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Mostras imersivas e a ascensão das grifes de moda marcam a semana do design italiano

Com público recorde, a edição 2026 do Salão do Móvel e do Fuorisalone expande seu alcance muito além do design, com exibições que apostam na sinestesia e transitam entre arte, arquitetura, luxo e moda

Semana de Design de Milão:  (KARTELL)

Semana de Design de Milão: (KARTELL)

Camila Lima
Camila Lima

Jornalista

Publicado em 29 de abril de 2026 às 07h15.

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Milão (Itália) - Palácios barrocos com séculos de história que abrem suas portas para experiências imersivas, onde sons, aromas e arte atuam em simbiose. Instalações de proporções gigantescas que só se revelam em sua totalidade quando contempladas do alto. Intervenções artísticas que redefinem a percepção do espaço urbano.

A Semana de Design de Milão, que combina o prestígio do Salone del Mobile, na Rho Fiera, com os eventos do Fuorisalone pelas ruas da cidade, é, sem dúvida, a maior vitrine do planeta para compreender a excelência da produção italiana. E, a cada edição, também o que há de mais poderoso no imaginário criativo global.

Mesmo num ano marcado por instabilidade internacional, a 64ª edição recebeu 316.342 visitantes de 167 países, com uma alta de 4,5% em relação a 2025. Reuniu 1.900 expositores, vindos de 32 países.

Até a primeira-ministra Giorgia Meloni esteve presente na abertura e, de tênis nos pés, calçado imprescindível para percorrer os 170 mil m² da feira, permaneceu cerca de duas horas no evento. Em seu pronunciamento de encerramento, a presidente do Salone, Maria Porro, foi direta: "O Salone não apenas reúne o mundo do design, ele o coloca em movimento. Transforma a presença em relacionamentos e o conteúdo em oportunidades."

Giorgia Meloni e Maria Porro na Semana de Design de Milão 2026 (Divulgação)

O raro chegou à feira

Entre as estreias mais comentadas, nenhuma gerou mais expectativa do que o Salone Raritas. O nome vem do latim e evoca raridade, unicidade, excelência. Na prática, uma nova seção no Pavilhão 9 dedicada ao design colecionável: 28 ambientes com ícones históricos, peças únicas, edições limitadas, antiguidades e artesanato contemporâneo; além de objetos que escapam a qualquer classificação, situados entre o design e a arte.

A curadoria foi assinada pelo Formafantasma, estúdio conhecido por explorar sustentabilidade, história dos materiais e processos industriais. Os destaques foram a Nilufar, de Nina Yashar, e a Galerie Mitterrand, com obras dos Lalanne. O Brasil, quinto país em número de visitantes do Salone, também marcou presença com o Mercado Moderno, galeria carioca que apresentou um ambiente em diálogo com o modernismo brasileiro e o artesanato contemporâneo.

Mostras disputadas

Se dentro do Salone a arte já avança em velocidade notável, pelas ruas do Fuorisalone ela se torna protagonista absoluta. Mais de 1.850 eventos distribuídos por 19 distritos temáticos tomaram conta de cada pátio e palácio da cidade, com filas que viravam quarteirão nas ruas mais movimentadas. Uma das instalações mais fotografadas foi "Metamorphosis in Motion", labirinto construído no pátio do histórico Palazzo Litta, próximo à Porta Magenta.

Criado pela arquiteta Lina Ghotmeh com o estúdio Mosca Partners, o projeto propunha uma experiência sensorial através da consciência espacial e de um jogo de perspectivas. Já ba icônica Corso Como, um polvo rosa inflável transformava a fachada da concept store enquanto convidava o público a descobrir, em seu interior, a nova coleção da Moncler.

A mostra L'Appartamento by Artmest, em sua quarta edição no Palazzo Donizetti, também foi uma das grandes sensações do evento. Convidou cinco estúdios internacionais a reinterpretar as capitais culturais italianas: Veneza, Florença, Roma, Nápoles e Palermo, colocando no foco o melhor do artesanato e do design do país.

A proposta mais poética e politicamente consciente de todo o Fuorisalone, porém, veio do Uzbequistão. "When Apricots Blossom", no luxuoso Palazzo Citterio, teve a curadoria do arquiteto tailandês Kulapat Yantrasast e tratava de uma ferida geográfica real: o desaparecimento do Mar de Aral. A exposição propunha um percurso imersivo, que terminava num jardim com um pavilhão de 15 metros. Uma metáfora ao florescer dos damascos e de que tudo persiste, mesmo quando o mundo à volta desaparece.

Um pouco de Brasil

Em sua terceira edição, o projeto Piloto Milano apresentou "Echoes of Elsewhere" na Residenza Vignale, um dos edifícios Art Nouveau mais importantes da cidade. Sob curadoria de Ricardo Gaioso, diretor criativo brasileiro radicado em Milão, a exposição reuniu objetos e móveis criados por 20 designers do país, em ambientes que discutiam, propositalmente de forma não linear, a maneira de habitar e a vida urbana. A mostra contou ainda com outros representantes da América do Sul.

O Estúdio Campana também levou à cidade uma coleção cápsula de tapeçaria artística batizada de "Floralis", desenvolvida com a Art de Vivre, marca de tapetes sediada em Dubai. "Os tapetes nasceram a partir de sketches feitos com caneta metálica pelo meu irmão Fernando, com desenhos que remetiam às estruturas celulares e às formas vivas da natureza", contou Humberto Campana. As criações foram apresentadas num teatro inteiramente forrado de preto, onde cada peça era emoldurada por uma redoma de luz azul intensa.

Já a arquiteta Fernanda Marque exibiu, no Museo Nazionale Scienza e Tecnologia Leonardo da Vinci, um tapete desenvolvido com a americana By Henzel, inspirado nos Lençóis Maranhenses e executado em lã, seda e mohair.

Um território para a moda

Se antes as marcas de moda se limitavam a lançar linhas home nas semanas de design, hoje elas apostam em experiências cada vez mais amplas. A Miu Miu propôs um Clube Literário com direção de Miuccia Prada, debatendo o desejo e a sexualidade como ferramentas de resistência.

A H&M fez sua estreia no Fuorisalone tomando o Palazzo Acerbi, edifício barroco do século 17, para lançar sua primeira linha de móveis, assinada pela designer americana Kelly Wearstler, com peças modulares perfumadas pela nova fragrância da marca.

A Gucci parou, literalmente, o quarteirão ao redor do Chiostro di San Simpliciano, numa exposição sob curadoria de Demna que contava a história dos 105 anos da grife por meio de doze tapetes que dialogavam com os clássicos do label. Já a Loro Piana colocou os holofotes sobre sua tradição têxtil com 24 mantas únicas expostas como grandes telas — estudos de construção, textura e linguagem que traduzem a precisão da casa.

A Bottega Veneta apresentou "Lightful", instalação que fundia artesanato e luz numa única escultura, criada com o artista coreano Kwangho Lee e exposta na butique da marca na Via Sant'Andrea. A Louis Vuitton, fiel ao evento e aos salões do Palazzo Serbelloni, apresentou sua linha de Objetos Nomads e uma uma instalação tridimensional, que invadia o pátio externo com volumes geométricos de ares quase metafísicos. Uma obra monumental, inspirada nos trabalhos de encadernação do designer Pierre Legrain, criada em parceria com a Accademia di Belle Arti di Brera.

Mais uma vez, a cidade provou que design é apenas o ponto de partida. O que o Salone e o Fuorisalone realmente propõe, edição após edição, palácio após palácio, objeto após objeto,  é uma conversa ininterrupta entre o belo e o necessário. Tradição e inovação. Um equilíbrio entre o que o mundo produz e o que ele, no fundo, ainda deseja.

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