Google e UE: empresa já acumula um histórico de punições na Europa; entre 2017 e 2019, a UE aplicou sanções que somaram € 8,2 bilhões por diferentes práticas anticoncorrenciais. (Nicolas Tucat/AFP)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 23 de julho de 2026 às 17h29.
Quem procura um voo ou um hotel no Google costuma ver, no topo da página, uma caixa com preços, datas e disponibilidade, pronta para uso, sem precisar entrar em nenhum site.
Foi exatamente isso que a União Europeia decidiu punir nesta quinta-feira, 23, com uma multa de € 890 milhões à empresa. Para o bloco, esse espaço privilegiado é uma vantagem indevida sobre concorrentes que oferecem o mesmo serviço e não recebem o mesmo destaque.
É a maior sanção já aplicada com base no Ato dos Mercados Digitais (DMA), a legislação europeia criada para conter abusos de posição dominante das gigantes de tecnologia. E o efeito prático deve aparecer na tela do usuário: para cumprir a decisão, diz o Google, funcionalidades hoje disponíveis vão sair do ar na Europa.
A penalidade foi dividida. Uma parte, de € 460 milhões, pune o favorecimento de serviços próprios no Google Search. Segundo a Comissão Europeia, a empresa posiciona seus resultados de compras, hotéis, transporte e esportes em locais de maior destaque na página, com recursos visuais e filtros que não são oferecidos a terceiros.
A outra, de € 430 milhões, trata da Google Play. Pelas regras do DMA, desenvolvedores de aplicativos devem poder avisar seus clientes, sem custo, que existem ofertas mais baratas fora da loja, e direcioná-los para o próprio site ou para lojas concorrentes. A Comissão concluiu que o Google impedia essa comunicação, restringia a promoção dessas alternativas e impunha taxas incompatíveis com a lei europeia.
O bloco determinou que a companhia trate serviços rivais de forma justa e não discriminatória nos resultados de busca e libere os desenvolvedores para promover ofertas dentro e fora da Play Store. O Google já apresentou propostas de mudança na exibição de resultados de compras, hotéis, voos, esportes e serviços de inteligência artificial, além de ajustes nas regras da loja, ainda em avaliação pelo regulador.
O prazo para cumprir as determinações é de 60 dias. Se não o fizer, a empresa fica sujeita a multas periódicas de até 5% do faturamento global — um percentual que, dado o tamanho da Alphabet, superaria com folga a punição desta quinta-feira.
O Google foi classificado como gatekeeper, o grupo de empresas submetidas às regras mais rígidas do DMA, em setembro de 2023. As investigações sobre a busca e a Play Store foram abertas em março de 2024, e a Comissão comunicou sua avaliação preliminar de descumprimento em março de 2025.
Esta é a primeira multa aplicada à companhia com base no DMA, mas está longe de ser a primeira na Europa: entre 2017 e 2019, o bloco impôs sanções que somaram € 8,2 bilhões por práticas anticoncorrenciais.
"Muito importante", classificou a decisão Henna Virkkunen, vice-presidente da Comissão Europeia para a Soberania Tecnológica, ao dizer que o objetivo é garantir "condições equitativas" a todas as empresas do ambiente digital.
Em nota, o presidente de Assuntos Globais da empresa, Kent Walker, afirmou que cumprir a decisão significará remover recursos que os europeus valorizam.
"Somos obrigados a retirar funcionalidades de busca em tempo real que os europeus valorizam, como a visualização instantânea de preços e a disponibilidade direta de hotéis, voos e restaurantes, além de desativar proteções de segurança no Google Play", declarou.
Poucas horas depois do anúncio, o representante do Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, criticou a punição. "As ações recentes da União Europeia representam um risco real para a continuidade da estabilidade transatlântica em relação ao comércio", afirmou, acrescentando que as decisões contra o Google criam "incerteza massiva" para as exportações americanas de bens e serviços.
A multa chega poucos dias antes de completar um ano o acordo entre Washington e Bruxelas que reduziu as tensões comerciais entre os dois lados do Atlântico. O governo de Donald Trump já havia acusado o bloco de perseguir empresas americanas de tecnologia e ameaçado retaliar com tarifas.