Ciência

Argentinos descendem dos europeus? Descobertas de arqueólogos mostram que não é 'bem assim'

Análise de 117 pontas de flecha revela organização familiar e tradições guerreiras em grupos pré-hispânicos da Argentina

Pesquisadores afirmam que flechas trazem pistas sobre os povos que habitaram as Sierras de Córdoba  (Medina et al./ International Journal of Osteoarchaeology/Divulgação)

Pesquisadores afirmam que flechas trazem pistas sobre os povos que habitaram as Sierras de Córdoba (Medina et al./ International Journal of Osteoarchaeology/Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 16h55.

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Um conjunto de 117 pontas de flecha produzidas a partir de ossos de guanaco revelou novas interpretações sobre as dinâmicas sociais e técnicas de grupos humanos que habitaram as Sierras de Córdoba, na Argentina, entre 1220 e 330 anos.

O estudo foi publicado em 12 de dezembro na revista International Journal of Osteoarchaeology e conduzido pelo arqueólogo Matías Medina, vinculado ao Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina, o CONICET.

A pesquisa identificou padrões consistentes na fabricação das peças, sugerindo uma transmissão intergeracional de técnicas dentro de núcleos familiares. Essas comunidades pré-hispânicas combinavam práticas de caça, coleta e agricultura em organizações sociais móveis.

A principal matéria-prima identificada foi o osso longo de guanaco, animal selvagem da região dos Andes, caçado inicialmente para consumo. O reaproveitamento do material para confecção de armas seguiu um processo padronizado que incluía corte, raspagem, entalhe, simetrização e polimento. O acabamento brilhante das pontas não apenas aumentava sua eficiência aerodinâmica como indicava planejamento técnico apurado.

Quais foram as principais pistas?

A preferência pelo uso dos metápodos, ossos das patas dos guanacos, revela conhecimento técnico detalhado sobre a resistência e a modelagem do material. As peças eram transformadas em lâminas por meio de lixamento em pedras abrasivas, e algumas contavam com elementos decorativos incisos, como linhas e triângulos.

De acordo com Matías Medina, essas decorações tinham função simbólica, agindo como marcadores de identidade coletiva em contextos de conflito. A hipótese dos pesquisadores é que essas armas foram utilizadas majoritariamente em confrontos entre grupos, não apenas em atividades de caça. As farpas e os adornos estilísticos reforçam essa interpretação, funcionando como "assinaturas culturais" do fabricante.

O padrão observado nas pontas – com pequenas variações individuais, mas ampla coerência regional – aponta para uma produção descentralizada, sustentada por oficinas familiares. Essa estrutura organizacional permitia a continuidade técnica e o fortalecimento de repertórios simbólicos reconhecíveis entre diferentes grupos do Vale do Punilla.

Tecnologia, meio ambiente e adaptação regional

A pesquisa também propõe ampliar a comparação com outras regiões da Argentina e da América do Sul, onde a escassez de pedra e o uso intensivo de recursos aquáticos levaram a soluções técnicas semelhantes. Segundo os autores do estudo, a sofisticação no uso do osso como material de trabalho reflete uma adaptação direta ao ambiente natural e às estratégias de sobrevivência.

As descobertas contribuem para o preenchimento de uma lacuna na arqueologia sul-americana sobre a tecnologia óssea, tradicionalmente menos estudada que a lítica. Ao iluminar aspectos como memória, identidade e conflito, o estudo reconstrói parte da história de grupos que não deixaram registros escritos, mas revelam sua organização e conhecimento técnico por meio de objetos materiais.

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