.
As "auroras" surgem quando partículas eletricamente carregadas interagem com gases da atmosfera terrestre. O fenômeno recebe o nome de aurora boreal no Hemisfério Norte e aurora austral no Hemisfério Sul e ocorre com maior frequência em altas latitudes, próximas aos polos.
"Quando partículas eletricamente carregadas chegam à atmosfera terrestre, elas colidem com átomos e moléculas dos gases atmosféricos, transferindo energia a eles. Ao retornarem a estados de menor energia, esses átomos e moléculas liberam essa energia na forma de luz, produzindo as auroras", explica Canalle.
As cores observadas dependem do gás e da altitude da interação. Segundo o professor, o oxigênio produz o verde, normalmente em altitudes entre aproximadamente 100 e 200 quilômetros, e também pode gerar o vermelho acima de cerca de 200 quilômetros. O nitrogênio pode produzir tons de azul e rosa, conforme o tipo e a energia das partículas.
No entanto, Canalle descarta uma possível ocorrência de aurora para o Brasil neste episódio. O especialista afirma que o fenômeno é observado com maior frequência nas regiões de altas latitudes, próximas aos polos. Tempestades geomagnéticas mais intensas podem ampliar a área em que as auroras aparecem, como ocorreu durante o evento G5 de maio de 2024.
A ocorrência de explosões solares e ejeções de massa coronal está relacionada ao "ciclo solar", período de aproximadamente 11 anos no qual a atividade magnética da estrela aumenta e diminui. Na fase conhecida como máximo solar, cresce o número de manchas solares e podem ocorrer mais eventos desse tipo.
"O Sol passou recentemente pelo período de máximo do Ciclo Solar, em outubro de 2024. Para os próximos meses, a expectativa é que o Sol continue apresentando períodos de atividade, com possibilidade de novas explosões solares, ejeções de massa coronal e tempestades geomagnéticas", afirma Canalle.
Mesmo após o máximo, as erupções não desaparecem imediatamente. Segundo Canalle, com o avanço do ciclo para a fase de declínio, esses fenômenos continuam a ocorrer, mas passam a ser menos frequentes.
Para a população, o professor afirma que não há recomendação de preparação específica diante de uma tempestade solar comum. O acompanhamento fica concentrado nos alertas emitidos por órgãos de monitoramento do clima espacial. A NOAA fornece informações que podem ser usadas por operadores de redes elétricas, satélites e outros sistemas para definir medidas preventivas diante de eventos com potencial de impacto.