Adam Chase: o roteirista de 'Friends' conta bastidores à EXAME (Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 26 de maio de 2026 às 06h32.
Se tem algo que não levanta debate é dizer que Friends foi, durante os anos finais da década de 1990, o pilar da comédia na TV. O que é debatível é o quanto a popularidade veio com os anos.
Em 1994, nenhum membro da equipe sabia que aquela seria a maior sitcom de todos os tempos. Que os rostos dos atores estariam estampados em camisetas de velhas e novas gerações, e que as piadas seriam conhecidas no mundo todo. Particularmente envolvido na produção, Adam Chase, principal roteirista de Friends, estava entre eles.
No auge de seus 23 anos, aquele era só seu segundo emprego. “Acho que foi bom não ter entendido o que estava acontecendo no início. Não deixei subir à cabeça a ideia de que todo mundo estaria assistindo. Se eu soubesse, isso teria bagunçado minha cabeça”, contou ele em entrevista exclusiva à Casual EXAME em sua passagem pelo Brasil para o Rio2C, o maior evento de economia criativa da América Latina.
O roteirista, que escreveu o texto da série até a sexta temporada, viveu uma época em que as revistas e a TV ditavam o ritmo do mundo. A experiência desenvolveu a ideia de que fazer o outro rir exige risco.
"Acho que a boa comédia sempre tem que ultrapassar os limites do que é aceitável dizer. É difícil ser engraçado e muito seguro ao mesmo tempo. Mas se o objetivo é ofender alguém, aquilo nunca foi comédia, para o início de conversa", acrescenta ele.
Com a ascensão do que é considerado ofensa e o que se tornou piada, o gênero passou por inúmeras modificações dos anos 1990 para cá. Algumas das próprias piadas de Friends, por exemplo, envelheceram mal. Mas esse está longe de ser o principal desafio do setor hoje, Chase explica. O que elas lidam, agora, é com a atenção dividida do espectador.
“As pessoas têm que tentar atrair o público mais rápido, porque as pessoas tendem a ter períodos de atenção mais curtos. O curioso é notar que, ao mesmo tempo, as pessoas estão procurando uma desculpa para largar seus telefones”, conta ele. “Isso aumenta o nível de exigência para que a televisão, os filmes e a música sejam muito melhores para merecer sua atenção".
Hoje, enquanto desenvolve projetos globais para o streaming, Chase entende que a comédia precisa ser universal sem perder a honestidade local. Particularidades culturais estão expandindo barreiras e chegando a novos públicos, algo que ele vê com muito otimismo para o cenário global do que é engraçado hoje em dia.
O politicamente correto é como parte da evolução natural da linguagem. Assim como um comediante ajusta o texto para refletir a cultura atual, o roteirista deve evoluir para espelhar a sociedade em que vive.