Invest

Consumo menor de bebidas alcoólicas deixa ações do setor de ressaca

Mudança de hábitos, preferência por bebidas sem álcool e hábitos da Geração Z pressionam consumo

Bebidas Alcoólicas: setor enfrenta concorrência de opções sem álcool. (Gabriela Brazão/Divulgação)

Bebidas Alcoólicas: setor enfrenta concorrência de opções sem álcool. (Gabriela Brazão/Divulgação)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 05h00.

Última atualização em 31 de agosto de 2026 às 06h24.

Priorizar nos meus resultados Google

Enquanto os consumidores estão bebendo menos e os mais jovens têm menor propensão ao álcool, alternativas de bebidas sem álcool e até mesmo a maconha liberada em algumas regiões dos Estados Unidos ganham espaço. O resultado já aparece nas ações globais do setor, que acumulam quedas nos últimos anos.

Os papéis da Molson Coors (TAP), dona das cervejas Blue Moon e Sol, recuaram 17,05% nos últimos 12 meses. Em um horizonte de cinco anos, o desempenho também é negativo, com queda de 12,31%.

Fabricante das marcas Johnnie Walker, Smirnoff, Guinness, Tanqueray e Baileys, a Diageo (DGE), listada em Londres, avança 6,21% em 2026, mas cai 17,24% nos últimos 12 meses e 51,04% nos últimos cinco anos.

A Heineken (HEIA), cujas ações estão em Amsterdã, cai 21,96% nos últimos cinco anos, apesar de subir 4,75% neste ano e 3,67% nos últimos 12 meses. No Brasil, as ações da Ambev (ABEV3) também acumulam retração de 11,27% nos últimos cinco anos, porém avançam 10,77% no ano e 23,43% nos últimos 12 meses.

Para o analista do BNP Paribas, Kevin Grundy, o problema vai além de uma fase ruim do consumo. "As pessoas estão bebendo menos", e a mudança parece ser cultural.

Queda nas vendas das fabricantes

A cerveja é um dos segmentos mais pressionados. A produção americana caiu 5,6% em 2025 e teve nova retração de 5,4% no segundo trimestre de 2026, segundo Grundy, em entrevista à Barron's.

No mercado de destilados, as vendas ficaram estáveis. Mas, quando são retiradas da conta as bebidas prontas para consumo, como coquetéis enlatados, o cenário também é de queda de 4,1% em 2025 e de 4,9% no segundo trimestre de 2026.

A mudança no comportamento dos consumidores tem sido associada à constatação de que o álcool faz mal à saúde.

A popularização dos remédios contra a obesidade também não favorece, já que a perda de peso e as mudanças de consumo associadas a esses tratamentos podem reduzir a ingestão de álcool.

Jovens são 'risco' maior para empresas

A tendência entre as gerações mais novas adiciona uma preocupação de longo prazo para as empresas. Um relatório do UBS divulgado pela Barron's mostra que apenas 32% dos consumidores da Geração Z bebem semanalmente, contra 45% entre as gerações mais velhas.

De acordo com os analistas do banco, essa menor propensão ao consumo de álcool entre os jovens tende a se transformar em um obstáculo ao volume vendido à medida que essas gerações substituírem as mais velhas no mercado consumidor.

É esse caráter estrutural que leva Grundy a manter uma visão negativa para a Constellation Brands (que possui uma licença para vender a cerveja Corona nos EUA), a Brown-Forman (dona do whisky Jack Daniel's) e a própria Molson Coors, mesmo depois da forte desvalorização das ações do setor.

Ações ficaram baratas, mas isso não basta

A queda dos papéis reduziu em cerca de um terço os múltiplos das empresas de bebidas alcoólicas nos últimos cinco anos. Ainda assim, o desconto pode não ser suficiente para atrair investidores, conforme fontes ouvidas pela Barron's.

A Brown-Forman negocia a 16,5 vezes o lucro projetado, enquanto a Constellation Brands está em 11 vezes e a Molson Coors, em 8,7 vezes. Para comparação, o setor de bens de consumo básico tem múltiplo médio de 22,8 vezes, segundo dados da FactSet.

O mercado também não demonstra grande confiança na tese de recuperação. Entre os analistas que acompanham a Molson Coors, apenas 22% recomendam compra ou posição acima da média. No caso da Brown-Forman, a parcela cai para 11%.

Dona das marcas como Samuel Adams, Twisted Tea e Truly Hard Seltzer, a Boston Beer é ainda mais rejeitada, com apenas um dos 15 analistas que cobrem a companhia recomenda compra. A exceção é a Constellation Brands, que ainda conta com uma visão relativamente positiva entre os analistas.

Nem tudo é ciclo

Para Bill Kirk, da Roth, o caso da Boston Beer também sofre com um problema mais imediato de alta dos preços dos combustíveis, que reduziu recentemente o orçamento disponível dos consumidores para bebidas, além das perspectivas de inflação com a instabilidade dos conflitos geopolíticos.

Só que esse é um fator cíclico e pode desaparecer. O problema é que, para o setor, a questão central parece ser mais profunda. Se os consumidores mais jovens estão incorporando o álcool com menor frequência e novas alternativas ocupam esse espaço, a indústria pode estar diante de uma mudança permanente.

Acompanhe tudo sobre:bebidas-alcoolicasCervejasAções

Mais de Invest

PIB, payroll e votação do fim da escala 6x1: o que move os mercados nesta semana

Menos 'feeling', mais fórmulas: onde o investimento quantitativo está colocando dinheiro

Por que o risco da IA não está no quanto as empresas investem ‐ mas no como

60+ perdeu medo de app do banco, mas ainda é analógico na hora de investir