Cirque du Soleil: conheça o CEO do projeto (Anne-Marie Forker / Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 30 de julho de 2026 às 12h03.
Artistas voam a metros de altura em trapézios flamejantes, acrobatas se apoiam em condições quase sobrenaturais uns com os outros. O público se assusta, ri e se emociona. É o efeito do Cirque du Soleil: um espetáculo que parece desafiar as leis da física e que volta a São Paulo em agosto.
Por trás das cortinas, no entanto, há uma das operações mais complexas, diversas e lucrativas do entretenimento. Quem a chefia é Daniel Lamarre, CEO do Cirque du Soleil, que transformou o projeto no circo mais reconhecido do mundo.
Sob sua gestão, o grupo expandiu operações para cinco continentes, com cerca de 5 mil funcionários vindos de pelo menos 91 nacionalidades. Ao longo de 39 anos, já atraiu mais de 180 milhões de espectadores e se apresentou em mais de 70 países. A organização mobiliza mais de 100 ocupações profissionais distintas, entre técnicos, engenheiros, figurinistas, maquiadores e cozinheiros. Em turnê, cada espetáculo opera com elencos de 50 a 100 artistas.
No próximo mês, o grupo volta ao Brasil com Alegría – Um Novo Dia, versão repaginada do clássico espetáculo de 1994, com temporadas confirmadas em São Paulo e Curitiba. Sete dos artistas que se apresentam são brasileiros. Antes de abrir as tendas, Lamarre sobe aos palcos do SP2B, irmão mais novo do Rio2C, evento de economia criativa.
À Casual EXAME, ele detalhou os bastidores do negócio, hoje um dos mais lucrativos e bem-sucedidos, e os aprendizados que teve ao longo de seus quase 20 anos à frente do projeto. Confira:

Como se constrói uma marca de espetáculo com a força e a dimensão do Cirque du Soleil?
Toda a marca foi construída por meio da criatividade dos nossos criadores, dos nossos artistas. Começamos com um grupo de artistas de rua em Montreal e, depois, fomos desenvolvendo mercado por mercado. Mas o motivo pelo qual acredito que fomos bem-sucedidos ao redor do mundo é porque desenvolvemos algo único. Foi descrito pela Harvard Business School como uma ruptura em termos de criatividade artística. Isso chamou a atenção das pessoas.
Mas o que eu gosto de dizer é que a performance humana está no coração do que fazemos, e isso construiu a nossa marca. Nós gastamos, mesmo com todos esses anos, muito tempo tentando empurrar os limites da nossa criatividade, empurrando também os limites da performance humana. Temos os melhores atletas do mundo; muitos deles vêm das Olimpíadas, dos lugares mais profissionais possíveis.
Eu estava justamente pensando em como vocês encontram essas pessoas. Como é essa busca pelos artistas?
Primeiro de tudo, nós temos uma equipe imensa de scouts (olheiros) viajando pelo mundo todo. Lógico, há vitrines maiores, como as Olimpíadas, em que fica fácil encontrar um artista entre tantos atletas. Mas o trabalho dos olheiros é fundamental para encontrar novas pessoas.
E hoje temos sorte porque, pela força da marca, os próprios atletas já nos enviam seus vídeos. Temos mais de 400 mil artistas em nosso banco de dados. Com essa construção de marca que falamos antes, essa ambição de ir empurrando a barra dos limites, nós temos o luxo de ter os melhores performers do mundo, porque todos eles sonham em vir trabalhar conosco.
Você pode me contar um pouco sobre como foi o processo para gerenciar todo esse projeto? Quando você começou a fazer isso, acreditava que se tornaria o que é hoje?
Obviamente, ninguém poderia prever que alcançaríamos a escala do que somos hoje. Mas uma coisa é certa: nós tínhamos um sonho. E sonhar é muito, muito importante, porque, quando você sonha, não coloca nenhuma barreira ao seu redor. Você não coloca limites. Você simplesmente faz aquilo com que sonha.
No fim das contas, uma das razões pelas quais fomos bem-sucedidos é porque temos 91 nacionalidades diferentes trabalhando no Cirque du Soleil. Se você vier ao nosso restaurante no nosso centro criativo em Montreal, não terá a sensação de estar em Montreal; terá a sensação de estar nas Nações Unidas, porque as pessoas vêm de todas as partes do mundo. Acho que essa é uma das nossas grandes forças.
Sobre gerenciar o projeto, ninguém faz algo assim sozinho. Existe uma equipe gigante trabalhando em conjunto para que cada detalhe (e são muitos os detalhes) não passe despercebido. É um grande trabalho unido.
E não é só sobre a nacionalidade das pessoas que trabalham lá, mas as nacionalidades para onde o circo vai. Como vocês conseguiram a expansão internacional e a formação de público de país em país?
Uma coisa em que acho que somos bons é em trabalhar em colaboração com pessoas do mundo todo. Por exemplo, quando vamos ao Brasil, nós trabalhamos com brasileiros, com pessoas que conhecem o mercado e nos ajudam a ter sucesso no Brasil. Fazemos a mesma coisa quando vamos para a China, para a França ou para Seul.
É a rede de parceiros que desenvolvemos ao redor do mundo que nos torna muito bem-sucedidos, e acredito que não exista outra empresa de entretenimento no mundo que tenha desenvolvido essa rede como nós fizemos, em mais de 70 países. É preciso um passo de humildade para perceber os limites que temos quanto à nossa nacionalidade e a confiança que precisamos criar em uma pessoa mais especializada dentro dos países para onde queremos nos apresentar. Foi assim que chegamos a tantos lugares.
Por outro lado, também trabalhamos com marcas globais que nos ajudaram a acelerar nosso desenvolvimento. Por exemplo, trabalhamos com os Beatles, com o James Cameron, com o acervo do Michael Jackson. Isso nos ajudou a acelerar nosso desenvolvimento internacional ,porque nos ajudou a ganhar credibilidade imediata em muitos países ao redor do mundo.
E como a empresa enxerga o Brasil como público?
Notamos que os brasileiros amam a performance humana; são um público muito sofisticado. Provavelmente um dos melhores do mundo — se não o melhor —, porque entendem o que fazemos. Nossos artistas amam apresentar nossos shows no Brasil, porque a reação do público é imediata, e você vê quase que simultaneamente a reação do artista e a do público ao mesmo tempo.
Eu acredito que as nossas melhores performances acontecem por aqui, e não digo isso porque estou promovendo o próximo espetáculo. É por causa da empolgação que o público gera para a atuação dos nossos artistas, uma coixa puxa a outra.
Interessante que você diga isso, porque, no Brasil, a produção cultural muitas vezes enfrenta dificuldades para se consolidar como um negócio sustentável. Como você acredita que as pessoas podem trabalhar com a cultura para torná-la um negócio, sem perder a relevância da arte?
Muitas vezes as pessoas criam algo que acham que é extraordinário (às vezes até é) e esperam que o público venha até elas. Não funciona assim. Você que precisa ir até o público, porque as pessoas não virão se você não for buscá-las. Artistas, por vezes, são um pouco esnobes e pensam: "ah, eles deveriam vir". Veja, ninguém é obrigado a ir ao Cirque du Soleil só porque temos um ótimo espetáculo. É nossa responsabilidade ir até o público e convencê-los a virem nos assistir. Essa proximidade, essa amizade que geramos com o público, é o que nos faz ter sucesso.
A tradição do Cirque du Soleil, por exemplo, é que viemos de um grupo de artistas de rua. E gostamos de manter essa cultura de que precisamos ir às ruas de São Paulo ou do Rio de Janeiro e trazer o público para debaixo da nossa lona.
Se eu trabalhasse para uma organização cultural brasileira hoje, seria isso o que eu faria. Eu iria para a rua, pegaria as pessoas pelo braço e diria a elas: "você tem que vir ver meu filme" ou "você tem que vir ver minha exposição, porque vale a pena". No mundo de hoje, o público tem tantas opções que, se você não for buscá-lo, ele nunca irá ao seu evento.
Para finalizar: depois dessa jornada com o Cirque du Soleil, o que você aprendeu que mudou sua forma de ver os negócios e a cultura, e que pode servir de lição para outras pessoas?
A principal lição é que você nunca pode se acomodar ou achar que o trabalho está concluído só porque alcançou o sucesso. Porque o sucesso pode ser passageiro se você não encontrar uma maneira de mantê-lo. A pressão em nossa sede em Montreal ao criar um novo espetáculo é enorme, por exemplo, porque a expectativa do público cresce a cada projeto. É preciso estar atento o tempo todo para novas ideias, novos performers, novas tecnologias, novas maneiras de fazer as coisas, porque a nossa responsabilidade é surpreender as pessoas o tempo todo. E, para fazer isso, é preciso se reinventar o tempo todo.
Mas o maior aprendizado que tive ao longo de todos esses anos é que, sem criatividade, não há negócio. Para mim, quando as pessoas em qualquer organização param de ser criativas, elas perdem a inovação. E se perdem a inovação, perdem a liderança. É isso o que estou fazendo desde que entrei nesse circo, e é isso o que vou dizer no SP2B: a criatividade está no coração de tudo o que fazemos.