Ciência

Do câncer a doenças cardíacas: Como a genética está transformando o cuidado com cães e gatos

Testes de DNA começam a ser usados para identificar predisposição a doenças, avaliar respostas a medicamentos e orientar cuidados personalizados para cães e gatos

Teste genético: amostras de DNA permitem identificar variantes associadas a doenças e à resposta a medicamentos (Divulgação/Petgenoma)

Teste genético: amostras de DNA permitem identificar variantes associadas a doenças e à resposta a medicamentos (Divulgação/Petgenoma)

Publicado em 17 de agosto de 2026 às 18h05.

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Os testes genéticos estão mudando a forma como cães e gatos são acompanhados ao longo da vida. Antes associados principalmente à identificação de raças e ancestralidade, eles começam a orientar estratégias de prevenção, exames de rastreamento e cuidados personalizados antes mesmo do surgimento dos primeiros sintomas.

Essa é a proposta da Petgenoma, startup brasileira de biotecnologia instalada no CIETEC, incubadora localizada no campus da Universidade de São Paulo (USP). A empresa desenvolve testes capazes de analisar variantes genéticas relacionadas a mais de 300 condições de saúde em cães e gatos.

Em entrevista à Exame, Eduardo Lemos, fundador da Petgenoma, explicou que as informações obtidas pelos testes não substituem o diagnóstico ou o acompanhamento veterinário. "A genética é um meio, não um fim", afirmou. Segundo ele, o objetivo é transformar o DNA em uma ferramenta que ajude o médico-veterinário a acompanhar cada paciente de forma mais direcionada.

Da predisposição genética à medicina veterinária preventiva

Os exames analisam variantes associadas a doenças cardíacas, neurológicas, renais, oftalmológicas, musculares e hematológicas, além de alguns tipos de câncer. A empresa afirma ainda que seus testes avaliam variantes relacionadas à metabolização de medicamentos e a possíveis riscos anestésicos. Na prática, essas informações podem ajudar o médico-veterinário a adaptar o acompanhamento conforme o perfil genético de cada paciente.

Lemos cita como exemplo a cardiomiopatia dilatada, condição caracterizada pelo aumento e enfraquecimento do coração. Mesmo que o animal ainda não apresente sintomas, uma variante associada à doença pode justificar exames cardíacos mais frequentes. A intenção é identificar alterações em estágios iniciais e acompanhar a evolução do quadro antes do aparecimento dos sintomas.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a condições musculares e esqueléticas. Em animais com predisposição à doença do disco intervertebral, por exemplo, o veterinário pode recomendar mudanças na rotina. Essas adaptações não eliminam o risco, mas podem reduzir sobrecargas, quedas e outros fatores que favorecem o agravamento do quadro.

Predisposição genética não significa diagnóstico

Embora os testes possam indicar maior risco para determinadas condições, eles não determinam que o animal necessariamente desenvolverá uma doença. As enfermidades avaliadas incluem tanto doenças hereditárias causadas por alterações em um único gene quanto condições multifatoriais, cujo desenvolvimento depende da interação entre fatores genéticos e ambientais.

É o caso de alguns tipos de câncer. "Não é possível garantir que esse animal vai ter câncer. Afinal de contas, ele é multifatorial", explicou Lemos, e acrescentou que a alimentação, a idade, o ambiente e outros fatores também influenciam o surgimento dessas doenças.

Genética pode indicar resposta a medicamentos

Outro campo explorado pelos testes é a farmacogenética, área que estuda como alterações no DNA influenciam a resposta do organismo aos medicamentos. De acordo o executivo, algumas variantes genéticas podem alterar a forma como cães metabolizam determinados fármacos, aumentando o risco de efeitos adversos ou intoxicações.

Um dos exemplos citados por Lemos envolve alterações no gene MDR1, associado à sensibilidade a alguns medicamentos. O problema é conhecido principalmente pela relação com determinadas raças, como o border collie, mas também pode ocorrer em cães sem raça definida, como os vira-latas.

A empresa explica que essas informações podem servir como um dado complementar na escolha de medicamentos e na avaliação pré-operatória. O resultado genético, porém, não substitui exames clínicos, laboratoriais nem outros procedimentos realizados antes de uma cirurgia.

Foto: Divulgação/Petgenoma

Testes também podem ser feitos em vira-latas

Os exames genéticos não são restritos aos cães de raça. Animais sem raça definida também podem ser analisados. No caso dos vira-latas, os testes podem revelar tanto a composição ancestral quanto variantes relacionadas à saúde e à resposta a medicamentos.

A qualidade da interpretação, porém, depende da diversidade dos bancos de dados utilizados como referência. Antes de começar a comercializar seus testes, a Petgenoma afirma ter genotipado cães de diferentes linhagens encontradas no Brasil e combinado esses resultados com bancos públicos internacionais para formar uma base proprietária.

Para a empresa, a inclusão dessas linhagens busca tornar as análises mais adequadas à população de cães atendida no país.

Inteligência artificial amplia a interpretação dos exames

A Petgenoma também desenvolve uma plataforma que pretende integrar informações genéticas e histórico clínico dos animais. A proposta é utilizar inteligência artificial para organizar grandes volumes de dados e apoiar a tomada de decisão clínica dos médicos-veterinários.

Segundo Lemos, a tecnologia não tem o objetivo de substituir o profissional. Para os tutores, a plataforma deverá oferecer lembretes e perguntas relacionadas ao acompanhamento preventivo dos animais. As recomendações clínicas, porém, continuarão restritas aos veterinários.

Segundo a empresa, a integração entre DNA, histórico clínico e inteligência artificial busca tornar o acompanhamento dos animais cada vez mais personalizado.

Base genética brasileira amplia as referências

O executivo afirma que a empresa mantém dados genéticos de mais de 15 mil animais. Segundo Lemos, esse conjunto de informações deverá ser utilizado não apenas nos testes genéticos, mas também no desenvolvimento de ferramentas voltadas para clínicas, laboratórios e fabricantes de alimentos e medicamentos para pets.

Atualmente, os exames abrangem quase 300 raças de cães, cerca de 50 raças de gatos e mais de 300 condições de saúde. A expectativa é ampliar esse painel para mais de 500.

Esses números, porém, não significam que todas as condições apresentem o mesmo nível de evidência científica ou a mesma capacidade preditiva. A utilidade clínica depende da variante genética analisada, da doença investigada e da quantidade de evidências disponíveis para cada marcador.

Foto: Divulgação/Petgenoma (Petgenoma/Divulgação)

Empresa planeja expansão pela América Latina

Fundada em 2023, a Petgenoma começou a comercializar seus testes em agosto de 2024. A empresa possui laboratório próprio instalado no ambiente do CIETEC e afirma realizar internamente tanto as análises laboratoriais quanto o processamento bioinformático dos dados genéticos.

No campo empresarial, a startup negocia sua primeira operação na Colômbia e avalia expandir a atuação para outros países da América Latina.

Apesar dos planos de crescimento, o principal desafio científico permanece o mesmo: transformar informações genéticas em decisões clínicas úteis, sem confundir predisposição com diagnóstico.

A promessa da genética veterinária não está em prever com certeza o futuro de cada animal, mas em oferecer mais informações para que médicos-veterinários e tutores acompanhem sua saúde de forma mais individualizada. “Queremos gerar eficiência para o tratamento do animal e para a capacidade de observação do veterinário”, destaca.

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