‘Adele Bloch-Bauer I’ segue exposta na Neue Galerie até 2028, quando passa a integrar o acervo do Metropolitan Museum, em Nova York (Reprodução/Neue Galerie)
Jonalista colaborador
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 07h28.
O empresário Ronald Lauder anunciou que vai doar toda a sua coleção para o Metropolitan Museum de Nova York, incluindo o quadro mais famoso da Neue Galerie, o museu que ele fundou. Adele Bloch-Bauer I, de Gustav Klimt, vai continuar no topo da escadaria do prédio até 2028, quando passa oficialmente para o acervo do Met.
A pintura chegou às mãos de Lauder em 2006, por US$ 135 milhões, cerca de R$ 695 milhões na cotação atual. Na época, o valor foi recorde para qualquer obra vendida no mundo à época, mas Klimt ainda não tinha o prestígio que tem hoje. O pintor austríaco não aparecia nos principais livros de história da arte usados até então e nunca havia recebido uma retrospectiva individual em museus dos Estados Unidos ou do Reino Unido.
Duas décadas depois, seis pinturas de Klimt já ultrapassaram os US$ 100 milhões em leilão. A mais recente, Retrato de Elisabeth Lederer, foi arrematada por US$ 236 milhões no ano passado, o equivalente a R$ 1,21 bilhão. Para Max Hollein, diretor do Met, a valorização reflete uma revisão de rota do próprio mercado. "Se você olha para Viena em 1900, para Berlim nos anos 1920, esse foi o epicentro do desenvolvimento da vanguarda, e é importante ter uma coleção ampla e profunda disso", disse ele.
Basquiat entrou na lista dos artistas mais valorizados do mercado ao lado de nomes como Klimt e Pollock, com obras ultrapassando os US$ 100 milhões em leilão (Reprodução/YouTube)
A venda de Adele deu início a uma sequência de recordes que colocou a pintura do século XX no topo do mercado, superando os mestres antigos que dominavam as vendas até então. Hoje, quadros pintados entre 1905 e 1983 representam três quartos de todas as pinturas já vendidas por mais de US$ 100 milhões. Os nomes se repetem: Klimt, de Kooning, Modigliani, Pollock, Rothko e Warhol.
Para Oliver Barker, presidente da Sotheby's na Europa, colecionadores bilionários tratam esses nomes quase como marcas. "Uma classe de bilionários com bolsos muito, muito fundos está atrás de nomes como se fossem marcas", afirma à Financial Times. Ele lembra que boa parte das grandes coleções do pós-guerra está mudando de mão, à medida que a geração que as formou começa a falecer.
Em 2015, o investidor chinês Liu Yiqian arrematou Nu Deitado, de Modigliani, por US$ 170 milhões, R$ 875 milhões, e levou flores ao túmulo do pintor em Paris para comemorar a compra. Dois anos depois, o empresário japonês Yusaku Maezawa pagou US$ 110 milhões, R$ 566 milhões, por um crânio pintado por Jean-Michel Basquiat.
‘Les Femmes d'Alger’ foi comprada pela família real do Catar por US$ 179 milhões, valor recorde para Picasso até aquele momento (Divulgação)
Essas obras dividem um traço em comum: causam impacto visual imediato e recorrem a algum grau de transgressão, sem ultrapassar um certo limite. A Mulher III de Willem de Kooning é assustadora, mas também cômica. Os nus de Modigliani mostram pelos pubianos, porém mantêm uma pose de inspiração renascentista.
Klimt também se encaixa nessa lógica. Cobras d'Água II, que sugere uma cena de orgia entre mulheres, foi vendida por US$ 183 milhões, R$ 942 milhões. Les Femmes d'Alger, de Picasso, foi comprada pela família real do Catar por US$ 179 milhões, R$ 922 milhões, valor recorde para o artista espanhol até aquele momento.
O mercado também serve de vitrine para nomes historicamente deixados de lado pelos museus. As obras de Joan Mitchell não passavam de £ 1 milhão até 2004; em 2023, uma delas alcançou US$ 29 milhões em leilão. O recorde entre artistas mulheres pertence a Frida Kahlo, cujo O Sonho (O Quarto) foi vendido por US$ 54 milhões, R$ 278 milhões, em novembro passado.
Colecionadores do Oriente Médio e do Sudeste Asiático seguem comprando ícones do modernismo ocidental. Parte das obras acaba em coleções privadas fora da Europa, como o Long Museum, em Xangai, fundado por Liu Yiqian. "Uma coleção é um ato de posse, mas o museu satisfaz minha necessidade de possuir e, ao mesmo tempo, de compartilhar", disse o colecionador chinês à Financial Times.