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Por que fragrâncias exóticas estão aparecendo no mercado?

Marcas trocam flores e baunilha por estábulos, cemitérios e memórias afetivas para reinventar o luxo olfativo

Os frascos da Maison d'Etto ao lado de um cavalo, referência direta às fragrâncias batizadas com nomes de animais que marcaram a trajetória da fundadora Brianna Lipovsky (Divulgação)

Os frascos da Maison d'Etto ao lado de um cavalo, referência direta às fragrâncias batizadas com nomes de animais que marcaram a trajetória da fundadora Brianna Lipovsky (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h19.

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Durante décadas, o mercado de perfumaria teve uma gama previsível de ingredientes. Flores brancas, cítricos, baunilha e almíscares suaves formaram a base de quase tudo que chegava às prateleiras, pensado para agradar o maior número possível de narizes. Um grupo de marcas independentes vem mudando esse consenso de duas formas distintas.

Algumas recriam de forma literal cheiros considerados desagradáveis, como sangue, gasolina e terra molhada. Outras partem de referências igualmente inesperadas, como o universo dos cavalos, para construir fragrâncias que seguem dentro do território floral e amadeirado tradicional, mas carregam uma história por trás.

Cheiro literal como projeto

Series 6 Synthetic da Comme des Garçons

A embalagem da Series 6: Synthetic, da Comme des Garçons, coleção lançada em 2004 para reproduzir cheiros do cotidiano urbano, como garagem, tinturaria e alcatrão (Divulgação )

A Comme des Garçons foi uma das primeiras grifes a levar essa lógica ao mercado de forma comercial. Em 2004, a marca japonesa lançou a Series 6 Synthetic, uma coleção de cinco perfumes inspirados nos cheiros de uma cidade grande.

Garage e Tar são os exemplos mais citados até hoje: o primeiro traz notas de couro, borracha e traços de querosene, enquanto o segundo combina vapores de betume, cigarro queimado e opopanax, reproduzindo a atmosfera de uma oficina mecânica ou de uma rua tomada por poluição.

Outra marca que também aposta na reprodução literal é a Blood Concept, criada em Milão em 2010 pelo fotógrafo e publicitário Antonio Zuddas e pelo estilista Giovanni Castelli. A dupla organizou o catálogo em torno dos tipos sanguíneos, e o primeiro lançamento, batizado apenas de O, combina tomilho, framboesa, quicuio, rosa mosqueta, couro, bétula, cedro e notas metálicas para simular o próprio sangue. A proposta da marca é explícita: um perfume "sem flores", pensado para celebrar a vida a partir de suas camadas mais viscerais.

Fantasmas e memória

Heretic Parfum

Spectral Grace, da linha Ghosts da Heretic Parfum, combina lírio-do-vale e petricor em uma composição inspirada no fantasma de Grace Kelly (Divulgação)

A Heretic Parfum ocupa um espaço parecido, mas voltado para outro tipo de desconforto. O californiano Douglas Little criou a linha Ghosts para investigar como cheira um fantasma. O perfume Shadow People traz vapor frio, musgo de carvalho e terra úmida; já o Spectral Grace, inspirado no fantasma de Grace Kelly, combina lírio-do-vale e petricor, e o Doppelgänger aposta em madeiras e almíscar para simular a sensação de déjà vu.

A coleção nasceu de uma encomenda do Kunstmuseum Basel, na Suíça, para uma mostra sobre o paranormal, e ganhou vida própria depois disso, cruzando-se com o processo pessoal de luto de Little pela morte da mãe.

Cavalo como contraste

maison d'etto

Um dos frascos da Maison d'Etto, cujas fragrâncias buscam traduzir memórias afetivas em vez do cheiro literal dos cavalos que as inspiram (Divulgação)

A Maison d'Etto segue por um caminho oposto ao dessas marcas. Quem pensa em cavalo costuma imaginar estábulo, feno e o cheiro pungente de esterco e terra batida, associações que fazem parte do dia a dia de quem vive perto desses animais. A fundadora Brianna Lipovsky, que monta em cavalos desde os cinco anos de idade e hoje compete como amazona de Grand Prix em adestramento, parte exatamente desse universo, mas desloca o foco para outro lugar. Cada fragrância recebe o nome de um cavalo específico que passou pela vida dela, e a composição busca reproduzir a lembrança e o vínculo criado com o animal, e não o cheiro literal do estábulo.

Durban Jane, uma das fragrâncias mais conhecidas do catálogo, combina sândalo, labdano e flor de laranjeira, notas convencionais e nada desconfortáveis, para traduzir o vínculo entre Lipovsky e o cavalo que dá nome ao perfume. A marca evita frascos em formato de fivela e tampas costuradas como sela, comuns em outras grifes equestres. O discovery set com sete fragrâncias em spray de 2,5 ml custa 90 dólares, cerca de R$ 460,80 na cotação atual.

O peso dos números

Dados da Intel Market Research mostram que o mercado global de perfumes de luxo independente valia 3,8 bilhões de dólares em 2024, cerca de R$ 19,46 bilhões, com projeção de chegar a 7,6 bilhões em 2032, crescendo 9,1% ao ano. A Business Research Insights estima o setor em 4,72 bilhões de dólares só em 2026, em torno de R$ 24,17 bilhões, com previsão de atingir 16 bilhões até 2035. Pesquisas do setor apontam ainda que 58% dos consumidores de alta renda hoje preferem fragrâncias de nicho a marcas de grife tradicionais.

O site italiano nss Magazine descreveu esse movimento como parte de uma virada estética em que cheiros antes tidos como desagradáveis, caso da gasolina, do sangue, do suor e do alho, passam a ser tratados como material legítimo de composição. O interesse por histórias pessoais e por referências que fogem do óbvio, sejam elas literais ou conceituais, ajuda a explicar essa expansão dentro da perfumaria contemporânea.

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