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A foto perfeita para passaporte custa R$ 700

Estúdio no Chinatown usa câmera Polaroid antiga e fila de clientes cresce a cada vídeo viral nas redes sociais

Retratos feitos com câmera Polaroid Big Shot no estúdio Happy Beginnings Studio, em Nova York. Cada sessão custa 140 dólares, cerca de R$ 730 (Divulgação)

Retratos feitos com câmera Polaroid Big Shot no estúdio Happy Beginnings Studio, em Nova York. Cada sessão custa 140 dólares, cerca de R$ 730 (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 18 de agosto de 2026 às 17h43.

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Uma cena antes reservada a repartições públicas e cabines apertadas virou point concorrido em Nova York, onde clientes reservam horário e pagam para tirar uma única foto de passaporte com aparência de retrato profissional. O fotógrafo americano Thomas Tran comanda o projeto por trás dessa procura, batizado Happy Beginnings Studio, instalado no Chinatown. Ele nunca pretendeu se especializar em fotos de documento, e afirma que seu interesse não está exatamente em deixar as pessoas com uma aparência favorecida diante da câmera.

Tran trabalha com uma Polaroid Big Shot, câmera de distância focal fixa de cerca de um metro, o que naturalmente resulta no enquadramento fechado típico de foto 3x4. "As pessoas às vezes dizem que fotografei elas no momento mais feio, que eu deveria me afastar um pouco", conta o fotógrafo, em tom de brincadeira, à Financial Times.

A fama que veio das redes

Apesar da abordagem despretensiosa, o estúdio ganhou força entre influenciadores digitais, que compartilham os retratos e atraem novos visitantes. Em julho, o criador de conteúdo James Edward publicou no TikTok um vídeo mostrando sua experiência no que chamou de foto de passaporte mais cara do mundo, e o post somou quase um milhão de visualizações. Tran diz que, a cada vídeo viral, uma nova leva de curiosos aparece na porta do estúdio, ainda que represente apenas uma fração do público que consome o conteúdo online. A visibilidade também abriu espaço para trabalhos maiores, como o ensaio que fez com o ator Walton Goggins durante uma campanha da grife Thom Sweeney, em junho.

Cada sessão para uma foto colorida custa 140 dólares, o equivalente a cerca de R$ 730 na cotação atual. O valor cobre um único clique, no qual Tran tenta captar aquilo que descreve como a essência de cada cliente. Segundo ele, o maior desafio é conseguir que a pessoa olhe direto para a lente, sem recorrer ao ângulo que costuma usar em fotos publicadas nas próprias redes sociais. "Às vezes vejo como alguém se apresenta na própria plataforma e, de repente, fotografo essa pessoa de frente e ela parece um ser completamente diferente", diz.

Um filme cada vez mais raro

Tran conheceu o filme peel apart aos 16 anos, o mesmo tipo de material usado por Andy Warhol em retratos de nomes como Jane Fonda e Debbie Harry. A produção foi descontinuada pela Fujifilm em 2016, depois que a Polaroid já havia interrompido a fabricação, o que tornou o insumo caro e escasso. Foi justamente essa limitação financeira que, segundo o fotógrafo, o forçou a definir com mais clareza seu próprio estilo. Ele abandonou um mestrado em design e passou cinco anos em São Francisco trabalhando como artista, período em que aproveitava intervalos para fotografar visitantes no Dolores Park.

Fundadores de startups da cena de fintech da cidade se tornaram entusiastas do trabalho e ajudaram a viabilizar, com apoio e conselhos de negócio, a abertura do estúdio nova-iorquino em março, que desde o início registrou grande procura.

Outros nomes do mesmo fenômeno

Passport Photo Service An Unexpected Archive of Celebrity Portraits

Bianca e Mick Jagger fotografados em 1975 pelo estúdio londrino retratado no livro "Passport Photo Service", da Phaidon, vendido por 19,95 libras (cerca de R$ 140) (Reprodução)

Tran não é o único a ganhar notoriedade com o formato. Em 2022, a influenciadora britânica Georgia Barratt publicou um vídeo mostrando a maquiagem de alto contraste que fez para renovar o próprio passaporte, com a legenda de que queria evitar repetir o resultado da foto anterior. A publicação passou de 34 milhões de visualizações. Em Nova York, outro fotógrafo do Chinatown, Chunika Kesh, do estúdio Eliz Digital, foi descrito pela CNN como uma lenda local das fotos de passaporte.

O interesse recente também trouxe à tona um antecedente britânico. Em abril, a editora Phaidon lançou o livro "Passport Photo Service: An Unexpected Archive of Celebrity Portraits", de Philip Sharkey, vendido por 19,95 libras, cerca de R$ 140. A obra reúne fotos de documento feitas por um estúdio familiar que funcionava perto da Oxford Street, em Londres, e que atendeu nomes como David Hockney, Muhammad Ali, Kate Winslet e Bianca Jagger antes de fechar as portas em 2019.

Na sequência, cresceu em Londres uma rede de cabines de autoatendimento no estilo coreano, entre elas a Cheeez, que também não nasceu como serviço voltado a documentos. "Foi um serviço que nossos próprios clientes descobriram e passaram a usar para isso", afirma Maria Gomez à Financial Times, responsável pelo marketing da marca, que descreve a iluminação das cabines como suave e natural, mas com brilho suficiente para dar viço ao retrato.

Tran, por sua vez, evita tratar o próprio estúdio como referência definitiva em fotos de passaporte e prefere manter o projeto em escala pequena. Ele prepara um livro de fotografia com lançamento previsto para o outono no hemisfério norte, pela editora Makan, e planeja colar cópias de seus retratos em pontos aleatórios de Nova York como forma de celebrar os rostos que fotografa, independentemente da repercussão que o estúdio ganhou nas redes.

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