Ciência

Cerveja 'zero' é mesmo sem álcool? Entenda o que dizem os rótulos

Processos de produção podem deixar vestígios de álcool, enquanto marcas e consumidores discutem como essa informação deve aparecer nos rótulos

Cervejas: termos como 0,0%, zero e não alcoólica podem representar diferenças no teor da bebida (Freepik)

Cervejas: termos como 0,0%, zero e não alcoólica podem representar diferenças no teor da bebida (Freepik)

Publicado em 6 de setembro de 2026 às 12h07.

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O mercado de bebidas sem álcool cresce, mas o nome pode esconder uma diferença importante. Algumas cervejas classificadas como “não alcoólicas” ainda podem conter pequenas quantidades de álcool.

A questão ganhou espaço à medida que aumentaram as vendas de cervejas, vinhos e destilados alternativos, segundo informações do Wall Street Journal. Consumidores e representantes do setor passaram a defender informações mais claras sobre o teor alcoólico desses produtos.

Nos Estados Unidos, bebidas com menos de 0,5% de álcool por volume são classificadas como “não alcoólicas”. Já a expressão “livre de álcool” é usada para produtos que não contêm álcool, segundo as regras do Departamento de Impostos e Comércio de Tabaco (TTB).

Como uma cerveja sem álcool pode ter álcool?

O processo de fabricação ajuda a explicar a diferença. Algumas bebidas são produzidas sem fermentação, enquanto outras passam por processos que reduzem ou removem o álcool depois da produção.

A fermentação produz álcool naturalmente. Por isso, algumas fabricantes controlam esse processo, diluem a bebida ou utilizam técnicas como destilação a vácuo e filtração.

Mesmo depois dessas etapas, pequenas quantidades podem permanecer na bebida. Segundo especialistas destacados pelo WSJ, alcançar uma concentração de 0,0% pode exigir etapas adicionais de processamento. Por esse motivo, muitas cervejas comercializadas como alternativas às bebidas alcoólicas apresentam concentração inferior a 0,5%, mas não necessariamente igual a zero.

Mercado de bebidas não alcoólicas está em expansão

As vendas em dólares de cervejas, vinhos e destilados sem álcool nos Estados Unidos cresceram mais de 14% nas 52 semanas encerradas em 18 de julho, segundo dados da NielsenIQ. No mesmo período, as vendas de cerveja sem álcool chegaram a quase US$ 235 milhões nos três meses encerrados em 27 de junho.

O crescimento ocorre enquanto as vendas de bebidas alcoólicas tradicionais permanecem estagnadas. A expansão do mercado também aumentou a discussão sobre a forma como esses produtos são apresentados ao consumidor.

Termos diferentes podem causar confusão

Expressões como “sem álcool”, “0%” e “zero álcool” podem aparecer nas embalagens de bebidas alternativas. O problema é que esses termos podem não deixar evidente a existência de pequenas quantidades de álcool. Para consumidores que precisam evitar completamente a substância, essa diferença pode ser relevante.

Uma associação do setor nos Estados Unidos passou a recomendar que empresas não utilizem alegações de “zero” ou “sem álcool” quando o produto ainda contém traços de álcool. A entidade defende o uso de termos que deixem mais clara a presença, ainda que mínima, da substância.

A discussão também chegou aos tribunais americanos. Em 2021, consumidores moveram uma ação federal contra a Heineken USA. O processo questionava a comercialização da Heineken 0.0 como bebida sem álcool. A ação alegava que o produto apresentava concentração inferior a 0,03% de álcool.

O caso foi encerrado em 2022. A empresa afirmou que o produto havia sido analisado pelo órgão americano responsável pela regulamentação de álcool e tabaco e classificado como sem álcool. A Heineken também informou que a fórmula não havia sido modificada desde o lançamento da bebida, em 2017.

Algumas marcas buscam teor alcoólico zero

Parte das fabricantes passou a investir em produtos que afirmam apresentar concentração de 0,0%. De acordo com o jornal, entre as grandes marcas que afirmam ter alcançado esse índice estão Budweiser Zero e Michelob Ultra Zero.

A CleanCo, que produz coquetéis e destilados sem álcool, também informou ter reduzido o teor alcoólico de suas bebidas de 0,4% para 0,0%. Segundo a empresa, a mudança ocorreu depois de testes de mercado indicarem que consumidores estavam confusos com a presença de pequenas quantidades de álcool.

Bebidas sem álcool são seguras para todos?

Ainda existem lacunas nas evidências científicas sobre os efeitos dessas bebidas. Pesquisas indicam que elas podem ajudar algumas pessoas a reduzir o consumo de álcool, mas ainda são poucos os ensaios clínicos randomizados controlados sobre o tema.

Para determinados grupos, a recomendação é mais restritiva. O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) afirma que nenhuma quantidade de álcool é considerada segura durante a gravidez.

A American Association for the Study of Liver Diseases (AASLD) também orienta atenção ao consumo de bebidas não alcoólicas por pessoas com determinadas doenças hepáticas, especialmente porque alguns desses produtos podem conter pequenas quantidades de álcool.

A principal questão, portanto, não é apenas se a bebida é classificada como “não alcoólica”. Para consumidores que precisam evitar completamente o álcool, o teor efetivamente presente no produto pode fazer diferença.

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