Mercado de luxo: os desafios da L'Oréal no Brasil (Reprodução redes sociais)
Repórter de Casual
Publicado em 21 de julho de 2026 às 16h49.
Última atualização em 21 de julho de 2026 às 18h55.
Marina Torres é o que o mercado corporativo chama de prata da casa. Ou, no jargão interno de um dos maiores grupos de beleza do mundo, uma "L’Oréal baby". O apelido é dado àqueles funcionários que estão na empresa desde a faculdade. A executiva brasileira entrou na companhia há mais de 15 anos como trainee, no Reino Unido, e, de lá para cá, construiu uma carreira internacional diversificada.
A jornada começou em Londres. Torres ingressou ainda jovem no grupo, após organizar um evento na universidade. Depois, escalou posições até se tornar diretora de marketing de marcas como Lancôme e Giorgio Armani. Disposta a compreender a operação de vendas na ponta, ela levou alguns anos, mas trocou a Inglaterra pelos Estados Unidos para atuar em Miami na divisão de Travel Retail das Américas e, por lá, liderou a gestão comercial de fragrâncias e cosméticos em aeroportos, cruzeiros e canais duty-free.
Por si só, a trajetória já é de se reconhecer. Mas a reviravolta na carreira foi mais recente, e em terra natal. Em 2024, Torres retornou ao Brasil para assumir o cargo de diretora-geral da divisão de luxo da marca no país, que inclui marcas como Lancôme, Giorgio Armani, Yves Saint Laurent, Ralph Lauren, Prada, Valentino, Mugler, Azzaro e Cacharel.
O desafio por aqui é gigante. O Brasil vive um ciclo de expansão sem precedentes para o mercado de luxo nacional, impulsionado pela chegada de linhas de alta perfumaria ligadas a grifes internacionais. No ano passado, só o segmento de perfumes de luxo no país movimentou US$ 453 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões), segundo dados da Deep Market Insights.ca

Para 2026, segundo a consultoria Circana, o mercado de fragrâncias deve fechar o ano com alta de 12% nas vendas. A L'Oréal, por aqui, lidera esse crescimento: no ano passado, o grupo francês trouxe pela primeira vez ao Brasil a linha de perfumes Born in Roma, da Valentino. Neste ano, a Prada lançou o Paradigme masculino, com notas de bergamota da Calábria e gerânio Bourbon.
A Yves Saint Laurent Beauty, por sua vez, trouxe ao Brasil o MYSLF Le Parfum, com bergamota e flor de laranjeira da Tunísia. A Lancôme chegou com La Vie Est Belle L'Élixir, que traz framboesa e notas de folhas de violeta e rosa.
Abaixo, em entrevista à Casual EXAME, a executiva detalhou os bastidores da trajetória internacional, os desafios de liderar equipes multidisciplinares e as estratégias da L’Oréal para capturar a sofisticação do consumidor brasileiro. Confira:
A L’Oréal Luxo é líder global no segmento, mas o Brasil ainda é visto como um mercado de luxo pequeno em comparação a outros países. Qual é a importância estratégica do país hoje para a divisão?
O Brasil é um mercado extremamente estratégico para o nosso crescimento global e recrutamento de novos consumidores. Hoje, o país é o segundo maior mercado de fragrâncias do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e o nosso portfólio de perfumes de luxo é uma das maiores fortalezas do grupo.
O mercado de luxo brasileiro ainda é pequeno, não por falta de consumidores, mas porque precisa ser desenvolvido. É nisso que apostamos: em desenvolver o setor junto ao varejo e trazer marcas de peso para o país. Foi por isso que trouxemos Valentino no ano passado e acabamos de lançar Miu Miu por aqui, com suas novas fragrâncias.
Falando de Miu Miu e Valentino, como vocês pensaram a chegada dessas marcas para o consumidor brasileiro?
A Miu Miu virou um grande ícone de moda, ocupou o topo das marcas mais desejadas no Lyst Index. Ela é a "irmã mais nova" da Prada, criada pela Miuccia Prada para expressar a própria personalidade dela. É uma marca que conversa com a jovem brasileira por ter uma pauta cultural, ligada à arte e ao cinema, com um fator muito cool e edgy. Fizemos um lançamento 100% digital da nova fragrância da marca com criadores nacionais.
Já Valentino é sobre abraçar a diversidade. Quando trouxemos a franquia Born in Roma, sabíamos do seu poder de inclusão, Ter uma protagonista negra nas campanhas globais foi um divisor de águas, já que o Brasil é um país 56% negro. Valentino conversa diretamente com a nossa cultura vibrante, alegre e diversa. Foi o nosso maior lançamento em unidades e valor no primeiro semestre do ano passado.
E quem é o comprador de beleza de luxo no Brasil hoje? É um perfil que vai além da alta renda?
Com certeza. Eu nem gosto mais de segmentar apenas por classe A, B ou C, mas sim por perfil de consumo e afinidade. O consumidor de países emergentes é muito aspiracional: muitas vezes, ele não consegue comprar uma bolsa ou um casaco da Miu Miu, Valentino ou Prada, mas a beleza é a porta de entrada para esse universo. O batom, a maquiagem e, principalmente, o perfume são formas de pertencer a esse mundo.
Além disso, no Brasil temos a facilidade do pagamento parcelado e diferentes tamanhos de produtos no portfólio, o que democratiza o acesso e nos ajuda a levar o luxo para dentro de mais casas brasileiras.
Dentro da divisão de luxo no Brasil, qual é o peso das categorias? Fragrâncias ainda lideram com folga?
Sim. No mercado de luxo brasileiro, fragrâncias representam mais de 70% do peso da divisão, seguidas por maquiagem. Skincare cresceu bastante, mas ainda é uma categoria menor. E o mercado feminino de perfumes é maior do que o masculino, porque a mulher brasileira é mais complexa e gosta de ter um "armário de fragrâncias" — um perfume para o frio, outro para o calor, para quando está feliz ou apaixonada.
Os homens, por sua vez, estão começando a evoluir agora: já não buscam apenas o "perfume do dia ou da noite", eles já dominam o vocabulário, entendem de famílias olfativas como os amadeirados e orientais e estão ampliando seu leque de escolhas. Ou seja, é um crescimento consolidado para ambos os gêneros, que mostra como o setor tem potencial no Brasil.
Diante de consumidores mais informados e exigentes, qual é o maior desafio ao gerenciar um portfólio de 10 marcas de luxo no Brasil?
O maior desafio é lidar com a complexidade do consumidor contemporâneo. Ele quer verdade. As marcas precisam ir muito além de vender um produto ou explicar se uma fragrância é floral ou gourmand; é preciso criar relações autênticas e um sentimento de pertencimento.
Na divisão, falamos muito sobre a cultura de luxo: a necessidade de ser constantemente disruptivo e surpreender, mas sem perder a autenticidade de cada marca. Quanto a vendas, hoje, não existe mais a divisão entre online e offline, existe um ecossistema integrado. O desafio é manter a equipe motivada e analítica para inovar sempre na forma como nos conectamos com as pessoas.