Ciência

Cientistas encontram a galáxia mais escura do Universo — e ela pode revelar segredos

Um objeto composto por cerca de 99,9% de matéria escura pode oferecer aos cientistas uma oportunidade inédita para investigar a substância invisível que molda a estrutura do Universo

Galáxia escura: A identificação da candidata CDG-2 representa um dos avanços mais importantes dos últimos anos na busca por evidências sobre a natureza da matéria escura. (David James/Getty Images)

Galáxia escura: A identificação da candidata CDG-2 representa um dos avanços mais importantes dos últimos anos na busca por evidências sobre a natureza da matéria escura. (David James/Getty Images)

Publicado em 29 de junho de 2026 às 17h39.

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A matéria escura continua sendo um dos maiores enigmas da ciência moderna. Embora os astrônomos estimem que ela represente cerca de 85% de toda a matéria existente no Universo, ninguém jamais conseguiu observá-la diretamente. Sua presença é percebida apenas pelos efeitos gravitacionais que exerce sobre estrelas, galáxias e aglomerados cósmicos. Agora, uma descoberta pode mudar esse cenário.

Uma equipe internacional de pesquisadores identificou aquela que pode ser a galáxia mais escura já encontrada. Batizada de Candidate Dark Galaxy-2 (CDG-2), ela parece ser composta por aproximadamente 99,9% de matéria escura e apenas uma fração mínima de matéria comum, aquela que forma estrelas, planetas e tudo o que conseguimos enxergar.

O estudo foi liderado pelo astrônomo David Li, da Universidade de Toronto, com participação da pesquisadora Francine Marleau, da Universidade de Innsbruck, e foi publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters

Como encontrar uma galáxia que praticamente não emite luz?

Encontrar uma galáxia escura parece um paradoxo. Afinal, se ela quase não produz luz, como localizá-la? Os pesquisadores recorreram a uma estratégia indireta: em vez de procurar a galáxia em si, buscaram sinais de sua gravidade atuando sobre objetos ao redor.

"Normalmente, para medir a quantidade de matéria escura em uma galáxia, observamos como as coisas se movem", explicou Francine Marleau. "Mas, em uma galáxia escura, existe tão pouca matéria visível que isso se torna extremamente difícil."

A pista veio de quatro aglomerados globulares, conjuntos extremamente densos de estrelas localizados a cerca de 250 milhões de anos-luz da Terra. Eles pareciam orbitar algo invisível, indicando que uma enorme concentração de massa estava presente naquele ponto do espaço.

Quando telescópios realizaram observações mais detalhadas, os cientistas detectaram um brilho extremamente fraco entre esses aglomerados. Essa pequena quantidade de luz corresponde justamente aos cerca de 0,1% de matéria comum presentes na CDG-2. Todo o restante parece ser formado por matéria escura.

Por que essa descoberta é tão importante?

Os modelos atuais de formação das galáxias sugerem que a matéria escura funciona como uma espécie de esqueleto invisível do Universo.

Primeiro surgem grandes halos de matéria escura. Depois, gases e matéria comum são atraídos por essa estrutura, formando estrelas e, posteriormente, galáxias.

Mas os cientistas sempre levantaram uma possibilidade intrigante: e se, em alguns casos, esse processo nunca fosse concluído? Se pouca matéria comum fosse capturada ou se a formação de estrelas fosse interrompida muito cedo, o resultado seria justamente uma galáxia quase totalmente escura.

Segundo Marleau, estudar esses objetos permite reconstruir a história da formação galáctica. "Essas estruturas, quando conseguimos observá-las, ajudam a reconstruir como uma galáxia foi montada ao longo do tempo."

Um laboratório natural para estudar a matéria escura

Além de confirmar previsões feitas por modelos cosmológicos há décadas, a CDG-2 oferece algo ainda mais valioso: um ambiente onde a matéria escura praticamente não é mascarada pela presença de estrelas.

"Nas galáxias normais, como a Via Láctea ou Andrômeda, há luz demais", afirmou David Li. "É muito difícil separar os efeitos da matéria comum e da matéria escura."

Ele acrescenta que, em uma galáxia dominada quase inteiramente por matéria escura, "a assinatura da matéria escura se torna muito mais evidente".

Isso significa que a CDG-2 pode funcionar como um verdadeiro laboratório cósmico para testar diferentes hipóteses sobre a composição dessa substância invisível, incluindo modelos que propõem partículas pesadas, partículas mais leves ou até novas interpretações sobre a gravidade.

Apesar de décadas de pesquisas, ninguém sabe exatamente do que a matéria escura é feita. Ainda assim, sua influência gravitacional é considerada essencial para explicar a formação das galáxias, a organização do Universo em grande escala e diversos fenômenos observados pelos telescópios.

A identificação da CDG-2 não resolve esse quebra-cabeça, mas oferece uma oportunidade rara de estudá-lo em um ambiente onde quase tudo o que existe parece ser justamente aquilo que permanece invisível. Se futuras observações confirmarem que a galáxia realmente é composta quase inteiramente por matéria escura, os cientistas terão em mãos um dos melhores objetos já descobertos para investigar uma substância que, embora nunca tenha sido vista diretamente, pode ser a responsável por sustentar a arquitetura de todo o Universo.

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