Modelos desfilam looks de peles, metalizados e sobreposições em cenário externo. Setor de luxo agora enfrenta novas regras para lidar com estoques não vendidos (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 21 de julho de 2026 às 16h57.
A partir desta semana, grandes grupos de moda que atuam na União Europeia estão proibidos de destruir roupas, calçados e acessórios que não foram vendidos. A medida atinge companhias como LVMH, Prada, Chanel e Inditex, e chega em um momento de pressão crescente sobre o setor de luxo para justificar práticas ligadas à gestão de estoque, produção e sustentabilidade.
A proibição havia sido aprovada em 2024 pelo bloco europeu, dentro de um pacote de medidas voltado a reduzir o desperdício têxtil e manter materiais em circulação por mais tempo. Com a nova regra em vigor, empresas de grande porte ficam impedidas de incinerar ou enviar para aterros produtos que não foram comercializados, incluindo itens devolvidos por clientes. A queima só continua permitida em casos específicos, como produtos falsificados, com risco à saúde ou danificados sem possibilidade de reparo.
Para marcas de luxo, a mudança tem um peso particular, uma vez que parte do valor desses produtos está associada à escassez controlada, e destruir peças que não encontraram comprador sempre funcionou como uma forma discreta de manter essa lógica. Sem essa alternativa, as empresas passam a lidar com um dilema: aumentar os custos de manter estoque parado, ampliar canais de desconto sob controle mais rígido ou reduzir volumes de produção desde o início.
Um caso julgado nesta semana expôs que a Chanel destruiu milhares de produtos não vendidos em Hong Kong como parte de sua estratégia de gestão de estoque. A marca informou ao Financial Times que os números apresentados no processo não refletem suas práticas globais atuais, e que os itens sem condição de venda passaram a ser encaminhados para a L’Atelier des Matières, iniciativa de reciclagem criada pela companhia em 2019 para recuperar materiais e reintroduzi-los em cadeias produtivas circulares.
Segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente, entre 4% e 9% dos produtos têxteis oferecidos à venda na Europa são destruídos antes mesmo de chegar ao consumidor, o que equivale a uma faixa estimada entre 264 mil e 594 mil toneladas por ano. Não existem dados oficiais divulgados pelas próprias empresas, e também não há uma separação pública clara entre o volume descartado por marcas de luxo e o gerado por companhias de moda rápida.
Um levantamento do Bain em parceria com a associação italiana Altagamma mostrou que, em 2025, cerca de 40% dos produtos de luxo foram vendidos com desconto, reflexo de uma demanda mais fraca e do acúmulo de estoques que levou marcas a recorrer com mais frequência a outlets e liquidações. Esse cenário reforça o desafio criado pela nova legislação, já que doação, reuso e revenda tendem a alimentar ainda mais esses canais alternativos.
Há também dúvidas sobre possíveis brechas na aplicação da regra, já que produtos vendidos por marcas europeias a distribuidores fora do bloco poderiam, em tese, ser destruídos fora da jurisdição da União Europeia.
Para analistas do setor, o efeito mais imediato deve ser um controle mais rigoroso sobre planejamento e produção. Luca Solca, do banco Bernstein, afirmou à Financial Times que as empresas devem passar a monitorar estoques com mais atenção, embora considere inevitável que sobras de fim de temporada continuem existindo. Segundo ele, o cenário deve abrir espaço para operadores especializados em vendas com desconto controlado, como a britânica Value Retail, responsável pelos outlets da rede The Bicester Collection, presente na Europa, na China e nos Estados Unidos.