Ciência

Everest está derretendo mais rápido — e xixi de alpinistas pode estar entre as causas

Estudo calculou o calor gerado por atividades no Acampamento Base e estimou impacto equivalente ao derretimento de 2.492 toneladas de gelo e neve

Geleira: estudo avaliou o impacto de atividades humanas no Acampamento Base do Everest sobre a perda de gelo (Freepik)

Geleira: estudo avaliou o impacto de atividades humanas no Acampamento Base do Everest sobre a perda de gelo (Freepik)

Publicado em 6 de setembro de 2026 às 05h32.

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A presença humana no Monte Everest também deixa marcas sobre o ambiente. Um estudo publicado na revista Regional Environmental Change estima que o calor gerado pelas atividades no Acampamento Base contribuiu para o derretimento de cerca de 3 milhões de quilos de gelo e neve da geleira Khumbu durante a primavera.

A análise considerou diferentes fontes de calor associadas à infraestrutura do local. Entre elas estão os combustíveis usados para cozinhar e manter o acampamento em funcionamento, além do impacto relacionado aos resíduos humanos.

Combustíveis representam a maior parte do impacto

Os pesquisadores analisaram informações referentes à primavera de 2023, período de intensa movimentação no Acampamento Base do Everest. Naquele ano, foram utilizados 824 cilindros de gás liquefeito de petróleo, 18 mil litros de querosene e mais de 5 mil litros de gasolina.

Esses combustíveis abastecem atividades como preparo de alimentos, aquecimento e funcionamento de equipamentos. O estudo aponta essas fontes como as principais responsáveis pelo calor adicional produzido pela presença humana.

O acampamento também conta com uma estrutura que inclui eletricidade, chuveiros quentes e outras instalações para atender escaladores e equipes de apoio. Como a estrutura está instalada sobre a geleira, parte do calor produzido pelas atividades pode ser transferida para o ambiente congelado.

Urina também contribui para o degelo

Outro fator considerado pelos pesquisadores foi a quantidade de urina produzida durante a temporada de escaladas. O estudo estima que o calor associado ao xixi humano tenha contribuído para o derretimento de aproximadamente 154 toneladas de gelo.

A estimativa, porém, não significa que a urina seja responsável isoladamente pelo derretimento da geleira. O cálculo faz parte de uma avaliação mais ampla sobre o impacto térmico das atividades humanas no Acampamento Base.

Durante a temporada, milhares de pessoas passam pela região. Estimativas citadas no estudo indicam que mais de 6 mil litros de xixi podem ser produzidos diariamente no local. Parte dos resíduos é recolhida por estruturas sanitárias e transportada para áreas mais baixas. Outra parcela pode acabar sendo depositada diretamente sobre a geleira.

Além do impacto sobre o gelo, o descarte de resíduos humanos gera preocupação sobre a qualidade da água disponível para as comunidades da região.

Região do Everest está aquecendo

Para avaliar as mudanças ambientais, os pesquisadores também analisaram dados obtidos em campo e por satélite entre 1991 e 2023. Os resultados indicaram que a temperatura na região do Acampamento Base aumentou mais rapidamente do que nas áreas cobertas por neve da geleira Khumbu.

A pesquisa também aponta uma aceleração das taxas de perda de gelo desde 2009. Nesse processo, o aquecimento global aparece como um dos principais fatores, enquanto a atividade humana local acrescenta uma fonte de calor à região.

De acordo com o estudo, a combinação desses fatores pode aumentar a velocidade de transformação da geleira.

Degelo ameaça recursos hídricos

A perda de gelo no Everest não representa apenas uma mudança na paisagem. As geleiras da região funcionam como importantes reservas de água para comunidades que vivem nas áreas próximas.

O avanço do derretimento pode alterar a disponibilidade de água e aumentar riscos associados à formação e ao transbordamento de lagos glaciais. Também há preocupação com avalanches e com as condições de segurança para quem trabalha ou escala na região.

Outro problema ambiental identificado no Everest é o acúmulo de fezes humanas congeladas em áreas de maior altitude. As condições extremas dificultam a retirada desses resíduos. Em altitudes elevadas, a menor disponibilidade de oxigênio também torna as atividades de coleta mais complexas.

Estudo propõe mudar o Acampamento Base

Diante dos impactos observados, os pesquisadores consideram a transferência do Acampamento Base para uma área localizada fora da geleira. A mudança poderia diminuir a exposição direta do gelo ao calor produzido pela infraestrutura e reduzir parte da pressão exercida pela presença humana.

A medida também poderia facilitar algumas operações logísticas, como o transporte de equipamentos e o atendimento às equipes de apoio.

Para os pesquisadores, a discussão sobre o futuro do Acampamento Base deve considerar não apenas a segurança dos escaladores, mas também os efeitos da atividade humana sobre a geleira Khumbu.

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