Esfinge de Gizé: fóssil pertence a réptil que viveu há cerca de 48 milhões de anos (Divulgação/Karim Zanaty)
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Publicado em 14 de outubro de 2026 às 11h44.
Um fóssil de 48 milhões de anos, encontrado em rochas utilizadas na construção da Grande Esfinge de Gizé, no Egito, revelou novas informações sobre a evolução dos crocodilos. Após quase um século, cientistas reexaminaram o crânio do animal e identificaram características de uma antiga linhagem de gaviais.
A pesquisa, publicada na revista científica Royal Society Open Science, levou à reclassificação da espécie, anteriormente conhecida como Tomistoma cairense. O réptil recebeu o nome de Herugavialis cairensis, em homenagem ao deus egípcio Hórus, associado à Grande Esfinge.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da University College London, no Reino Unido, do Museu de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, e da Universidade de Mansoura, no Egito.
O material foi encontrado pelo paleontólogo alemão Richard Markgraf, mas os registros históricos não permitem determinar a data exata da descoberta.
Em 1904, o fóssil foi examinado pelo naturalista Eberhard Fraas. A descrição científica, entretanto, ocorreu apenas em 1927, quando o paleontólogo Lorenz Müller classificou o animal como Tomistoma cairense.
Na época, a identificação foi baseada em semelhanças com o falso-gavial (Tomistoma schlegelii), espécie que atualmente habita regiões do Sudeste Asiático. A nova pesquisa questionou essa classificação após uma análise detalhada da anatomia do crânio.
Para investigar a identidade do animal, os pesquisadores examinaram o crânio original e fragmentos das mandíbulas e do focinho.
A equipe utilizou tomografia computadorizada para reconstruir estruturas ósseas e comparar a anatomia do fóssil com a de gaviais atuais e espécies extintas. Entre as características identificadas estão diferenças nas bordas das órbitas oculares e no formato dos ossos lacrimais, localizados à frente dos olhos.
A análise também revelou particularidades na região posterior da cabeça e na caixa craniana, estrutura que abriga o encéfalo. O conjunto dessas características permitiu distinguir o animal de outras espécies conhecidas e sustentar sua classificação em um novo gênero.
Os resultados indicam que Herugavialis cairensis pertence a uma antiga linhagem relacionada ao gavial-indiano (Gavialis gangeticus).
Atualmente, essa espécie habita sistemas fluviais do subcontinente indiano, incluindo o rio Ganges. O ambiente ocupado pelo réptil extinto, entretanto, era diferente.
Há aproximadamente 48 milhões de anos, durante o Eoceno Médio, a região onde o fóssil foi encontrado fazia parte de um ambiente marinho raso.
A descoberta reforça as evidências de que os parentes antigos dos gaviais ocuparam ambientes mais variados e tiveram uma distribuição geográfica maior do que a observada atualmente.
A reclassificação também contribuiu para compreender a diversidade desses animais no norte da África. Segundo os pesquisadores, o registro fóssil indica a presença de pelo menos três espécies distintas de gavialoides no Egito durante o Paleógeno:
As duas últimas espécies foram encontradas em formações geológicas próximas à região de Faium, ao sul do Cairo.
Embora tenham vivido no território egípcio, as três espécies pertenciam a linhagens evolutivas distintas, e não a uma sequência direta de ancestrais e descendentes.
A presença desses animais no Egito ajuda a reconstruir a história dos gavialoides ao longo do Eoceno, período marcado por ambientes marinhos que se estendiam pelo norte da África.
Registros fósseis encontrados no Marrocos também indicam que diferentes linhagens ocuparam a margem sul do antigo mar de Tétis. Posteriormente, a transição entre o Eoceno e o Oligoceno foi marcada por um resfriamento global e alterações no nível dos oceanos.
Segundo os pesquisadores, essas mudanças ambientais estiveram associadas à redução da diversidade de gavialoides na região mediterrânea.
Fósseis encontrados em depósitos mais recentes da Itália, Portugal e Malta indicam a presença posterior de outras linhagens, distintas daquela representada por Herugavialis cairensis.