Cicatrização: curativo captura proteínas do sangue do paciente e as utiliza no momento certo da recuperação (Freepik)
Redatora
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 09h26.
Um novo curativo inteligente desenvolvido por pesquisadores do Imperial College London, no Reino Unido, pode transformar o tratamento de feridas de difícil cicatrização. Em vez de fornecer medicamentos sintéticos diretamente ao local da lesão, o material aproveita proteínas produzidas naturalmente pelo próprio organismo e as libera apenas quando as células iniciam o processo de reparo.
A tecnologia foi descrita em um estudo publicado na revista científica Nature Materials e representa um avanço na engenharia de biomateriais. Segundo os pesquisadores, a estratégia pode reduzir a necessidade de fatores de crescimento produzidos em laboratório, diminuir custos e tornar os tratamentos mais precisos.
O novo material é considerado bioinspirado, ou seja, foi projetado para reproduzir mecanismos naturais do organismo.
O curativo captura fatores de crescimento — proteínas presentes no sangue responsáveis por estimular a regeneração dos tecidos — e os mantém armazenados de forma inativa. Quando células envolvidas na cicatrização chegam ao local da lesão, elas enviam sinais biológicos que ativam o material. Nesse momento, o curativo libera essas proteínas exatamente onde e quando elas são necessárias.
Na prática, o próprio organismo fornece o "medicamento", enquanto o curativo funciona como um sistema inteligente de armazenamento e entrega, disponibilizando as proteínas apenas durante o processo de reparação.Em feridas crônicas, como úlceras diabéticas e algumas queimaduras, o processo natural de cicatrização costuma falhar porque os sinais enviados pelas células se tornam fracos ou desaparecem antes que o tecido seja completamente restaurado.
Atualmente, muitos tratamentos tentam compensar esse problema aplicando fatores de crescimento produzidos em laboratório diretamente sobre a lesão. O desafio é que essas proteínas permanecem ativas por pouco tempo, exigindo doses elevadas para produzir efeito.
Dessa forma, o novo curativo busca contornar essa limitação. Em vez de adicionar proteínas sintéticas, ele captura fatores de crescimento presentes no sangue ou na própria ferida, mantém essas moléculas inativas e as libera somente quando as células responsáveis pela cicatrização enviam o sinal de que o reparo está em andamento.
Segundo os pesquisadores, esse mecanismo permite utilizar quantidades centenas ou até milhares de vezes menores de fatores de crescimento em comparação com as abordagens convencionais.
"O próprio corpo do paciente se torna a farmácia", afirmou Ben Almquist, pesquisador do Imperial College London, em comunicado divulgado pela universidade. "Não estamos administrando um medicamento fabricado e esperando que ele permaneça ativo. Estamos capturando o que o corpo já produz e devolvendo às células que realmente precisam", completou.
Os pesquisadores avaliaram a tecnologia em diferentes modelos experimentais, incluindo lesões ósseas em ratos, feridas na pele de camundongos e amostras de pele humana mantidas vivas em laboratório.
Em todos os casos, os resultados foram positivos. Nas lesões ósseas, o curativo estimulou a formação de novos vasos sanguíneos. Nas feridas cutâneas dos camundongos, houve uma redução significativa do tamanho das lesões após dez dias de tratamento. Já nos testes com pele humana, o material acelerou o processo de cicatrização.
Para Magdalene Ho, pesquisadora do estudo, um dos aspectos mais promissores da análise é o fato de o biomaterial ter funcionado em tecidos humanos vivos. Segundo ela, foi possível observar as células de reparação migrando para o curativo e interagindo diretamente com o material.
Embora ainda sejam necessários novos estudos antes da aplicação clínica, os pesquisadores acreditam que a tecnologia poderá beneficiar pacientes com úlceras diabéticas, queimaduras e outras feridas de difícil cicatrização.
Como utiliza proteínas produzidas pelo próprio organismo, o curativo pode reduzir a dependência de medicamentos sintéticos, diminuir os custos do tratamento e tornar a regeneração dos tecidos mais eficiente.
A expectativa é que, no futuro, a tecnologia também facilite o atendimento em serviços de emergência, cenários humanitários e sistemas de saúde com recursos limitados, onde terapias de alto custo nem sempre estão disponíveis.