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Seu próximo sofá pode não ter uma forma final

Peças que se encaixam, giram e se recombinam ganham espaço em marcas como USM, Minotti e Tacchini, e disputam com o sob medida o posto de maior personalização em decoração

Blocos autônomos se combinam em bancos, poltronas e luminárias, todos derivados de uma única unidade de construção da Pixel Theory (Divulgação)

Blocos autônomos se combinam em bancos, poltronas e luminárias, todos derivados de uma única unidade de construção da Pixel Theory (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 15h47.

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Uma casa decorada raramente permanece do jeito que foi pensada no primeiro dia. Os moradores mudam de rotina, ganham ou perdem espaço, trocam de cidade, e o ambiente que parecia definitivo precisa se reorganizar. Esse movimento constante tem impulsionado um segmento específico do mobiliário: peças pensadas para serem remontadas várias vezes, como se fossem blocos de um quebra-cabeça físico.

Sistemas modulares existem desde a metade do século passado, quando a escassez de espaço no pós-guerra e a densidade das cidades grandes empurraram fabricantes a criar mobiliário adaptável. O que mudou nas coleções mais recentes é o tipo de liberdade oferecida ao usuário, que deixou de lidar apenas com praticidade e passou a ver nesses sistemas uma forma de assinatura pessoal.

Da funcionalidade à personalização

Sofá Togo

O Togo, lançado nos anos 1970 por Michel Ducaroy, ajudou a consolidar a estética de estofados moles e recombináveis na década (Divulgação)

O caso mais citado do gênero é o sistema USM Haller, desenvolvido nos anos 1960 pelo engenheiro Paul Schärer Jr. e pelo arquiteto Fritz Haller. A estrutura, com tubos de aço cromado, painéis com acabamento em pó e uma esfera de conexão patenteada, nasceu para equipar a sede da própria USM antes de virar produto comercial. Mais de sessenta anos depois, a marca segue relançando releituras da peça original, como a colaboração recente com o designer Armando Cabral, que incorporou referências de sua herança cultural guineense e portuguesa à gramática do sistema.

Na década seguinte, a lógica ganhou contornos mais orgânicos em criações como a Camaleonda, de Mario Bellini, e a Togo, de Michel Ducaroy, marcos de uma fase em que os estofados passaram a adotar formas moles e recombináveis. Hoje, marcas como Minotti e Tacchini seguem linha parecida, com módulos, encostos avulsos e pufes que se encaixam e se separam conforme a necessidade do ambiente, incluindo trabalhos assinados pela designer britânica Faye Toogood para a Tacchini.

Um bloco só, infinitas combinações

Pixel Theory

Cada peça da Pixel Theory pode funcionar isolada ou se juntar a outras, montando composições diferentes no mesmo ambiente (Divulgação)

Entre os lançamentos mais recentes está a coleção Pixel Theory, da designer espacial Ceren Arslan, apresentada em setembro de 2025 em parceria com a galeria IRL, em Nova York, pelo estúdio EXIT, de Arslan. A ideia parte de uma unidade básica de construção, o próprio píxel, repetida em escalas diferentes: blocos de 20 centímetros para assentos e luminárias de piso, de 10 centímetros para mesas e pendentes, e de 5 centímetros para mesas de apoio e abajures.

Em entrevista à revista Architectural Digest, Arslan afirmou que a individualidade em um ambiente já foi sinônimo de encomendas exclusivas, geralmente caras e pouco acessíveis. Para ela, a modularidade inverteu essa lógica ao permitir que o próprio morador componha o resultado final, deixando de ser apenas comprador de um produto pronto.

Ghost da Pixel Theory

Módulos de madeira e metal se encaixam em camadas, criando volumes que remetem a pixels tridimensionais (Divulgação)

Outro projeto que segue caminho semelhante é o sistema Amoreba, do arquiteto francês Ariel André, fundador do estúdio experimental Golem. A peça é formada por centenas de esferas macias preenchidas com fibra, moldadas por um software desenvolvido pelo próprio estúdio para se adaptar ao formato de cada ambiente. O resultado lembra uma superfície têxtil que se estende e se curva de acordo com a arquitetura do local, como um musgo cobrindo uma pedra.

Ariel Andre amoreba

Centenas de esferas preenchidas com fibra formam a superfície do sistema Amoreba, moldada para se adaptar ao contorno de cada ambiente

Uma lógica parecida aparece, em escala menor, no Sofá Joy, do escritório paulistano estudiobola, fundado pelos arquitetos Flavio Borsato e Mauricio Lamosa. A peça é dividida internamente em gomos, volumes arredondados e assimétricos que se unem por costuras irregulares, criando uma superfície que também remete a uma composição celular, mais orgânica do que geométrica. Feito sob medida, com estrutura em madeira certificada e revestimento em couro ou lona de algodão, o sofá é outro exemplo de como a linguagem dos módulos deixou de se limitar a formas retas e passou a explorar volumes que imitam organismos vivos.

Joy Modular - estudiobola

Encostos avulsos se apoiam sobre uma base contínua, permitindo composições assimétricas no sofá Joy Modular, do estudiobola (Divulgação)

Um mercado que valoriza mudar de ideia

O crescimento dessa categoria também está ligado a hábitos de consumo mais recentes. Uma geração mais jovem de compradores muda de cidade e de casa com frequência maior do que a de décadas anteriores, e ambientes que antes tinham uma única função, como escritórios domésticos, passaram a acumular usos variados ao longo da semana. Ao mesmo tempo, a personalização se tornou expectativa em áreas que vão de listas de música a aplicativos, o que reforça a demanda por mobiliário que acompanhe essa mesma lógica de ajuste contínuo.

Isso não retira espaço do mobiliário sob encomenda, que segue sendo procurado por quem quer uma peça única, assinada e pensada para um ambiente específico. Mas a modularidade se consolidou como alternativa para quem busca um resultado parecido, com a possibilidade de reorganizar o design da própria casa sempre que for necessário, sem depender de uma nova encomenda a cada mudança.

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