Vacina: imunizante desenvolvido pela Fiocruz será o primeiro do tipo com tecnologia 100% nacional a ser testado em humanos no Brasil (Bernardo Portella / Fiocruz)
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Publicado em 6 de setembro de 2026 às 08h43.
O Brasil vai iniciar os testes em humanos da primeira vacina desenvolvida integralmente no país com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA). O imunizante contra a Covid-19, criado pelo Bio-Manguinhos/Fiocruz, recebeu autorização nesta quarta-feira, 2, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avançar para os estudos clínicos.
O projeto faz parte de uma estratégia do Ministério da Saúde para ampliar a capacidade brasileira de desenvolver vacinas e outros produtos de saúde. Ao todo, o governo investiu R$ 210 milhões em plataformas de RNA mensageiro na Fiocruz, no Instituto Butantan e no Centro de Competência em Vacinas da UFMG.
Entre as pesquisas apoiadas pelo governo estão projetos contra dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose visceral e influenza. Também há estudos voltados a aplicações terapêuticas, incluindo diferentes estratégias contra o câncer.
A vacina contra a Covid-19 é o primeiro produto desenvolvido pela plataforma de RNA mensageiro de Bio-Manguinhos/Fiocruz. De acordo com o Ministério da Saúde, o projeto já passou por estudos pré-clínicos, avaliações toxicológicas e testes de escalonamento.
A pesquisa autorizada pela Anvisa vai avaliar o imunizante como dose de reforço, de acordo com a estratégia prevista atualmente no calendário do Programa Nacional de Imunizações (PNI).
O recrutamento dos voluntários para a primeira fase está previsto para o primeiro trimestre de 2027. Nessa etapa, os pesquisadores vão avaliar principalmente a segurança e a capacidade de resposta provocada pela vacina. Os participantes serão acompanhados durante um ano.
Segundo o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, a estrutura pode reduzir a dependência brasileira de tecnologias desenvolvidas no exterior e ampliar a capacidade de resposta a emergências sanitárias.
O investimento federal não está concentrado em uma única vacina. A proposta é criar uma estrutura capaz de sustentar diferentes projetos de interesse do Sistema Único de Saúde (SUS).
No Centro de Competência em Vacinas da UFMG, por exemplo, estão em desenvolvimento vacinas de RNA mensageiro contra dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose visceral e influenza.
O centro também pesquisa aplicações terapêuticas. Entre elas estão uma imunoterapia contra o câncer baseada em siRNA, vacinas contra o câncer com antígenos tumorais e uma metodologia de CAR-T baseada em RNA.
Esses projetos ainda fazem parte da carteira de desenvolvimento apoiada pela infraestrutura nacional. O comunicado do Ministério da Saúde não informa que essas estratégias já estejam disponíveis para uso em pacientes.
A tecnologia também abre espaço para aplicações que vão além da prevenção de infecções. Entre os projetos do Centro de Competência em Vacinas da UFMG estão pesquisas com vacinas contra o câncer que utilizam antígenos tumorais. A estratégia busca aproveitar a capacidade do RNA de orientar respostas do sistema imunológico.
Outra frente envolve uma metodologia de CAR-T baseada em RNA. A terapia CAR-T utiliza células do sistema imunológico para combater determinados tipos de câncer.
O Ministério da Saúde também cita a imunoterapia contra o câncer baseada em siRNA entre as soluções terapêuticas em desenvolvimento no centro mineiro.
Os R$ 210 milhões anunciados pelo Ministério da Saúde foram distribuídos entre três estruturas. A plataforma de RNA mensageiro da Fiocruz recebeu R$ 77 milhões por meio do Novo PAC Saúde. O Instituto Butantan recebeu R$ 73 milhões, enquanto o Centro de Competência em Vacinas da UFMG recebeu R$ 60 milhões.
Na Fiocruz, os recursos apoiam a infraestrutura de pesquisa e produção e o desenvolvimento da vacina contra a Covid-19. No Butantan, o investimento inclui a implantação de uma unidade de desenvolvimento e produção de vacinas de RNA mensageiro. Inicialmente, a estrutura será voltada a imunizantes contra Covid-19 e raiva.
A iniciativa integra o Programa Nacional de Inovação Radical do Ministério da Saúde, que busca aproximar pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e demandas do SUS.
Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o investimento permite ao país ampliar o domínio da tecnologia. “Temos muito orgulho de que vamos nos apropriar, enquanto país, dessa plataforma tecnológica”, afirmou.
Além do desenvolvimento nacional, o projeto prevê cooperação internacional com participação do BNDES e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A intenção é transformar a plataforma brasileira em um ativo de saúde com alcance global.